Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

28 de August, 2025

Independência… econômica! What do we mean?

Escrito por

Todo o nosso texto político actual, nos últimos sete meses, fala e tem como ênfase aquilo que se designa de “independência econômica”. Quando a entidade máxima da nação discursa, mesmo para um auditório com défice de conhecimento político-científico, i.e., sem conhecimentos para aí além, só enfatiza independência econômica da nossa nação. Independência económica para aqui, independência económica para ali! Independência económica para acolá! Uma autêntica febre. Só não é epidemia do tipo covid que afectou a todos mais alguma coisa e matou que se farte. Esta é, digamos, a  epidemia-sonho do nosso chefe e dos seus: independência económica.

Assumido e bem interiorizado pelos imediatamente próximos – o  que os outros chamariam de acólitos -, não há um único ministro que quando perora não fala firme e ruidosamente de independência econômica! E a procissão não termina a este nível só. Qualquer governador ou secretário de Estado (de ministério ou de província), independentemente do seu grau de ignorância sobre o conceito, quando discursa, e independentemente de onde discursa, se na rua ou não, fala de independência econômica. Destarte, o lema que nos está a ser inculcado no país, hoje por hoje, é a independência econômica! Queremos independência econômica!

Como em 1980, que queríamos erradicar o subdesenvolvimento em apenas uma década. A década de 80 está registada na nossa história como a década em que pretendíamos acabar com o subdesenvolvimento no nosso solo pátrio!

Ante este cenário de um ousado lema, o que os chamados lambe-botas não enxergam é: sabemos nós o que é verdadeiramente independência econômica? Sabemos? Temos ciência do que estamos a falar/dizer, pelo menos do ponto de vista semântico? De que falamos quando dizemos que Moçambique quer independência económica? Estaremos a dizer que queremos um Moçambique completamente autónomo economicamente do resto dos países do mundo, incluindo vizinhos e não vizinhos? Um Moçambique que produz tudo o que precisa sem participação de ninguém! Que satisfaz todas as suas necessidades endogenamente, sem mão de ninguém! Que satisfaz toda a hierarquia de necessidades, segundo Maslow, dos moçambicanos? Que tem todas as infraestruturas de que necessita e servem a todos os interesses dos moçambicanos? Um Moz que tem recursos financeiros para realizar todas as suas vontades, projectos e sonhos, e não depende de nenhum banco!? Estamos a dizer que Moçambique não mais dependerá de investimentos estrangeiros, mas exclusivamente de si próprio? Estamos a dizer que vamos ter capacidade de construir fábricas e mega-fábricas, empresas e mega-empresas, tipo Mphanda Nkuwa, para a nossa economia não precisar de nada nem de ninguém! Construir estradas de todos os  níveis – principais, secundárias, terciárias e quaternárias -, e em todo o país para os nossos compatriotas poderem produzir onde quer que seja o canto deste nosso vasto território, em Bilibiza ou Xikonono, sem dedo de ninguém? Tipo acordarmos, entendermos fazer/erguermos uma um empreendimento, uma indústria e… pá, toca a andar!…

É isto que estamos a dizer? Eu muito bem gostava de ser e estar num Moçambique nesses termos. Mas, a minha mente de Xipadja pergunta: existirá um país assim no mundo? Não faz memória de em que escola e ou universidade ter-lhe-á inculcado tal saber. Completamente independente, autónomo? Que não dependa inteiramente de ninguém? Gostaria de saber qual é esse país… se até os produtores dos boeings que nos  atazanam na nossa companhia de bandeira, de aviões, navios, tecnologias, etc., e etc., dependem do mercado, precisam de compradores. Os maiores produtores mundiais e os de micro-escala precisam de mercados, por tanto, dos outros, os compradores/consumidores. Mesmo os maiores produtores de petróleo, gás, ouro, mercúrio, etc., precisam de compradores. E, por ventura, os compradores são soberanos… podem ou não comprar o seu produto. Haverá, mesmo, mesmo, país ou países completamente auto-suficientes em tudo? Que não precisem de ninguém?

Tudo indica que estamos a sonhar. Se é isso, tudo bem: é muito bom sonhar. A questão é que sonho? Como pode um indivíduo que nem bicicleta tem sonhar em ter um boeing pessoal? Que está em Xipadja dentro de um tractor sonhar em andar na executiva de um  dos últimos boeings?

A nossa desmemória é tal que nem nos lembramos que já sonhamos abraçar a lua em dez anos! O Plano Prospectivo Indicativo tinha como foco principal acabar com o subdesenvolvimento no nosso solo pátrio em… apenas dez anos! Nós que nem massa pensante alargada a todas as áreas, muito menos conhecimento científico suficiente e experiência, tínhamos na altura; nós que nem recursos financeiros suficientes tínhamos… nós que nem tínhamos nada de nada ainda! E, como tudo assentava em pilares de barro, nem rês-do-chão conseguimos erguer até hoje!

Pior do que tudo, é que para nós, hoje – ou pelo menos para os sonhadores da independência económica -, essa malograda experiência não tem nenhum sinal na nossa memória: esta parte da nossa história – ou da história dos advogados da independência económica – não existe! Voltamos a sonhar em passar férias nas galáxias de novo…

Como é que um país que não consegue alimentar os seus habitantes de repente sonha em ser economicamente independente? Como é que nós que não produzimos comida, roupa, não conseguimos dar água, saúde, educação à toda a nossa população, queremos independência económica? Se estivéssemos em Chibuto, ia escrever/dizer: quem somos nós para falarmos de independência económica?

Deixemos de entreter, enganar e ou teatralizar (em ciência política, chama-se de brutalizar) a nossa população: por quê o nosso sonho, lema, objectivo não é simplesmente de atingirmos a auto-suficiência alimentar em… dez anos, ou o mais rapidamente possível? Um objectivo atacável, realístico, humilde e pragmático? Ninguém sobe uma montanha a correr, lá diz o provérbio.

A Tanzania e o Botswana, agora a Namíbia, ano  após ano, vão surpreendendo o mundo com realizações concretas e sem desafiar o mundo sobre lucubrações inalcançáveis?

 

 

Visited 27 times, 1 visit(s) today

Sir Motors

Ler 328 vezes