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16 de September, 2025

Barraca “Phuza Ufamba”

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Entre os muitos nomes pitorescos das barracas moçambicanas, nunca vi um tão directo quanto o “Phuza Ufamba”. Em xangana, a expressão quer dizer “beba e vá-se embora!”. É um letreiro que já resolve, de antemão, qualquer dúvida sobre o que o cliente deve fazer ali. Beber, sim. Ficar, não. Nos meus momentos mais reflectivos, colocaria isto no âmbito duma filosofia da passagem, portanto, uma especialidade ainda por criar que se iria debruçar sobre a vida que acontece quando não estamos parados, algo como a negação da vida que ocorre quando nos sentamos. Sei lá.

Há um humor cru nessa honestidade.

Enquanto muitas casas comerciais tentam criar ambientes de acolhimento – “seja bem-vindo”, “sinta-se em casa”, mesmo “senta baixo”, este último uma tradução literal de “sentar” em xangana – a “Phuza Ufamba” declara exactamente o contrário. O cliente é bem-vindo, mas apenas pelo tempo suficiente de virar o copo. Depois, a cortesia transforma-se em convite à marcha. Ou se calhar é um truque para que quem ficou em casa não desespere. Estou a imaginar pai de família a dizer, despedindo-se em casa, que vai ali ao bar beber e ir embora…

Mas, também, o que ficaria a fazer alguém depois de beber? A resposta é óbvia e, ao mesmo tempo, irónica. Beber mais, conversar, arranjar confusão, talvez até dormir encostado à mesa, tipo o Macamo do Arnaldo Manhiça que não parece ter nenhuma vontade de ir descansar, prefere deixar o seu corpo definhar. O dono da barraca sabe disso e, por isso, previne. O letreiro funciona como regulamento antecipado. Aqui não há cama, não há sofá, não há palco para discursos intermináveis. Há copos, há bebida, e depois… há caminho. “Tchapa mugu” como os da minha geração ouviram nos tempos da Frelimo gloriosa.

No fundo, o nome também é uma lição sociológica. Bom, isso não podia faltar. Mostra que, no quotidiano, as barracas não são apenas pontos de venda. Elas são arenas sociais onde se disputa espaço e tempo, mas também se negocia o comportamento. O dono da “Phuza Ufamba” desenha, com três palavras, uma fronteira invisível. Este é um lugar de passagem, não de permanência. Você vem sóbrio, altera-se aqui e já tem o que precisa para transitar na vida. E, no entanto, a contradição é deliciosa. Se o espírito da bebida é justamente alongar a convivência, por que expulsar o conviva logo após o brinde? Talvez porque, no fundo, o dono saiba que beber e ficar pode ser perigoso. Multiplicam-se as histórias de copos a mais, discussões que descambam, dívidas que se arrastam. O “vá-se embora” é uma forma de garantir paz e sanidade.

No riso provocado pelo nome vislumbra-se uma sabedoria prática. O comerciante que prefere perder o lucro de mais uma rodada a ganhar a dor de cabeça de uma noite interminável. O “Phuza Ufamba” é, afinal, uma filosofia de vida. Aproveitar o prazer breve e seguir adiante. “Curta a vida agora, ninguém sabe a hora”, cantava Swit nos tempos. É a sabedoria de quem sabe que não pode esperar muito da vida. Não sei se é também a sabedoria do moçambicano que aprendeu da forma mais dura possível que não pode esperar praticamente nada de quem lhe promete boa vida, pois essa promessa não é para ser cumprida e quem assim entende está a ser irrazoável e insensato. Promete-se um “futuro melhor” porque é assim que se deve falar na política, não porque isso coloca em quem assim fala na obrigação de cumprir.

Nós!

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