Uma investigação de Rui Lamarques para Carta da Semana
No princípio havia um rio. Chamava-se Revuè e corria transparente, cheio de peixes miúdos que saltavam contra a corrente. As mulheres desciam às margens com bacias de roupa, as crianças mergulhavam rindo, e os camponeses confiavam-lhe a rega das machambas. Hoje, o mesmo rio arrasta uma cor acastanhada, pesada, que cola às mãos e deixa manchas na pele. Onde havia floresta, há crateras; onde havia milho, há pó metálico; onde havia vida, há silêncio. E, no entanto, em Londres, esse rio envenenado continua a ser descrito como “fluxo de caixa positivo”.

A história começa com uma promessa e termina com uma fuga. Em 2016, a Xtract Resources desembolsou 12,5 milhões de dólares para adquirir a totalidade da Explorator Lda., dona da concessão 3990C em Manica. No seu Annual Report 2016, garantia aos investidores que o projecto era “uma oportunidade única de desenvolver um activo sólido com potencial de crescimento sustentável em Moçambique”. Londres registava entusiasmo; em Manica, nas aldeias ao redor do Revuè, a vida mudava pouco.
Três anos depois, a retórica triunfal já soava oca. Em 2019, a operação foi entregue à Mutapa Mining & Processing (MMP), uma sociedade opaca registada na Matola. A Xtract, que chegara como dona absoluta, reduzia-se a accionista minoritária, reservando-se apenas a reportar 23% dos lucros líquidos acima de 1.250 dólares/onça. Nos relatórios, a manobra era descrita como “parceria estratégica para maximizar a produção”. No terreno, significava afastar-se da lama tóxica e das comunidades indignadas.
O desfecho parecia escrito desde cedo. No Annual Report 2022, a Xtract insistia que Fair Bride era “um activo sólido e promissor”, “preparado para fluxos de caixa positivos”. Em 2023, celebrava picos de mais de 60 quilos de ouro por mês, descrevendo Manica como um projecto em plena “performance operacional”. Mas no Annual Report 2024, o tom mudava radicalmente: “custos elevados, incerteza na recuperação do ouro e falta de controlo enquanto accionista minoritário” — com esta explicação seca, a empresa justificava a venda da sua participação por até 15 milhões de dólares.
Ou seja: entrou como dona, transformou-se em sócia menor e saiu com mais dinheiro do que investira. Tudo previsto, tudo registado. Sabia, desde o início, que os rios contaminados e as crateras abertas ficariam como herança para as comunidades de Manica.
Enquanto isso, a imprensa moçambicana repetia o refrão de uma década: os culpados seriam os garimpeiros artesanais. As televisões exibiam imagens de homens e mulheres de bateia na mão, sobrevivendo do improviso, convertidos em vilões oficiais. As dragas industriais, as retroescavadoras e os químicos tóxicos raramente entravam no enquadramento.
Foi preciso uma investigação conjunta da Carta de Moçambique e do Mídia Lab — com drones, câmaras ocultas e infiltrações em várias minas da concessão 3990C — para desmontar essa narrativa. Ao longo de meses, jornalistas estagiários recolheram documentos, testemunhos e imagens que revelam: não são os camponeses de bateia os principais poluidores, mas sim as mineradoras industriais, operando sob a capa de licenças frágeis ou forjadas.

O relatório ignorado & a licença que cobre todos
Em Abril de 2023, a Agência Nacional para o Controlo da Qualidade Ambiental (AQUA) concluiu um relatório que nunca chegou a gerar consequências. O documento, escrito em linguagem técnica e sem metáforas, era devastador: “os empreendimentos demonstram inobservância da legislação em vigor”. Durante duas semanas, uma equipa de fiscais percorreu distritos de Manica, Mossurize e Machaze. Contaram vinte e oito empreendimentos inspeccionados, doze deles ligados directamente à extracção de ouro.
O que encontraram caberia num inventário de ilegalidades: onze operadores sem licença ambiental, a maioria sem estudo de impacto, nenhum com plano de gestão em vigor. Alguns foram autuados, outros apenas advertidos. No essencial, nada mudou. O Estado registou, recomendou, aconselhou e depois fechou os olhos.
Na lista seca de nomes (Boa Esperança, Mina Mayang, Horizontes Minerais, África Minerais) escondem-se dramas humanos. Em Penhalonga, Dona Maria, agricultora, descreve a vida depois da chegada das dragas: “Aqui já não dá para plantar nada. A água mata a semente antes de nascer.” É neste ponto que a engrenagem ganha forma. A maioria dos empreendimentos actuava sob a cobertura da Explorator Lda., adquirida pela Xtract em 2016. No papel, era a concessionária legal da mina 3990C. Mas em 2019 a britânica transferiu a operação para a Mutapa Mining & Processing (MMP), uma sociedade registada na Matola. A MMP ergueu a planta de 42 mil toneladas/mês e assumiu a produção dos depósitos de Fair Bride, Guy Fawkes, Boa Esperança e Dots Luck.
Nos relatórios anuais enviados a Londres, a jogada foi baptizada de “parceria estratégica”. No terreno, traduzia-se em invisibilidade jurídica: máquinas pesadas e químicos tóxicos operavam sob uma única licença, sem estudos ambientais conhecidos, sem planos de mitigação, sem auditorias.
A MMP prometia metas de 35 a 40 quilos de ouro por mês, mas a sua estrutura accionista permanece uma caixa-preta. Ao mesmo tempo, a Xtract limitava-se a declarar em Londres apenas a sua fatia: 23% dos lucros líquidos acima de 1.250 dólares/onça.
Era o álibi perfeito. Uma licença única que servia como escudo para todos. Uma engrenagem em que todos exploravam, mas ninguém respondia.

A geografia da destruição
De cima, através dos drones, o distrito de Manica revela-se como uma ferida aberta. Onde antes havia floresta densa, há clareiras nuas. Onde corriam riachos límpidos, surgem crateras barrentas e charcos artificiais. O rio Revuè, que durante décadas alimentou aldeias inteiras, corre agora espesso, acastanhado, carregado de mercúrio e lama tóxica.
Em Penhalonga, um líder comunitário levanta o braço e aponta para o leito desfigurado: “Há dez anos pescávamos aqui. Hoje não temos peixe, nem água potável. As crianças têm doenças na pele, os adultos sofrem de dores no estômago. Dizem que a culpa é dos garimpeiros, mas nós vemos as máquinas todos os dias.”
As imagens de satélite confirmam a memória colectiva: em menos de cinco anos, terras agrícolas desapareceram, transformadas em crateras profundas; machambas tornaram-se estéreis; comunidades perderam o acesso à água limpa. O relatório da AQUA registou o cenário, mas não impôs travão.
Enquanto isso, no seu site corporativo, a Xtract exibia fotografias imaculadas de bacias de retenção hídricas em três níveis, apresentadas como exemplo de “boas práticas ambientais”. Nos relatórios anuais, multiplicavam-se expressões como “compliance rigoroso” e “gestão sustentável da água”.
O contraste é violento. No marketing digital, Manica surge como estudo de caso em responsabilidade corporativa. No terreno, é um laboratório de impunidade.
Dona Maria, agricultora de Penhalonga, mostra as mãos cheias de barro cinzento. O gesto é simples, mas a frase resume tudo: “Isto não é terra, é veneno.”

O paradoxo do ouro
Entre 2017 e 2022, a Xtract declarou oficialmente a produção de 171,3 quilos de ouro em Manica. No Annual Report 2022, descrevia o projecto como “um activo estratégico em crescimento”. Para os accionistas em Londres, Fair Bride era “um activo sólido e promissor”, prestes a consolidar fluxos de caixa positivos.
Em 2023, a empresa celebrava um salto histórico: a produção mensal ultrapassava 60 quilos de ouro, consolidando o discurso de “boa performance operacional” e “cash flow positivo”. Era o auge da exploração.
Mas em Manica, a abundância dos números não se traduzia em prosperidade. A província continuava a figurar entre as mais pobres do país. Nas aldeias, o ouro deixava apenas água barrenta, poeira tóxica e campos estéreis.
“É o paradoxo clássico”, analisa um investigador da UEM. “A mina gera riqueza no papel, mas no terreno produz desigualdade e degradação ambiental.”
Para os habitantes locais, esse paradoxo não é uma equação académica. É o milho que já não germina porque a água mata a semente antes de nascer. É a tosse das crianças que respiram poeira metálica. É o copo de água turva que mata a sede e adoece o corpo.
No papel, o ouro de Manica brilha em dólares. No terreno, brilha apenas como ferrugem entranhada nos corpos de quem nunca verá os dividendos.

Lições internacionais
O que se passa em Manica não é uma anomalia isolada. É parte de um padrão global.
No Peru, a mineração semi-industrial transformou rios amazónicos em desertos químicos: mercúrio no lugar de peixes, silêncio no lugar de aldeias.
Na Argentina, comunidades de Catamarca ainda lutam contra a herança envenenada deixada por minas de ouro e cobre abandonadas, crateras abertas como cicatrizes que nunca saram.
No Gana, centenas de povoados foram soterrados por buracos gigantes, uma topografia de abandono onde as casas desapareceram, mas os relatórios das empresas continuaram a exibir lucros.
O enredo repete-se: empresas estrangeiras chegam, anunciam investimentos, prometem emprego e responsabilidade ambiental. Partem deixando atrás solo estéril, águas contaminadas e populações mais pobres do que antes.
Mas há uma agravante em Moçambique. Aqui, a destruição não é clandestina, nem escondida na sombra da ilegalidade. É feita sob a capa da legalidade. É legitimada por licenças frágeis, por relatórios corporativos escritos em inglês elegante, por comunicados governamentais que repetem as versões das empresas. Enquanto isso, os noticiários insistem em culpar os garimpeiros artesanais. As dragas industriais, essas, raramente entram em campo de visão.

O silêncio cúmplice
“As leis em Moçambique são boas, mas não passam de letra morta. O que vemos é captura do Estado: multinacionais impõem as regras e as entidades reguladoras fingem que não sabem”, afirma um jurista ouvido em Chimoio.
Um activista ambiental, com décadas de luta, acrescenta: “Não esperem que o Governo mexa um dedo contra estas companhias. A pressão só virá de fora: de Londres, dos accionistas, da imprensa internacional.”
Mas em Maputo, o discurso público manteve-se estável. Nas televisões, a narrativa era sempre a mesma: camponeses de bateia inclinados sobre o rio, lavando areia com as mãos. Esses eram os vilões oficiais. As dragas industriais, as retroescavadoras e os químicos tóxicos permaneciam fora de enquadramento.
Durante mais de uma década, esta versão foi repetida em relatórios ministeriais, em discursos de directores nacionais e em peças jornalísticas. O garimpo artesanal tornou-se sinónimo de poluição. A engrenagem narrativa funcionava como um álibi colectivo: desviava-se a atenção das mineradoras industriais, e diabolizava-se a sobrevivência precária de milhares de camponeses.
Só a investigação minuciosa da Carta de Moçambique, em parceria com o Mídia Lab, rompeu esse círculo vicioso. Drones, câmaras ocultas, infiltrações e depoimentos das próprias comunidades revelaram o que a versão oficial tentava esconder: a poluição que envenena o Revuè não nasce das mãos nuas dos garimpeiros, mas das máquinas pesadas que rasgam as margens sob a capa de licenças frágeis ou forjadas.

Quem paga a conta
Em 2024, a Xtract abandonou Manica com um cheque garantido de até 15 milhões de dólares. Nos seus relatórios corporativos, chamou-lhe “decisão estratégica”. Recebeu logo 3,325 milhões pela rescisão com a Mutapa Mining & Processing. O ouro, que no papel era um “activo sólido”, transformou-se numa oportunidade de saída lucrativa.
Nas aldeias de Penhalonga, o nome é outro: abandono. A conta ficou para quem não tem dividendos nem relatórios anuais. Ficou em forma de água contaminada, poeira tóxica e crianças enterradas cedo demais.
Dona Maria, agricultora que perdeu a machamba, resume em silêncio. Mostra o punhado de terra endurecida que já não dá milho. Na palma da mão, a poeira cintila como ouro, mas não alimenta ninguém.
O ouro viaja. Sai de Chimoio, cruza fronteiras invisíveis, passa por Londres, entra em bancos de investimento e regressa como estatística no comércio global.
Nos relatórios da Xtract Resources, chama-se “oportunidade promissora”. Nas margens do Revuè, chama-se morte lenta.
Fotos e infográficos de Evito Andrade/Midialab, especial para Carta de Moçambique.






