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22 de September, 2025

O fim do fenómeno, o início do político: uma análise estratégica sobre a normalização de Venâncio Mondlane

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A recente formalização do ANAMOLA, o veículo político de Venâncio Mondlane, num evento cuidadosamente encenado na Beira, representa um ponto de viragem fundamental no panorama político nacional. Para um observador menos atento, este ato pode parecer o nascimento de uma nova e perigosa força opositora. Contudo, para nós, este desenvolvimento não é uma ameaça, mas sim uma clarificação bem-vinda. Assinala o fim do “aventureirismo” de Mondlane, a sua transição de um fenómeno volátil e imprevisível para um actor político convencional, sujeito às mesmas regras, pressões e, crucialmente, às mesmas vulnerabilidades que todos os outros.

Mondlane deixa de ser um cometa que cruza os céus políticos, empoleirado temporariamente nas estruturas da RENAMO, MDM, CAD, PODEMOS, para se tornar o presidente de um partido normal. E com isso, troca a agilidade de um dissidente carismático pelo peso esmagador da máquina partidária. A tarefa que tem pela frente é hercúlea. A construção de um partido a partir do zero em Moçambique é uma maratona de obstáculos logísticos e financeiros. Exige a criação de estruturas de base em 161 distritos, a instalação de secretariados provinciais, o recrutamento de quadros competentes e, acima de tudo, a mobilização de recursos financeiros sustentáveis para pagar salários, alugueres, comunicação e transporte. Mondlane começa agora a sua jornada, e fá-lo-á num terreno de escassez.

A sua primeira decisão estratégica, a de lançar o partido na Beira, é sintomática da sua abordagem e, ao mesmo tempo, do seu primeiro grande erro. Foi um acto de provocação directa ao MDM, concebido para gerar mediatismo e afirmar-se como o herdeiro natural da oposição urbana. O efeito imediato, no entanto, não será a unificação da oposição, mas sim a sua atomização. O MDM, ferido no seu orgulho e no seu bastião simbólico, não verá a ANAMOLA como um aliado, mas como um rival directo na luta pelos mesmos eleitorados em Sofala e Nampula. A RENAMO, por sua vez, no seu complexo processo de reestruturação pós-liderança histórica, não cederá pacificamente o seu estatuto de principal partido da oposição. O PODEMOS, para não ser relegado à irrelevância, lutará com unhas e dentes pelo seu pequeno espaço.

O resultado é um cenário de canibalização mútua. Teremos quatro ou mais forças de oposição a competir ferozmente pelos mesmos recursos, pelos mesmos eleitores descontentes e pela mesma atenção mediática. Esta rivalidade acirrada fragmenta o voto da oposição e consome as suas energias em disputas internas, desviando o foco do verdadeiro debate político sobre a governação do país. Enquanto eles se digladiam, a FRELIMO pode e deve continuar a focar-se na implementação da sua agenda de desenvolvimento.

Contudo, o desafio mais letal para Venâncio Mondlane não virá dos seus rivais externos, mas de dentro do seu próprio movimento. A transição de um movimento popular, galvanizado pela energia de uma campanha eleitoral, para uma organização política estruturada é frequentemente fatal. Os activistas e voluntários que o seguiram movidos pela paixão e pela promessa de mudança começarão, inevitavelmente, a apresentar faturas. Todos quererão um lugar na nova estrutura, uma posição de influência, um salário. Todos quererão comer.

É aqui que reside o calcanhar de Aquiles de Mondlane. Os recursos são escassos. As posições de liderança são limitadas. Ele terá de fazer escolhas: irá recompensar a lealdade ou a competência? Os seguidores mais ruidosos e visíveis durante a campanha são, necessariamente, os mais capacitados para gerir finanças, organizar delegações ou redigir propostas políticas? A evidência sugere que não. Falta-lhes profundidade estratégica e organizacional.

Esta tensão interna gerará inevitavelmente frustração, dissidências e acusações de traição. Os que ficarem de fora sentir-se-ão marginalizados, e os que forem escolhidos poderão não ter a capacidade necessária para construir um partido viável a longo prazo. Esta dinâmica consome os líderes, transforma aliados em inimigos e desvia a atenção da política para a gestão de egos e conflitos internos.

Em suma, a formalização da ANAMOLA é a melhor coisa que poderia ter acontecido do ponto de vista estratégico da FRELIMO. Ela contém o “fenómeno Mondlane”, forçando-o a sair do campo do protesto e do carisma para o campo da gestão, da burocracia e da política real. Ele agora terá de prestar contas, não apenas aos eleitores a cada cinco anos, mas aos membros do seu partido todos os dias. Terá de lidar com a folha de salários no final do mês, com as disputas entre comités locais e com a dura realidade de que a popularidade não se traduz automaticamente em capacidade organizacional.

O seu aventureirismo terminou. A sua normalização como mais um político, com mais um partido pequeno e com problemas gigantescos, apenas começou. Para nós, o caminho continua claro: governar, unir os moçambicanos e construir um país próspero, enquanto os outros se perdem nos seus labirintos de ambição pessoal.

Egídio G. Vaz Raposo | egidiovaz.com

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