Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

31 de July, 2026

O palácio da SADC e as ruas de pó de Inkassane

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O Distrito Municipal da Ka-Tembe, na Cidade de Maputo, e de forma particular o bairro de Inkassane, viveu, no passado dia 11 de Junho de 2026, um momento histórico. Ergueu-se no nosso bairro uma imponente infra-estrutura de envergadura internacional: o Centro Regional de Coordenação, Monitorização, Controlo e Fiscalização das Pescas da SADC. O estatuto deste edifício é de tal ordem que a sua inauguração mereceu honras de Estado, conduzida pelo Presidente da República, Daniel Chapo.

Para quem acompanha a transição urbana da Ka-Tembe, um edifício deste porte – alto, imponente e moderno – deveria ser o sinal definitivo de uma nova era de organização e planeamento por parte das autoridades municipais. No entanto, para nós, moradores de Inkassane, o cenário que rodeia este “palácio” institucional desperta um profundo e desconcertante misto de esperança e tristeza.

A esperança está no facto de Inkassane ser uma zona de expansão em franco e orgulhoso crescimento. O bairro tornou-se o destino favorito de cidadãos de bem que aqui escolheram estabelecer as suas residências e criar os seus filhos. Entretanto, não são as casas em si que interessa debater neste espaço, mas é impossível não notar que elas revelam um prenúncio de evolução satisfatória.

Quando olhamos para as novas construções de Inkassane, vemos autênticos palácios, erguidos com o suor e investimento privado de quem acredita no futuro da Ka-Tembe. O contraste com os antigos bairros da cintura periférica de Maputo é evidente. A chegada do Centro da SADC alimenta a nossa esperança de que o bairro finalmente conquistou o respeito que merece, atraindo os olhos da região para o nosso potencial.

Contudo, a tristeza bate à porta sempre que desviamos o olhar do topo do edifício espelhado da SADC e olhamos para o chão que pisamos. É uma tristeza profunda ver que o avanço da arquitectura privada e a imponência da diplomacia correm à alta velocidade, enquanto o poder público municipal teima em ficar a reboque, parado no tempo.

É preocupante e doloroso constatar que um centro internacional desta magnitude, que vai acolher delegações estrangeiras e governar a Economia Azul da África Austral, tenha sido inaugurado no meio da terra batida. A poeira sufocante que se levanta à passagem dos carros, os solavancos das vias de acesso e a penumbra que engole as nossas ruas ao cair da noite lembram-nos, diariamente, do abandono e da falta de serviços básicos.

Não podemos aceitar que o desenvolvimento de Inkassane aconteça apenas “dentro de portas”. O vidro espelhado do edifício da SADC reflecte a modernidade que merecemos, mas o pó das ruas lembra-nos da gestão municipal que ainda temos. Urge que o Conselho Municipal de Maputo assuma as suas responsabilidades com o rigor que o momento exige.

É, portanto, uma prioridade inadiável asfaltar a via que dá acesso ao centro de pescas, partindo de onde, abruptamente, foram interrompidas as obras de pavimentação da estrada que parte da Rotunda ao Posto Policial da Marinha até ao terminal de Mutsekwa.

É igualmente urgente iluminar as ruas residenciais para garantir a segurança dos cidadãos e, acima de tudo, fiscalizar com acuidade e pulso firme a venda irregular de terrenos. O mercado da venda da terra e o silêncio cúmplice das autoridades locais ameaçam estrangular o futuro de Inkassane antes mesmo de ele se consolidar. Se a Ka-Tembe é o farol de Maputo, as autoridades municipais precisam de acordar hoje!

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