A localidade de Salamanga, no distrito de Matutuine, província de Maputo, vive momentos de tensão e incerteza, na sequência do baleamento mortal de um jovem, alegadamente envolvido em actividades de caça furtiva. O incidente, que é atribuído aos fiscais do Parque Nacional de Maputo, ocorreu no passado dia 24 de Dezembro, na residência da vítima.
Relatos colhidos no terreno pela TV Miramar indicam que a situação se agravou nesta terça-feira, tendo culminado em confrontos entre a população e agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM), em particular da Unidade de Intervenção Rápida (UIR).
De acordo com a TV Miramar, após o baleamento mortal do jovem, a comunidade exigiu a realização de uma reunião com as autoridades locais e a administração do Parque Nacional de Maputo, encontro que estava agendado para a passada terça-feira, 06 de Janeiro.
No entanto, o evento foi cancelado repentinamente, facto que causou tensão e indignação popular. Em resposta, moradores ergueram barricadas na Estrada Nacional Nº 1, facto que levou à intervenção da temida e violenta UIR.
Testemunhas que falaram em anonimato àquela estação televisiva contaram que a tensão começou após disparos de armas de fogo e lançamento de gás lacrimogéneo, situação que causou pânico generalizado, feridos e a paralisação das actividades comerciais no mercado local.
“Ficámos com muito medo. A Polícia chegou a disparar, sem diálogo. Fomos tratados como animais”, afirmou uma vendedeira, acrescentando que várias pessoas terão sido baleadas e encaminhadas para o Hospital Central de Maputo. Aliás, um dos depoimentos refere que um cidadão chegou a impedir a introdução de gás lacrimogéneo pela Polícia num estabelecimento comercial.
Da acção policial, gerou-se o caos que culminou com a vandalização e incêndio da Secretaria Administrativa da Localidade de Salamanga. Janelas partidas, mobiliário queimado, sistema eléctrico danificado e documentos inutilizados é o retrato ilustrado pela TV Miramar em resultado da fúria popular.
Curiosamente, as testemunhas revelam que grande parte dos actos de vandalização vividos em Salamanga foram protagonizados por mulheres, numa inversão do padrão dos protestos naquela região do país.
A população de Salamanga exige diálogo urgente entre a comunidade, as autoridades do Parque e o governo local, de forma a esclarecer os acontecimentos e evitar a repetição de episódios de violência verificados na última terça-feira.
Três fiscais detidos em conexão com o caso
Em conexão com o caso, três fiscais do Parque Nacional de Maputo encontram-se detidos indiciados de envolvimento na morte do jovem. A informação foi avançada ontem pelo Chefe da Polícia, na província de Maputo, Rosário Miquitaio, que revelou que a detenção ocorreu após as diligências feitas com vista a encontrar e responsabilizar os infractores.
No entanto, o Comandante Provincial da PRM, em Maputo, disse ter ficado surpreendido com a atitude da população, visto que houve uma orientação segundo a qual não devia haver paralisação de circulação de pessoas e bens, mas sim o diálogo.
“A população surpreendeu-nos quando bloqueou a via. Mandamos uma equipa para a negociação que levou mais de duas horas, sem sucesso. Foi preciso usarmos meios coercivos para abrir a via. Na sequência capturamos os cabecilhas que vão responder em Tribunal pelos actos que cometeram. Durante esta captura houve um grupo que criou condições de fugir do local onde se encontrava e foi queimar a sede da localidade e a residência do fiscal, estes também foram identificados”, narrou.
Refira-se que a localidade de Salamanga, no sul da província de Maputo, foi também palco de violência durante os protestos pós-eleitorais, que culminou com o incêndio da Portagem de Mudissa, gerida pela Rede Viária de Moçambique (REVIMO).





