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3 de July, 2026

As duas rodas que nos movem e nos ferem: uma reflexão a partir da fisioterapia do HCM

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Viajar a trabalho por este belo Moçambique permite-nos cruzar paisagens e realidades marcantes. Em 2025, regressei à província de Cabo Delgado com destino ao bonito e organizado distrito de Montepuez. O que deveria ser apenas mais uma jornada produtiva, transformou-se, contudo, num divisor de águas na minha vida.

Ali, fui vítima de um grave acidente de moto-táxi. Num instante, o meu pé direito prendeu nos raios da roda da motorizada, rasgando violentamente o meu calcanhar. Por um milagre, a ferida profunda não cortou o tendão de Aquiles nem a veia principal. O susto inicial deu lugar a uma longa batalha pela recuperação, que incluiu o meu regresso à capital e um internamento de quase duas semanas no Hospital Central de Maputo.

Foi precisamente nos corredores do HCM que comecei a perceber que a minha dor não era solitária. Apesar das conhecidas pressões sobre o nosso sistema de saúde, a verdade é que fui tratado com um profissionalismo e uma humanidade exemplares por toda a equipa médica e de enfermagem. Mais do que cuidados clínicos, o hospital proporcionou-me um inesperado espaço de partilha humana. A partir da cama da Cirurgia 2 fiz amizades profundas com outros internados, laços que superaram as paredes do hospital e que as conservo até hoje.

Aprendemos muito quando estamos acamados. A imobilidade deuma cama de hospital força-nos a desacelerar, a ouvir o outro e a desenvolver uma empatia profunda pelas provações alheias.Após a cicatrização da ferida, seguiu-se a etapa mais reveladora de todo este processo: as sessões de fisioterapia. Durante pouco mais de três meses, dependente de muletas e impedido de trabalhar, frequentei aquele espaço.

É ali, entre os equipamentos de reabilitação e os exercícios dolorosos, que se ganha uma visão real, nua e crua, sobre o nível e a gravidade dos acidentes que ocorrem com as duas rodas no nosso país. O pavilhão da fisioterapia é o reflexo de uma tragédia silenciosa. Ao meu lado, vi jovens, adultos, homens e mulheres, outrora produtivos, agora limitados ou permanentemente deficientes devido a acidentes das nossas populares e também prestativas moto-táxis.

É um cenário desolador que urge tirar da invisibilidade clínica e levar para o debate público. Com o crescimento exponencial do transporte motorizado em cidades como Maputo, e de forma muito particular no nosso distrito municipal da Ka-Tembe, as moto-táxis deixaram de ser uma novidade para se tornarem umserviço essencial.

Sejamos realistas: este serviço veio responder a uma procura real e preencher o vazio deixado pela ineficiência e insuficiência dos transportes públicos tradicionais para responder à demanda diária. Na Ka-Tembe, onde as distâncias entre os bairros e as vias principais são longas, as motas são, muitas vezes, a única salvação para quem precisa de se deslocar. O serviço é, sem dúvida, essencial. Mas o problema não é a existência do meio de transporte, sim a total informalidade em que ele opera.

Diante do rasto de sangue e traumas testemunhados nos nossos hospitais, faz-se urgente e imperativo acelerar o processo de licenciamento e fiscalização destes operadores. Não podemos continuar a tolerar que indivíduos sem qualquer formação ou documento legal, como a carta de condução, transportem vidas humanas diariamente.

Obrigar os operadores a cumprir regras básicas de trânsito, a estarem devidamente encartados e a utilizarem equipamentos de protecção adequados para si e para os passageiros não é uma perseguição económica; é um acto de preservação da vida. A regulamentação vai introduzir a prudência e a ordem necessárias num sector que hoje opera na sorte do improviso.

O meu calcanhar recuperou e as muletas ficaram para trás, mas a memória daqueles que continuam a lutar para voltar a andar nas camas de hospitais ou de fisioterapia, permanece viva. O desenvolvimento da Ka-Tembe e de Maputo não se pode medir apenas pelo número de veículos que circulam nas estradas, mas sim pela segurança com que os seus cidadãos chegam ao destino.

Regular as moto-táxis é proteger o trabalhador que conduz, o passageiro que confia a sua vida e a economia de um país que não pode continuar a perder a sua força jovem para as estatísticas de um trânsito sem regras.

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