Às vezes ainda te sinto os odores daqueles “roll ons” com que polvilhavas os sovacos depois de um banho sorrateiro para ires namoriscar tuas beldades que te adoravam bastante, mas não desposaste nenhuma…e te perscruto os sons de teus batimentos altos da bola e de seguida uma frenética elevação que te garantia um sem espinhas sem paralelo.
Nada era miraculoso. Teu basquetebol era eclético. Teu trabalho para atingir a plenitude do jogo era intenso. Meu primeiro encontro com este jogo não foi dentro do perímetro dos garrafões ou enxergando fanático teus treinos, às vezes, na solidão sob céu abrasador do meio dia.
Eu dei de caras com o jogo através de um livro (outra vez a escrita por cima de toda a folha me toldando a memória)…que o mano Mousinho Mosse trouxe de Cuba, Esbec Samora Machel, Isla de la Juventud: Manual delBaloncesto, que devorei guloso, mas acabei praticante medíocre de nível provinciano.
(De Cuba com amor…nos finais de 70 e princípios de 82, os estudantes em Cuba escreviam missivas para os pais. Quando o correio chegasse, o senhor Daniel Mosse lia em voz alta para todos depois do jantar. Ainda criança eu já era um leitor inveterado e conheci a rumba, congolesa na origem, lendo o Mousinho e suas peripécias estudantis…mais tarde Buena Vista Social Club, IbrahimFerrer e Pablo Milanes. Bom…)
Tu, Vita, eras o tal! Craque que fez das suas em Maputo e quando regressaste a Inhambane abraçaste a formação como um “hobbie” predilecto. Hoje completarias 61 Bwabwas, “mermão” boémio, trabalhador da preguiça, funkista que pregava Kool and Gang…Fresh! So Fresh e voava numa rumba enchendo a sala toda….Commodores….Marvin/Marvin….adoravas ouvir isso e o Hortêncio Langa: “A ku sukela ka tolo u wakulova xikoluene…”. Pois é…
Minha memória sobre ti é voluptuosa. E vê uma coisa: tens dois amigos que nunca arredaram pé de ti, anichados para sempre no teu coração, vezes sem conta se recordam das tuas façanhas, boas ou más não interessa, na equação o que sobra é sempre o vapor iluminoso da tua personalidade.
Falo do Victor Vitorino Macuvel e do Chico Conceição. Vossa turma era a santíssima trindade da cultura freakmoçambicana nos anos 80: basquetebol, farras e pitas. Quando fossem a Inhambane, a cidade estendia-vos um tapete vermelho para vossa gingação.
Onde andas Vita? Há dias, fomos, nós os que sobramos, celebrar as memórias do papá e da mamã, que partiu a cinco anos (lembrei-me da sua chiguinha de cacana, dos cozidos à portuguesa, os naperons que ela crochava, e das saias plissadas que inventava naquela Singer que suturava nossos calções rasgados de futebol com bola de trapos algures no bangoé ou nos machongos de Chalambe hoje cobertos pelos mangais da nossa distração).
Nossa casa em Satharé ainda está intacta: o mano Derinhocuida dela. E já tens uns tantos sobrinhos e até netinhas de uma beleza estonteante. Hoje, no dia do teu nascimento, não penso na tua trágica morte, não. Penso na tua vida e na vida de teus grandes amigos com quem deves já ter-te cruzado nessa Nangilima onde repousam: Vadinho, Kikas, Orlando Malawene, Gildo “Rock” Guidumo“, Didi Azade, sei lá, a lista é já grande e contá-la aumenta o aperto no coração. Vitalino Tomás Pereira Mosse…um abraço fraterno…para sempre.
Tóto Mosse





