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23 de September, 2025

Quiosque “Chega de Perto”

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Há nomes de estabelecimentos que soam a conselho, outros a ordem, outros ainda a piada. O “Quiosque Chega de Perto” combina tudo isso. Afinal, quem poderia comprar de longe? Não é óbvio que, para escolher um refresco ou uma pastilha, é preciso aproximar-se do balcão? A nossa imaginação é imbatível. E é precisamente porque ela é assim, suponho, que conseguimos sobreviver. Trabalho e inteligência não nos levam longe.

Imaginação, sim, ainda que seja uma pena que ela seja mais evidenciada por quem só a utiliza para sobreviver, não por quem ocupa posições de poder e conseguiria maior efeito se a pusesse ao serviço do bem comum.

O humor nasce justamente dessa redundância. O dono do quiosque transformou o evidente em slogan. Ao cliente, resta sorrir. Claro que vou chegar de perto, como poderia ser de outro modo? Mas a frase carrega também um tom de intimidade. Não se limite a olhar de longe, venha mesmo, aproxime-se, confie. Quem não confia, não petisca, por assim dizer. Está aí a sociologia do quotidiano presente neste momento. É sobre a gestão da incerteza, não do risco porque nas nossas condições só podemos lidar com perigos, isto é, com ameaças de fora (de nós), não com situações que nós próprios produzimos. Embora eu tenha argumentado contra a ideia, há um pouco de razão quando a sociologia do risco diz que só sociedades tecnologicamente avançadas é que conhecem o risco. É preciso conhecimento para produzir risco. Quem não tem o conhecimento, vive na incerteza. Sim, mas aí convoca a imaginação e esta é superior.

O nome sugere, além disso, uma filosofia de comércio popular. A venda não é só transação, é também proximidade social.

Comprar implica encurtar distâncias, portanto, distâncias físicas, sim, mas também humanas. Chegamos mais perto do outro e lá sentimos a catinga e todos os odores que nos devolvem a certeza de estarmos em espaços familiares. No quiosque, o cliente não é apenas uma carteira com pernas. É alguém que chega perto, que troca duas palavras, que estabelece cumplicidade. Até pode pôr a conversa em dia. Pode falar mal da Frelimo logo de manhãzinha cedo, embora também nunca seja cedo demais para fazer isso.

E há ainda uma astúcia prática. Em mercados e praças movimentadas, há quem observe de longe, sem se decidir. O “Chega de Perto” resolve a indecisão com uma pequena provocação. Se não chegares, não levas nada. É uma espécie de marketing minimalista, sem cartazes luminosos nem promoções agressivas.

Basta aquele imperativo pintado na chapa. Mas, lida com malícia, a frase tem também um sabor defensivo. Dizer “chega de perto” pode soar a aviso de autoridade, como quem diz “se vens, vem directo, nada de rodeios”. O quiosque afirma-se como espaço onde não há lugar para hesitações nem para “olhar sem comprar”. A vida social é isso. No fundo, ela é transacional porque não é pelo mero prazer de estar perto que estamos perto. É porque queremos trocar coisas, nem que seja a própria catinga.

No fim, o “Quiosque Chega de Perto” é mais do que um ponto de venda. Ele é um convite ao contacto, à confiança e, de certo modo, à cumplicidade social que dá vida ao comércio de rua. O nome é simples, mas abre espaço para sorrir e pensar. Na vida, como no mercado, há coisas que só acontecem quando temos coragem de chegar de perto. Talvez seja por isso que a gestão da distância faça parte da natureza do nosso Estado. Como ele parece apostar no propósito de que nada aconteça, é importante para ele – ou para quem o gere – tudo fazer para que seja difícil chegar mais perto. Se você quiser abrir conta, um dos documentos que precisa de ter é a declaração do bairro. Para a obter, precisa de ir ao chefe do quarteirão, depois ao secretário do bairro, depois ao posto administrativo. Oficialmente, paga-se uma única vez por tudo, mas na prática cada instância do poder do Estado precisa de tomar refresco. O Estado como assaltante de rua a fazer aquilo que os manifestantes repetiram cobrando pela passagem.

Este país é como álcool. Antes de te matar, humilha-te.

 

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