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8 de September, 2025

Luís Loforte, um moçambicano no exército colonial português: “Assalto a Omar não passou de encenação”

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Luís José Nhatitima Loforte, intelectual, radialista, escritor memorialista e engenheiro, lançou em Fevereiro passado um livro de memórias, “Ombro, Arma!”. Nele, Luís Loforte, como écomummente tratado, narra as vivências de “Um Moçambicanono Exército Português”, em 1973 e 1974, dos seus 20 aos 22 anos. Autor de várias outras obras, entre biografias e documentários sobre a vida de pastores missionários, políticos, e sobre vários aspectos da cultura e do folclore nacional, em diálogo com “Carta”, Loforte revela-se o que a distância sempre desconfiamos ser: um homem de convicções inabaláveis e de um espírito de luta infatigável pelos princípios e valores por que pugna. Nesta conversa, “entrega o peito às balas”, vertendo sobre o passado político-militar e cultural nacional e, a espaços, se confrange com a perda de valores e desrespeito pelo património cultural nacional. Esta parte da entrevista é especialmente alusiva ao 7 de Setembro de 1974, Dia dos Acordos de Lusaka, que marcaram a cessação das hostilidades entre o exército colonial e a Frente de Libertação de Moçambique, e estabeleceram o roteiro para a proclamação da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975.

Carta (Ct): Como se torna militar no exército colonial português?

Luís Loforte (LL): Tornei-me militar da mesma maneira que todos se tornaram, na altura. Quando completei 20 anos, a 20 de Dezembro de 1972, tinha de ser avisado que no ano seguinte iria à tropa. Em Junho de 1972 – na altura vivíamos na casa da família Tique, na qual minha mãe arrendava uma dependência onde vivíamos (ela, eu e meu irmão Edmundo Galiza Matos),porque os landins (oriundos do Sul) ajudavam-se uns aos outros – fui de férias de Porto Amélia (actual Pemba) para Montepuez. O nível organizativo do Estado Colonial era tal que, na mesma semana em que chegámos a Montepuez, eu e o mais velho dosirmãos Tique (Luís dos Santos Tique) – somos da mesma idade, com diferença apenas de dias – fomos avisados que no anoseguinte iríamos para o exército. Fiquei a saber que a 1 de Janeiro de 1973 teria de me alistar, tratar da papelada toda e seguir para Lourenço Marques (actual cidade de Maputo) e dali para Boane. A 2 de Fevereiro de 1973 cheguei a Boane, lembro-me bem, pois nesse mesmo dia morreu a minha avó paterna, em Inhambane. Mal cheguei fui submetido a todos os interrogatórios, testes psicotécnicos e de aptidão física e atéanalisaram-me toda a dentadura, para garantir que estava em perfeitas condições para as exigências da tropa. Fui recruta em Boane e aos fins-de-semana vínhamos às farras em LourençoMarques. Mas, na segunda-feira, o mais tardar às 7h00,tínhamos de estar na formatura. O primeiro impacto que tive foi notar que – pretos, brancos ou de qualquer outra cor ou origem étnica e social – éramos todos tratados da mesma maneira. Praticamente só ficávamos a saber, ao fim-de-semana, quem era filho de rico ou de pobre e, na cidade, quando nos cruzávamos, uns em altos carros de família outros no transporte público. Depois da recruta, fui escolhido para seguir à Beira, em Matacuane, onde ia ser inaugurada a especialidade de Artilharia Pesada, em que iríamos operar armas de 8,8 mm por 14 cm. Essa arma chamava-se Obus 14, que nunca chegou a ser usada.Tivemos dois meses de especialidade no campo de treino em Nhangau. Aquilo era ir e voltar em corrida, todos os dias. O que me marcou em Nhangau era que havia uma gafaria (onde internam os leprosos). Eu, filho de uma enfermeira, ao ver isso, lembrei-me da primeira gafaria que conheci, em Inhambane: a gafaria Teles. Depois de concluir a especialização, fui enviado a um quartel intermédio, em Nampula, de onde partiria para a Zona 100 por cento, que na altura (1973) eram Cahora Bassa, em Tete, onde devíamos proteger a barragem; e Mueda, em Cabo Delgado. O meu quartel de espera foi em Lumbo. Tínhamos uma subunidade em Namapa, Vila Barreto, outras subunidades em António Enes (actual Angoche) e com sede na Ilha de Moçambique. Fazíamos parte do Grupo Especial de Artilharia (GAC) 6.

Ct: E nunca chegou a entrar em acção, pelo exército colonial português, contra os guerrilheiros da Frelimo?

LL: Em Lumbo, eu vivia todos os dias, toda a hora e todos os segundos na ansiedade de ser chamado para a guerra. Em 1973, tínhamos um Capitão do exército que gostava muito de futebol.E foi anunciado que havia de iniciar o primeiro campeonato nacional de futebol militar. Era preciso organizar, no campo do Ferroviário do Lumbo, várias equipas de onze que tinham de defrontar durante 20 minutos a equipa padrão, os Metropolitanos. Esse Capitão seleccionava nesses grupos jogadores para integrarem a equipa. A minha equipa foi a última a jogar contra a equipa padrão. Antes, o Capitão mandou fazermos um intervalo, para que ele fosse almoçar. Durante o seu percurso do campo para o quartel, o Capitão disse ao seu motorista (o Jonas Alberto Balói – pai do tenista Jonas Alberto (actual presidente da Federação Moçambicana de Ténis) que estava difícil encontrar um extremo esquerdo. Então, o Jonas veio confidenciar-me: “quando te chamarem para alinhar, digaque és um extremo esquerdo, assim, se fores seleccionado,escapas pelo menos este ano de ir para a guerra.” Por sorte, eu,que nem era canhoto, fiz dois centros (cruzamentos) bem colocados para o interior da área e ambos encontraram os avançados que marcaram dois golos. Acabei por ser seleccionado para fazer parte daquela equipa. Viemos três equipas, do Norte, para o campeonato nacional, realizado no Estádio Engenheiro Freitas Costa (actual campo do Ferroviárioda Baixa), de Junho a Dezembro, quando decorreu a fase final. Lembro-me bem, porque nessa altura fazia muito calor. Voltámos ao quartel em finais de 1973 e havia que aguardar para seguir ao mato (na guerra). Tínhamos formatura todas as sextas-feiras, para se anunciar quem vai à guerra, na segunda-feira seguinte. Foram muitas as sextas-feiras que não fui chamado. Para mim, era melhor ir para a guerra que viver na ansiedade. Aprendi com isso que a ânsia da espera dói mais. Só que eu tinha um amigo que trabalhava na secretaria, o dactilógrafo que “batia” as listas. Quando chegasse a minha vez, ele sempre punha meu nome em último da lista. Esse amigo era o Gil Guimarães, que depois viria a ser meu colega na Rádio Moçambique. Ele nem sabia do risco que corria. O que estava a fazer, impedir um militar apto de ir à guerra, poderia ser tratado como crime de guerra em tribunal militar. Depois que todas as listas acabaram, estávamos os dois no grupo dos últimos que iriam para a guerra. Fomos destacados para o quartel de Omar, em Cabo Delgado. Mas fomos apanhados pelas negociações dos acordos de Lusaka. Ele só me mostrou o que andava a fazer quando se dá o 25 de Abril…

Ct: Há uns anos, escreveu um artigo amplamente circulado, no qual defendia que o assalto ao quartel de Omar, em Mueda, pelos guerrilheiros da Frelimo, comandados por Atanásio Ntumuke, não passou de uma farsa. Reconte-nos.

LL: Os acontecimentos foram se precipitando após o fracasso da operação Nó Górdio. Nem os portugueses nem os moçambicanos queriam continuar a combater, estavam todos cansados da guerra. Em Nampula, o Chefe de Estado Maior do exército colonial deu ordens a todas as forças no Norte para pararem de combater. Essa ordem foi tal que, em vários pontos, os militares podiam entrar em conversações com os comandantes da Frelimo. As subunidades em Mueda entraram em contacto com os guerrilheiros comandados por Ntumuke. Então, dá-se um jantar no quartel em Mueda, de confraternização entre as tropas de ambos os lados, na subunidade do GAC 6, em Omar. Omar fica na boca do rio Rovuma. No fim deste jantar dos oficiais, dos quais fazia parte Ntumuke do lado da Frelimo, ficou combinado o seguinte: o próximo jantar seria nas bases da Frelimo e, quando estivessem prontos, os militares da Frelimo apareceriam na base de Omar para informarem da data desse jantar. Ora, quando Ntumuke e sua unidade chegam a Omar, no dia do dito assalto, foi assumido pelos militares portugueses como o dia em que iam informar que já tinham a data marcada para o jantar. A Frelimo levou repórteres de várias agências de informação, jornais, canais televisivos e estações de rádio internacionais para vender a imagem de que assaltou aquela base. Omar estava ali, na boca do Rio Rovuma, porque não conseguiram chegar lá todos esses anos da guerra e somente chegaram em 1974? Fizeram uma batalha com megafones!? E conto mais, depois de tomarem o quartel de Omar, a prioridade dos guerrilheiros na caminhada de volta a suas bases era carregarem todos os vinhos que havia láno quartel de Omar. Na nossa unidade de Lumbo, o nosso técnico de rádio (o Magalhães) estava sintonizado com Omar e, através dos operadores em vários postos militares, controlava ponto-a-ponto e nos dava conta da caminhada triunfal dos guerrilheiros da Frelimo até Nachingweya. Onde se fez toda aquela encenação. Recebemos de volta todos os nossos capturados pelos guerrilheiros da Frelimo no tal assalto a Omar,na Ilha de Moçambique, sem qualquer arranhão.

Ct: Onde estava, Luís Loforte, durante o 7 de Setembro?

LL: Precisamente no 7 de Setembro, eu estava no Lumbo. Já tínhamos recebido os guerrilheiros da Frelimo. Ali era só comer e beber, todos os dias. Uma coisa com piada, as nossas balas e munições ficavam todas em cunhetes e depositávamos nossas armas numa arrecadação. Através de um acordo informal entre as chefias militares locais, os guerrilheiros da Frelimo dormiam nas nossas casernas, nós totalmente desarmados e eles com suas armas agarradas ao corpo, que até serviam de almofada. Com o 7 de Setembro em Lusaka, acontece o assalto à Rádio Clube em Lourenço Marques. Quando despertámos na manhã seguinte, notámos que os guerrilheiros da Frelimo tinham desaparecidodas nossas casernas. Fomos chamados para a formatura, na qual se criaram subgrupos em função das línguas dos guerrilheiros da Frelimo. Fomos orientados para nos embrenharmos pela mata,para persuadi-los a regressarem ao quartel. Saímos desarmados àprocura deles, com a missão de dizer-lhes que aquilo do assalto em Maputo não era nada. Avistámos um grupo, tive deconvencer o comissário político (eu achava que Comissário fosse seu primeiro nome, pois não sabia na altura que havia tais designações atribuídas a militares) naquele meu parco kimwanie pobre swahili. Encontrámo-los a comerem mandioca todos os dias na mata. Voltámos todos ao quartel e, finalmente, a harmonia voltou a reinar.

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