Há ironias que não chegam a ser subtis. Apenas entram pela porta da frente, sentam-se no sofá e pedem chá.
A África do Sul volta, uma vez mais, a flertar com os seus velhos demónios xenófobos. Reaparece o enredo já conhecido desde pelo menos 2008: quando o desemprego cresce, quando a desigualdade se mantém obscena, quando as promessas da transição democrática começam a soar como vinil riscado, o culpado conveniente passa a ser o estrangeiro africano. O moçambicano, o zimbabweano, o malawiano, o congolês — essa geografia inteira transformada, de repente, em bode expiatório.
É sempre mais fácil culpar quem atravessa a fronteira do que interrogar a arquitetura económica herdada. O estrangeiro oferece uma vantagem política irresistível: não vota, não tem tribuna e, quase sempre, chega cansado demais para responder.
Em 2015, Mia Couto escreveu uma carta aberta a Jacob Zuma que ainda hoje devia circular, não apenas nas escolas, mas também nos gabinetes ministeriais. Nela recordava ter cruzado com Zuma na Avenida Julius Nyerere, em Maputo, quando este era refugiado do apartheid. A memória tinha a delicadeza de um lembrete e a firmeza de um arquivo moral: houve um tempo em que a liberdade sul-africana também foi construída com o preço pago por outros.
Convém não esquecer. O sul de Angola conheceu ataques. A Matola guarda no seu chão a memória da incursão de 1981. A solidariedade regional não foi uma metáfora diplomática. Teve sangue, funerais e nomes próprios.
Pagou-se um preço por estar do lado certo da história.
E talvez seja essa a parte mais amarga desta cena: a memória, em política, costuma ser curta; mas, em certos casos, parece também seletiva.
O apartheid tinha fundamento racial, sim. Mas, no fundo, era a institucionalização da diferença. A ideia perversa de que o outro — por ser outro — ameaça a ordem. E eis a ironia histórica, quase obscena: os negros outrora subjugados a subjugarem outros negros. O moçambicano, o malawiano, o zimbabweano — todos convertidos na nova figura do intruso.
Muda-se a pele do opressor. Conserva-se o vício do desprezo.
E o ridículo atinge um grau difícil de ignorar quando o mesmo país que sobe à tribuna da ONU para denunciar o genocídio em Gaza tolera, em casa, a perseguição sistemática de africanos pobres. O debate internacional merece ser levado a sério. Mas também convém dizer isto com franqueza: há uma ginástica moral bastante desconfortável em apedrejar estrangeiros em Joanesburgo e assinar resoluções em Nova Iorque.
Não se trata de negar a complexidade do tema. Migração irregular é uma questão séria. Pressiona escolas, hospitais, habitação, transportes e a já limitada capacidade de resposta de políticas públicas. Um Estado social não é um buffet livre.
Mas reduzir a crise sul-africana ao estrangeiro é uma fraude analítica.
O problema é mais fundo. Está no desemprego estrutural. Está na desigualdade persistente. Está numa economia que democratizou o voto, mas não democratizou suficientemente a riqueza. Está também na longa sombra colonial, nessa velha fábrica de fronteiras artificiais, dependências económicas e ressentimentos acumulados.
Culpar o imigrante pelo desemprego é intelectualmente tão honesto quanto atribuir a ressaca ao copo de água bebido entre dois uísques.
E o mais inquietante talvez seja isto: há políticos a perceber que o medo rende votos.
Num país em que o ANC já não ocupa com a mesma folga o centro absoluto do poder, a tentação populista ganhou espaço. Falta, no ativo, uma autoridade moral e política capaz de mobilizar no sentido contrário. E quando isso acontece, a violência deixa de ser apenas desordem social. Passa a ser linguagem política.
Fica mais fácil prometer expulsar o malawiano do bairro do que criar empregos. Mais simples culpar o nigeriano da esquina do que explicar o dinheiro desviado das escolas, dos hospitais e da promessa democrática.
O que vemos agora não surgiu do nada. É apenas a formalização de gestos antigos. Pequenos desprezos quotidianos. O olhar atravessado. A burocracia seletiva. A humilhação microscópica.
Quem já passou pelo aeroporto de Joanesburgo sabe do que falo.
Às vezes, a xenofobia não precisa de slogan. Basta um carimbo dado com excesso de zelo, uma pergunta feita com uma frieza estudada, um olhar que diz, sem dizer, “tu não pertences aqui”. Já experimentei esse desdém. Desnecessário, gratuito, quase administrativo. Como se o passaporte moçambicano fosse, por si só, uma declaração de suspeita.
E talvez seja esse o dado mais perturbador: antes das multidões, antes dos gritos, antes das lojas saqueadas, a violência já estava ali — pequena, banal, quase invisível.
No fundo, a tragédia é esta: um país que ensinou ao mundo uma das mais impressionantes lições de resistência contra a opressão parece, por momentos, esquecer a própria gramática da sua libertação.
E a história, que raramente perde o sentido de humor, acaba por oferecer às vítimas de ontem a tentação de imitar os carrascos de anteontem.
Enquanto isso, nas redes sociais, proliferam os filósofos instantâneos da indignação nacional, escrevendo com uma facilidade espantosa: “estrangeiros, voltem para casa”.
Esquecem-se apenas de um detalhe.
Algumas dessas casas — inclusive a liberdade de as habitarem — também foram erguidas pelas mãos daqueles que hoje se quer expulsar.
Leonel Matusse Jr.

