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20 de September, 2025

Moçambique em Nova Iorque: Chapo e a promessa de uma nova narrativa*

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Na manhã clara de 20 Setembro, o átrio envidraçado da Columbia Business School recebia um vaivém de estudantes, académicos e diplomatas. Lá fora, os táxis amarelos corriam pela Broadway, mas ali dentro, entre colunas de vidro e aço, a atenção estava voltada para África.

Coube à Prof. Wafaa El-Sadr, directora do ICAP, Vice-Presidente Executiva da Columbia Global e professora de Epidemiologia da Columbia, fazer a abertura formal. Recordou que a universidade vive de uma troca bidireccional: projectar para o mundo o pensamento, a criatividade e a curiosidade dos seus académicos, e trazer o mundo de volta à comunidade de Columbia.

Destacou ainda a rede de “Global Centers”, presentes também em África, como espaços de impacto social e intercâmbio académico. Ao introduzir Daniel Chapo, sublinhou a ligação pessoal ao país: mais de duas décadas de colaboração com o Ministério da Saúde de Moçambique no combate ao HIV. Falou da resiliência do povo moçambicano e do compromisso de sucessivos governos, descrevendo a “história de coragem, educação e dedicação” que permitiu enfrentar a epidemia.

Foi nesse tom que apresentou o Presidente como voz de um Moçambique importante para o continente e com uma narrativa de crescimento sustentável. Cartazes azuis anunciavam a 22ª edição da Columbia Africa Conference.

Entre conversas em inglês, francês, kiswahili e português, um nome ecoava com expectativa: Daniel Francisco Chapo, Presidente da República de Moçambique. Para muitos na sala, era a primeira vez que viam o novo líder moçambicano que, em apenas nove meses de mandato, já se projectava para além de Maputo.

Para outros, sobretudo jovens moçambicanos na diáspora, era a oportunidade de escutar, ao vivo, a visão de quem carrega a promessa de renovação de um país frequentemente descrito nos relatórios internacionais como frágil, mas resiliente. Quando Chapo entrou no auditório, de fato cinza e gesto contido, foi recebido com um silêncio respeitoso, quebrado apenas por aplausos discretos. A cena tinha algo de simbólico: África a falar em Nova Iorque, Moçambique a ocupar um espaço que raramente lhe é concedido.

Um estudante ruandês murmurou a colega: “É raro ver um Presidente africano a entrar sem aparato excessivo, quase como um académico.”

O discurso começou com referências históricas. Não apenas as convenientes, mas as dolorosas: a escravatura, a travessia forçada do Índico e, sobretudo, do Atlântico, os séculos de exploração. “Esta ligação entre a América e África é uma importante página da história universal que as gerações mais jovens devem assumir, valorizar e preservar como património comum”, afirmou Chapo, olhando directamente para a plateia de estudantes afrodescendentes. O ambiente parecia suspenso.

Ao evocar a Renascença de Harlem (movimento cultural que floresceu em Nova Iorque no início do século XX e inspirou intelectuais africanos como Nkrumah, Senghor e Amílcar Cabral) o Presidente recuperava o fio de uma história partilhada. Nomes como Langston Hughes e Zora Neale Hurston ecoavam implicitamente na sua fala, lembrando que literatura e política já se cruzaram muitas vezes na luta contra a marginalização.

Não era apenas um exercício retórico: era um convite a reconhecer raízes comuns e a traçar futuros conectados. Foi neste registo que surgiu o nome de Eduardo Mondlane. A menção ao fundador da FRELIMO (antigo estudante da própria Columbia University) teve efeito imediato. Alguns moçambicanos presentes acenaram discretamente, conscientes do peso simbólico daquele tributo. Mondlane, o “arquitecto da unidade nacional”, aparecia ali como ponte entre passado e presente: a luta pela independência e a busca contemporânea por crescimento inclusivo.

Um professor americano, especialista em estudos africanos, comentou em voz baixa: “Ele sabe usar Mondlane como chave para a legitimidade histórica.”

Para compreender o alcance deste momento, é inevitável recuar a 15 de Janeiro de 2025, dia da investidura de Chapo. Na Praça da Independência, em Maputo, o novo Presidente prometeu combater a corrupção, renovar instituições e colocar o país num caminho de justiça social. “Este não é apenas o início de um mandato, mas de uma jornada que nos desafia a construir o futuro que sonhamos”, disse então. Nos primeiros cem dias, apresentou um Plano de Acções de Impacto, prometendo medir resultados, responsabilizar gestores públicos e acelerar reformas.

O Banco Mundial e a União Europeia seguiram com atenção esses primeiros sinais, avaliando se a retórica poderia converter-se em reformas visíveis. A mensagem era clara: sair da retórica para a execução. Mas, como é habitual em política, os sinais foram recebidos com entusiasmo e cepticismo em doses iguais. Meses depois, nos discursos de celebração dos 50 anos da independência, Chapo voltou a falar de reformas, paz e inclusão. Reiterou a necessidade de um diálogo político amplo, reconhecendo a oposição como parte do sistema democrático, mas também denunciando “discursos de ódio”. A tensão estava ali: prometer reconciliação sem deixar de apontar divisões.

A presença na Columbia Business School surge, portanto, como extensão natural dessa estratégia: projectar a imagem de um líder reformista, consciente da memória histórica, mas focado em reposicionar Moçambique no cenário global.

Nos meses iniciais, já se viram indícios dessa postura. Chapo não cedeu à chantagem da Mozal em torno das tarifas de energia, sinalizando que o interesse nacional não se subordina a pressões corporativas.

No seu Governo, foi suspensa a mineração de ouro em Manica após denúncias da imprensa — algo impensável no consulado anterior — numa demonstração de que a voz pública pode ter consequências reais. Essa decisão foi saudada por organizações da sociedade civil, ainda que com a ressalva de que seria preciso ver se a suspensão se transformaria em reforma duradoura. Paralelamente, decorrem renegociações de contratos estratégicos e está em preparação um grande investimento turístico em Massingir, com potencial para transformar a região num novo pólo de atracção no sul do país. São sinais que, ainda que incipientes, procuram alinhar discurso e prática.

O eixo central da intervenção pode resumir-se em três camadas: visão continental, oportunidades nacionais e desafios estruturais. Chapo situou Moçambique na Agenda 2063 da União Africana, que projecta uma África próspera, integrada e pacífica. Reiterou as sete aspirações: da boa governação à identidade cultural, da segurança à justiça social.

Palavras conhecidas em cimeiras africanas, mas que, diante de uma audiência internacional, ganham outra ressonância. Foi aqui que a retórica ganhou corpo. Chapo apresentou Moçambique como “Pérola do Índico” e destacou sectores prioritários para o investimento estrangeiro: energia hidroeléctrica, gás, solar e eólica; turismo com praias intocadas, parques naturais e ilhas — “Moçambique é o único lugar onde se pode ver o elefante e a baleia no mesmo dia”, disse, arrancando sorrisos na plateia; agro-indústria com terras férteis e clima favorável; corredores logísticos como Nacala, Beira, Maputo e Pemba-Mutwara, portas do interior africano para o mundo; economia azul com pesca, transporte marítimo e conservação ambiental; e economia digital, sublinhando: “O grafite moçambicano já alimenta as baterias da Tesla”, talvez o momento mais partilhado depois nas redes sociais.

Ao citar a Tesla, não falava apenas de minério: falava de inserção na cadeia global da transição energética, um tema central para investidores e académicos presentes.

Chapo não omitiu os desafios. Falou do terrorismo em Cabo Delgado, dos ciclones e inundações, da necessidade de diálogo político inclusivo. Mas tratou-os como obstáculos a serem superados, e não como limitações permanentes.

“Queremos um país que cresce de forma sustentável e não deixe ninguém para trás”, disse. No auditório, as reacções foram contidas mas atentas. Estudantes africanos registavam frases em cadernos; alguns empresários tomavam notas rápidas nos telemóveis. Quando Chapo falou da Tesla, ouviram-se murmúrios de curiosidade — era a materialização do argumento de que Moçambique já faz parte da economia global.

Para os organizadores da conferência, habituados a discursos protocolares, a intervenção teve o mérito de combinar memória, economia e política. “Foi menos frio do que esperávamos de um chefe de Estado”, comentou em off um professor da universidade. Um diplomata africano acrescentou: “É cedo para julgá-lo, mas ele tem consciência da gramática internacional.”

Mas uma reportagem não se faz apenas de palco; faz-se também das vozes que ficam na sombra. À saída, uma estudante moçambicana, finalista de Economia, disse: “Gostei do que ouvi, mas sei que em Nampula as escolas continuam sem carteiras. É bom falar de futuro digital, mas precisamos de resolver o presente.” Esse contraponto é inevitável.

A ambição de tornar Moçambique um hub digital contrasta com a dificuldade de acesso à internet em zonas rurais. O apelo ao turismo sustentável convive com a precariedade de estradas que levam a algumas das mais belas praias. A promessa de inclusão política confronta-se com acusações da oposição sobre desequilíbrios no processo de descentralização. Ainda assim, ao contrário de outros líderes africanos que preferem discursos autocelebratórios, Chapo procurou equilibrar esperança com realismo — reconhecendo desafios, mas sem dramatizá-los.

Se os discursos inaugurais e a intervenção na Columbia servem para desenhar uma visão, o verdadeiro teste será a execução. Entre as áreas mais críticas estão a capacidade institucional para reformar justiça, polícia e administração sem que a burocracia corroa as mudanças; a legitimidade democrática, transformando a promessa de diálogo inclusivo em prática; as desigualdades regionais, levando infra-estrutura e serviços para além do eixo Maputo–Beira–Nacala; a gestão de expectativas, mostrando resultados em prazos curtos sem perder de vista reformas estruturais de longo prazo; e a vulnerabilidade externa, sujeita a choques climáticos, dívida e dependência de financiamento internacional. Estes factores determinarão se o “discurso vigoroso” se tornará acção concreta. Em política, a distância entre promessa e prática mede-se não em discursos, mas em carteiras de escola, estradas transitáveis e hospitais funcionais.

Quando a intervenção terminou, Chapo foi aplaudido de pé por alguns estudantes africanos. Os flashes registaram a cena: um Presidente de um país periférico a falar de futuro no coração de Nova Iorque. Para Moçambique, o momento foi mais do que diplomacia; foi uma tentativa de reescrever a narrativa: de país frágil para país promissor. Resta saber se as palavras resistirão ao tempo. Se o discurso da Columbia for seguido de reformas palpáveis, poderá ser lembrado como marco de viragem.

Se não, ficará como mais um episódio na longa tradição africana de promessas não cumpridas. Por ora, Moçambique saiu engrandecido: com a memória de Mondlane recuperada, com o futuro digital insinuado, com a imagem de um país que ainda acredita poder ser a Pérola do Índico: não apenas no discurso, mas na vida dos seus cidadãos. E no regresso a Maputo, será essa a cobrança inevitável: transformar a imagem projectada em Nova Iorque na realidade quotidiana dos bairros moçambicanas.

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