“A história é uma ficção controlada”
(Agustina Bessa Luís)
“O jornalismo é o primeiro rascunho da história”
(Philip Graham)
O pátio da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) foi, na última sexta-feira, 22 de Agosto, palco de um acontecimento editorial: o lançamento de “País Bordado”, romance de estreia do jornalista Rui Lamarques. Da exaustiva apresentação pela Professora Julieta Langa, linguista, professora e pesquisadora universitária, pudemos perceber da profundidade e profusão do texto ficcional de Rui Lamarques, que obviamente só uma leitura pode confirmar.
Porque cada leitura é uma apresentação diferente e cada apresentação é uma leitura particular, teria dito Julieta Langa. Para que a curiosidade da farta plateia de Rui Lamarques, na sexta-feira, não se esgotasse na extensa apresentação da académica e estudiosa do texto jornalístico. Entre o que pudemos cabular da Prof. Langa, o encontro e desencontro de silêncios, segredos, censuras, medos, receios e vergonhas, como o tecido de fábrica que enreda este romance, tatuam as estórias em torno de uma família perpassando toda uma história contemporânea de Moçambique.
Um Moçambique, o País que se quer Bordado, adquire a identidade ficcional de Namicopo.
“Namicopo é basicamente Moçambique”, confessou Rui Lamarques, sem veleidades, naquela sexta-feira. Namicopo tem a função dupla, de ser personagem e ao mesmo tempo o microcosmos, quando compararmos a realidade do mais populoso bairro de Moçambique, na seminal província deNampula, e a ficção em Lamarques. Microcosmos das estórias da família protagonista do romance. Microcosmos das contradições e contrastes que marcam a história de Moçambique.
Marcadamente, há um meta-diálogo engendrado neste romance de estreia de Lamarques, um dos jornalistas da sua geração com texto mais denso e narrativa escorreita, desde os tempos do Jornal @Verdade, passando pelos exercícios de estilo que tem protagonizado na rede social Facebook. O meta-diálogo se desenrola entre a história e sua historiografia de Moçambique e o jornalismo, de que Rui é praticante, cultor (como escriba e formador) e leitor crítico.
Esse diálogo não pretende senão questionar a construção da nossa Memória como País e como Povo. Um irrecusável convite para Luís Nhachote, outro jornalista e escritor, na qualidade decomentador da obra e sobre o autor, encontrar intertextualidade “Entre As Memórias Silenciadas”, de Ungulani Ba Ka Khosa – por sinal um dos poucos escritores consagrados e membros-decanos da AEMO presente, discretamente, na passada sexta-feira -, e este “País Bordado” de RuiLamarques.
Curiosidade: o apelido de Rui Miguel Lamarques é Francisco; Francisco é nome próprio de Ungulani. Coincidência, nenhum deles é conhecido publicamente por tais primeiro nome e apelido. Seja como for, Nhachote encontrou intertextualidade entre Francisco e Francisco. Em “País Bordado”, Nhachote afirma que os “corpos funcionam como arquivos desta memória colectiva”, da Nação Moçambicana.
Da apologia e em simultâneo crítica ao papel e lugar do jornalismo, na construção da história e do convite à memória, não faltarão outros autores e obras precedentes a este País Bordado. Somente pelo que a leitura de Julieta Langa e os comentários de Luís Nhachote sugerem-nos, podemos aludir a “Os Narradores da Sobrevivência”, romance deestreia de Nelson Saúte, escritor e jornalista.
Um dos muitos artifícios do método narrativo deLamarques foi usar datas-marco da historiografia deMoçambique recente como datas de nascimento das “dramatis personae” deste teatro ficcionado do real de muitas famílias moçambicanas. Para sermos mais explícitos e assertivos, plagiemos do livro: “Manuela nasceu a 25 de Junho de 1962, no mesmo dia em que a Frelimo se fundava nas matas da Tanzânia. Enquanto um punhado de homens proclamava, longe dali, o início da luta de libertação, uma menina vinha ao mundo, filha de silêncios e depoderes domésticos. O país, ainda colónia, sonhava com futuro; mas a criança, desamparada, era o retrato do presente: frágil, sem tutela, lançada à vida sem escolha. Treze anos depois, a 25 de Junho de1975, nascia Julieta. E nascia o país independente. Havia discursos, bandeiras, promessas de liberdade, mas dentro de uma casa, uma menor de idade dava à luz uma filha do incesto. A ironia não podia ser mais brutal: a nação proclamava-se adulta e soberana no exacto instante em que uma menina detreze anos era obrigada a parir, inaugurando uma linhagem de violência hereditária. A festa pública ocultava a tragédia privada; a independência celebrava-se sobre um corpo cativo. E ainda mais tarde, a 4 de Outubro de 1992, veio ao mundo Namicopo, filha de Julieta. Nesse dia assinava-se o Acordo Geral de Paz, e o país suspirava como quem acorda de um pesadelo. Mas a paz também chegava com ironia.
Julieta, que tivera o corpo violado na adolescência, carregara o ventre por longos catorze meses, como se a gestação prolongada fosse metáfora do próprio processo político: a paz tardia, deformada, nascida fora do tempo. Não era uma criança que se trazia ao mundo, mas um país inteiro a dizer que até os acordos de reconciliação podiam nascer demasiado tarde e, mesmo assim, nascer frágeis. Assim, mãe, filha e neta tornaram-se calendário: 1962, 1975, 1992. Cada nascimento coincidia com a hora solene da nação. Mas nenhum desses dias foi apenas triunfo; em todos havia a sombra de um preço íntimo, pago em silêncio. A história bordava-se assim: o fio público da libertação sempre a cruzar-se com o fio privado da violência.”





