As viagens de um chefe de Estado raramente se esgotam na agenda oficial. Entre encontros diplomáticos, memorandos e declarações de intenção, a expectativa é que parte desses contactos venha a traduzir-se em investimento, financiamento ou cooperação. O Centro Cirúrgico Nacional, cuja construção arrancou esta semana no Hospital Central de Maputo, constitui um desses casos: resulta de um compromisso assumido entre Moçambique e a República Popular da China e materializa um financiamento superior a 40 milhões de dólares destinado a reforçar a capacidade cirúrgica do país.
O projecto começou a ganhar forma durante a visita de Estado de Daniel Chapo à China, realizada entre 16 e 22 de Abril. No final da deslocação, os dois países anunciaram o reforço da cooperação bilateral e Pequim confirmou o financiamento para a construção de um centro cirúrgico de referência em Maputo, integrado num conjunto mais vasto de entendimentos nas áreas da saúde, investimento e desenvolvimento.
A obra lançada esta semana permitirá acompanhar, pela primeira vez, todo o percurso de um compromisso diplomático: da negociação política ao início da execução. O centro será construído nas instalações do Hospital Central de Maputo, terá 475 camas, 14 blocos operatórios e cerca de 20.300 metros quadrados de área construída, devendo ficar concluído em 24 meses.
Nos últimos meses, as deslocações internacionais do Presidente da República suscitaram debate político, sobretudo quanto aos custos e aos resultados da aposta na diplomacia económica. Na cerimónia de lançamento da obra, Daniel Chapo respondeu directamente a essas críticas, afirmando que “essas viagens que o Chefe do Estado tem feito, e que dizem ser muitas, produziram resultados. O resultado está aqui”, apontando para o início da construção do Centro Cirúrgico Nacional.
Independentemente do debate político, a obra oferece um critério objectivo para avaliar este tipo de iniciativas. Ao contrário de protocolos ou declarações conjuntas, uma infraestrutura hospitalar permite medir resultados concretos: a execução do financiamento, o cumprimento dos prazos de construção, a entrada em funcionamento dos serviços e o impacto que estes vierem a ter no Sistema Nacional de Saúde.
A cooperação entre Moçambique e a China na área da saúde não começou com este projecto. Ao longo das últimas décadas incluiu missões médicas, formação de profissionais, doação de equipamentos e construção de infraestruturas. O Centro Cirúrgico Nacional representa, contudo, um dos maiores investimentos bilaterais já anunciados para o sector, reforçando uma parceria que os dois países decidiram elevar durante a visita presidencial a Pequim.
Dentro de dois anos será possível avaliar o projecto para lá da sua dimensão física. O número de cirurgias realizadas, os doentes tratados, os profissionais formados e a eventual redução das evacuações médicas mostrarão até que ponto um acordo diplomático conseguiu transformar-se num activo permanente para o sistema de saúde moçambicano.





