O descrédito dos anteriores instrumentos estatais de financiamento a iniciativas de negócios nas comunidades moçambicanas, devido a denúncias de alegada “partidatização” dos apoios e a falta de idoneidade dos beneficiários, terão sido lições para que o desenho e implementação do Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL), uma das principais bandeiras do manifesto de Daniel Chapo, seja feito acima de nuvens de suspeição e guiados por inclusão e lisura.
Carta de Moçambique tomou o pulso da execução do FDEL em três distritos da província de Tete, centro de Moçambique, e entrevistou os principais actores, incluindo os mutuários.
Os denominadores comuns dos testemunhos recolhidos são a preocupação com a inclusão, sem discriminação com base na cor partidária ou de outra índole, rigor na avaliação técnica dos projectos apresentados, para assegurar a viabilidade das iniciativas e o reembolso dos montantes, bem como a transparência na distribuição do dinheiro.
Chifunde, a 102 quilómetros da cidade capital, Tete, é um dos “laboratórios do FDEL”, na província. Em 2025, recebeu 5.800.000 Meticais, para 88 projectos aprovados, dos 919 que concorreram, disse à Carta o secretário permanente do distrito, Francisco Chicote.
Fazendo jus ao objectivo de criação de oportunidades de negócios e de emprego para jovens, 64 dos 88 concorrentes aprovados em Chifunde são daquela faixa etária (90%), afirmou Chicote.
Para garantir o princípio de inclusão, foram seleccionados projectos de todas as 11 localidades dos três postos administrativos.
Francisco Chicote apontou a participação de líderes comunitários e de líderes tradicionais, incluindo figuras assumidamente da oposição, na identificação dos mutuários e da sua residência nas localidades abrangidas, como forma de assegurar um tratamento igual a todos.
As comissões de selecção dos projectos incluem membros da sociedade civil, líderes comunitários e tradicionais, bem como religiosos.
Os projectos são recebidos, analisados e propostos por uma equipa técnica, constituída por quadros do governo distrital, e submetidos ao governo distrital, que os aprova, para depois serem homologados pelo administrador distrital.
Chicote disse que os mutuários são submetidos a uma capacitação em negócios, para assegurar a viabilidade das suas iniciativas e garantir o reembolso dos valores recebidos, visando permitir que mais beneficiários tenham acesso ao fundo.
“O maior desafio é a inexperiência dos mutuários em gestão de negócios, porque, para eles, um financiamento de 30 mil ou 50 mil não é algo normal. Precisam de capacitação e isso é o que tem sido feito, porque é parte do Manual de Procedimentos do FDEL”, frisa.
Os projectos seleccionados em Chifunde são das áreas da agricultura, pecuária, restauração, comércio e reprografia.
Francisco Chicote assinala a importância da planificação, monitoria e avaliação de todos os empréstimos concedidos aos beneficiários para garantir a sustentabilidade do fundo.
Estou aliviado – Mateus Enoque Andrade, mutuário
Mateus Enoque Andrade, 26 anos, recebeu do FDEL 75 mil Meticais, para o projecto de venda de material eléctrico que submeteu.
Alugou uma pequena loja em Chifunde, onde nasceu e vive, e colocou à venda lâmpadas, tomadas, abraçadeiras e disjuntores.
O dinheiro também lhe permite estar a criar condições para a construção da sua própria loja, onde vai continuar a desenvolver o negócio que iniciou com o dinheiro do FDEL.
“Antes vendia milho e era um negócio cheio de incertezas, agora sinto-me mais seguro”, refere.
Apostar no negócio de material eléctrico foi uma decisão natural para Mateus Enoque Andrade, uma vez que fez um curso de electricidade, ao mesmo tempo que concluía a 12ª classe.
FDEL pode ajudar a combater pobreza urbana – administradora de Chiúta
Ao equipar os jovens das zonas rurais com capacidade financeira para o empreendedorismo, o Governo de Daniel Chapo dá dignidade aos mutuários, mas também ajuda a desestimular fluxos migratórios que resultam na pobreza urbana que se vive nas cidades moçambicanas, considera a administradora de Chiúta, Lúcia Alberto Zambele Claver.
“Com os negócios que os jovens desenvolvem com o dinheiro que recebem do FDEL, cria-se bem-estar para os mutuários, dão emprego a outros jovens e não têm de sair da sua comunidade, para a cidade de Tete, onde caem na marginalidade ou criminalidade”, afirma Claver, em declarações à Carta.
Chiúta recebeu pouco mais de 4,5 milhões de Meticais, em 2025, para 99 projectos aprovados, nas áreas da agricultura, indústria moageira, pecuária e comércio.
“O FDEL está a ser muito bem recebido pelas comunidades”, afirma.
Já estou a criar emprego – Mateus Maquezane
Com os 30 Mil meticais que recebeu, Mateus Maquezane, 31 anos e pai de dois filhos, abriu um “mini-restaurante” simples, na vila-sede de Chiúta, onde confecciona refeições.
No mesmo local, vende refrescos e aparelhos electrónicos.
Teve de empregar dois trabalhadores, dando oportunidade de trabalho a duas pessoas que estavam desempregadas.
“Apelo aos jovens para devolverem o dinheiro, porque os outros estão na lista de espera, pela sua vez. A partir de Julho, tenho de devolver 2.500 Meticais por mês”, exorta.
Bicicletas para a felicidade – Rosemary José
Rosemary, 52 anos, já fazia negócios em Chiúta, mas com os 50 mil Meticais que teve do FDEL, recheou as suas duas lojas, uma com roupa usada e outra com vários utensílios, principalmente peças de bicicleta, um meio de transporte muito procurado no seu distrito.
“O meu negócio cresceu, com essa ajuda de 50 mil Meticais que recebi. Sei que devo devolver, para que os meus irmãos e irmãs [outros compatriotas] também tenham dinheiro”, enfatiza Rosemary, um nome inglês, o que é normal nos distritos do centro e norte de Moçambique que fazem fronteira com países que foram colonizados por Inglaterra.
Antes estava sufocado – Capece, Cahora Bassa
No distrito de Cahora Bassa, 64 projectos foram seleccionados, no âmbito do FDEL, tendo sido abrangidos mutuários de todas as nove localidades.
Um dos seleccionados, José Rodrigues, diz que os 250 mil Meticais que recebeu para desenvolver a piscicultura tiraram-no de uma situação de sufoco, porque o comércio de milho e de roupa usada que fazia antes já não estava a dar.
“É um projecto muito excelente, classifico como uma ‘mão de Deus’, porque pode mudar a minha própria condição. Eu vendia milho e calamidade, mas agora está muito diferente, porque estava muito sufocado”, afirma Capece.
Considera que a criação em cativeiro de peixe vai permitir a geração de mais postos de trabalho, porque o desemprego é grave no país.
“O meu sonho é conseguir mais tanques de piscicultura, a partir deste primeiro que comprei com o dinheiro do FDEL”, enfatizou.
Mais de 356 mil projectos aprovados em todo o país
Dados do Ministério da Planificação e Desenvolvimento indicam que, desde o início da implementação do FDEL, em 2025, foram aprovados 356.663 projectos, em todo o país.
Dos 356.663 projectos submetidos, 347.696 são de singulares, sendo 205.149 de homens e 142.547 de mulheres.
Em termos de áreas de actividades, o comércio lidera com 42,85%, seguido da agricultura (22,97%) e avicultura (11,97%)
O valor global dos projectos submetidos é de 52.131.961.596,64 MT contra o valor alocado de 824.614.426,22 MT, ou seja, apenas 1,58% do necessário para atender todos os pedidos de financiamento.





