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21 de October, 2025

Andrew Pearse: banqueiro das “dívidas ocultas” caído em desgraça trabalha no lixo

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Abandonado pela família, desempregado e sem casa, o sonho, agora, do ex-banqueiro endinheirado Andrew Pearse é apostar no negócio em que a sua vida se tornou: lixo.

Pearse, um dos dos arquitectos do esquema das “dívidas ocultas” de Moçambique, perdeu tudo, depois de ter sido condenado em Brooklin, Estados Unidos, pelo seu envolvimento no escândalo das “dívidas ocultas”, escreve o jornal espanhol “El País”.

“O seu matrimónio acabou. A sua relação com os três filhos se desintegrou. Perdeu a sua casa, as suas poupanças e a sua carreira”, pode ler-se na referida matéria, com o título: “Viver com todo o trapo a recolher lixo: A queda aos infernos de um banqueiro estrela”.

Director-executivo do Grupo Credit Suisse AG até à sua prisão nos EUA, na sequência do “papel-chave” nas “dívidas ocultas”, vive na casa de hóspedes de um amigo, viaja na classe económica – antes era transportado na executiva-, já não conta com o salário multimilionário dos tempos de banqueiro e trabalha na recolha de lixo, prossegue a reportagem do “El País”.

“Quando fui detido em 2019, não tinha ideia do que os outros passam”, disse Andrew Pearse, em entrevista a “Bloomberg”, citada pelo jornal espanhol.

Com base em documentos judiciais, depoimentos de advogados, amigos, políticos e familiares, Pearse é descrito como “arrogante”, “banqueiro egoísta” e “imprudente”, durante os tempos em que tinha poder e nadava em dinheiro.
Nasceu na Nova Zelândia, em 1969 e aos três anos, mudou-se com a família para Tóquio e, sete anos depois, saiu definitivamente para Londres.

Viveu uma infância difícil. O pai era distante, exigente e intolerante ao fracasso.

Cedo, Andrew Pearse compreendeu que “os estudos e o desporto seriam o caminho para um sucesso que lhe atraísse a atenção face às humilhações que passou com o pai”, refere uma carta que Catherine, a ex-mulher, escreveu para o juiz que o condenou em Brooklin.

Durante muitos anos, seguiu a trajectória de muitos jovens ambiciosos de famílias endinheiradas, que, depois, se tornavam em profissionais de grande craveira em Londres, nos anos de 1990.

Estudou numa escola privada cara, numa universidade prestigiada e começou a carreira de jurista e entrou no lucrativo mundo da banca.

Em 1996, Andrew Pearse casou-se com Catherine, uma advogada de renome. Formaram família e tinham uma extraordinária casa de campo.

Apesar de um percurso extraorinário na banca, Andrew Pearse também ficou ligada a negócios ruinosos, que resultaram na perda de biliões de dólares e escândalos financeiros internacionais, relata o “EL País”.

Como assessor financeiro em várias operações, prometia o saneamento de bancos em falência, mas a sua intervenção saldava-se em bancarrotas.

“A Pearse convinha receber o seu bónus de 200 mil libras e o mundo era incrível. É muito dinheiro, não é verdade? Acordava às 5h30 da manhã e ia a correr para o trabalho. Encatava-me”, afirmou o ex-banqueiro.

É descrito por antigos colegas como astuto, trabalhador e negociador rigoroso. Mas podia ser arrogante, presunçoso e ambicioso pelo dinheiro.

Clientes ingênuos seduzidos pelo “striptease”
A partir de 2011, Andrew Pearse começa a trabalhar com empresas, governos e multimilionários de países da antiga URSS, do Médio Oriente e de África.

Banqueiros do Credi Suisse, que falaram na condição de anonimato, relatam que uma das estratégias de Andrew Pearse era “apanhar focas”, uma metáfora que se referia a gente com muito dinheiro, mas ingênuos.

Pearse incentivava aquele grupo bancário a explorar “zonas cinzentas” da regulação e a aceitar clientes que eram rejeitados por outros bancos, devido a riscos reputacionais e políticos.

A cultura corporativa no Credit Suisse era propenso a excessos. “Entretenimento” era um eufemismo para levar os clientes a jantares, clubes nocturnos e de “striptease”, escreve ainda o “El País”.

O banco USB, que ficou com o Credit Suisse em 2023, negou pronunciar-se sobre a situação que encontrou na instituição.

Em 2012, Andrew Pearse decidiu criar a sua própria empresa e estabeleceu contacto com o grupo de estaleiros navais Privinvest, que construiu os barcos de pesca de atum, vistos como parte do negócio de fachada para a mobilização dos dois mil milhões de dólares das dívidas ocultas.

A Privinvest era do empresário franco-libanês Iskandar Safa, uma figura com ligações políticas.

Um dos principais colaboradores de Safa era o empresário Jean Boustani, que já iniciara contactos com o Credit Suisse, para o financiamento do projecto naval moçambicano. Nas suas primeiras averiguações, este banco alertou para os riscos de subornos e violação da lei nas relações com o Privinvest.

Privinvest se tornou em cliente de Andrew Pearse, cujo trabalho era gerir centenas de milhões de dólares de empréstimos daquela empresa de estaleiros, através da venda de “tuna bonds” a clientes.

Em 2013, antes de Pearse deixar o Credit Suisse, Jean Boustani prometeu, numa conversa na piscina de um hotel, pagar ao banqueiro cinco milhões de dólares, para financiar a sua nova empresa.

Em Setembro de 2013, abandonou o banco suíço e criou a Palomar, nos Emiratos Árabes Unidos (EAU).

Durante os anos seguintes, a Privinvest pagou 45 milhões de dólares de subornos a Andrew Pearse, Detelina Subeva e Surjan Sing, na altura empregados do Credit Suisse que tiveram um papel fundamental no financiamento do esquema das “dívidas ocultas”.

Através das influências dos três, os estaleiros navais conseguiram os dois mil milhões de dólares com garantias do Estado moçambicano, que levaram ao colapso da economia do país, corte da ajuda externa e a processos judiciais que resultaram na condenação de altos dirigentes da administração pública do tempo do Presidente Armando Guebuza.

Em 2016, tudo se desmorou. Adrew Pearse e outros cúmplices moçambicanos e estrangeiros entraram em decadência.
Alvo de vários processos judicias e banido do sector bancário, Pearse trabalha agora na recolha de lixo e o seu sonho é criar uma empresa de recolha de resíduos.

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