A escassez de combustível começa a afectar o transporte público na área metropolitana de Maputo, deixando milhares de passageiros sem alternativas para se deslocarem aos seus locais de trabalho, às suas casas e às escolas.
Transportadores relatam longas horas de espera nas filas de abastecimento, muitas vezes sem sucesso.
“Estou há dois dias sem trabalhar. Fico mais de cinco horas nas bombas e, no fim, o combustível acaba sem eu conseguir abastecer”, disse o operador Carlos João Matusse.
Segundo vários profissionais do sector, a situação tem condicionado seriamente a actividade.
“Estamos a operar com muitas dificuldades. Perdemos muito tempo nas filas de abastecimento. Não é por vontade própria que deixamos de operar, mas a situação está complicada. Conseguimos combustível com muito sacrifício e o número de viagens reduziu bastante”, referiram, alertando para a possibilidade de paralisação de vários operadores.
Na Praça da Juventude, vulgarmente conhecida como rotunda de Magoanine, os transportadores que utilizam a Avenida Julius Nyerere pedem prioridade no abastecimento, de forma a garantir o transporte de trabalhadores e estudantes.
Alguns afirmam estar na fila desde as 20h00 do dia anterior, sem conseguirem abastecer até às primeiras horas da manhã de segunda-feira.
Na manhã desta segunda-feira, mais de 60 viaturas de transporte semi-colectivo encontravam-se na fila para abastecimento, enquanto dezenas de passageiros permaneciam nas paragens sem conseguir transporte.
Proveniente de Marracuene, Lúcia Marcos Nhampossa relatou à reportagem que trabalha na Matola e costuma sair de casa às 05h30, conseguindo transporte em cerca de 20 minutos. No entanto, nesta segunda-feira, só conseguiu seguir viagem às 09h00.
“Quase desisti de ir trabalhar, mas, no último minuto, apareceu transporte, depois de mais de duas horas na paragem sem ver sequer um “chapa”. Só não desisti por um sentimento de responsabilidade”, declarou.
Já Elina Pedro Molina, residente no Bairro Patrice Lumumba, no município da Matola, afirma que a situação agravou as dificuldades já existentes.
“Mesmo sem crise, já era difícil apanhar transporte aqui. Agora piorou. Os poucos “chapas” que circulam preferem passageiros de percursos curtos. Para quem vai até à Baixa, cobram até 50 meticais e exigem pagamento imediato”, disse, apelando a explicações por parte do Governo.
Carlos Chissico, por sua vez, diz contar com a compreensão da entidade patronal, mas relata atrasos constantes.
“Desde quinta-feira, chego ao trabalho por volta das 10h00. Hoje devo chegar novamente a essa hora. Estou aqui no terminal da Matola Gare há mais de duas horas, sem transporte”, lamentou.
Durante uma ronda efectuada no início da tarde em várias artérias da cidade e província de Maputo, a reportagem constatou que muitos transportadores se encontram exaustos. Alguns afirmam não dormir desde domingo, na tentativa de conseguir combustível, enquanto outros passam o dia nas filas sem conseguir trabalhar.
Um operador explicou que a quantidade de combustível que muitas bombas disponibilizam é insuficiente para garantir a actividade diária:
“Com cerca de 12 litros, uma ‘mini-bus’ não consegue operar nem cinco horas. Não compensa sair do parque. E o tempo que passamos nas filas impede-nos de transportar passageiros”, disse, alertando para o agravamento da crise nos próximos dias.
Ainda durante a tarde, a reportagem visitou o terminal de “chapas” de T3, onde constatou que a crise de transporte é visível. Poucos “chapas” estão a operar em quase todas as vias. Um facto curioso foi observado na fila de “chapas” com destino a Marracuene: os poucos transportadores presentes apenas chamavam passageiros até Benfica, o que significa que quem pretendesse chegar a Marracuene teria de apanhar vários “chapas” até ao destino.
Laurino Marcos Maciel, proprietário de duas viaturas que operam nas rotas Matola Gare – T3 e Zimpeto – Cidade da Matola, também relata prejuízos.
“Na semana passada, tive dias em que os motoristas não trabalharam. Ficaram mais de três horas nas bombas e o combustível acabou antes de conseguirem abastecer”, afirmou.
“Nós, proprietários de viaturas, estamos apenas a acumular prejuízos com esta crise de combustível. E o Governo chama-nos de ‘palhaços’, afirmando que em Moçambique não há crise”, lamentou.
Entretanto, o Ministério dos Recursos Minerais e Energia autorizou recentemente a “compra livre” de combustível, permitindo que os postos adquiram produto a qualquer distribuidor licenciado, independentemente de contratos de exclusividade.
A medida visava agilizar o fornecimento e garantir o abastecimento aos consumidores, mantendo-se, contudo, a fiscalização da qualidade e dos preços para evitar especulação. Ainda assim, no domingo, o Governo assegurou que há combustível suficiente no país, uma informação que contrasta com a realidade observada nas ruas.





