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18 de August, 2025

A História d’A História da Independência para os mais novos

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Capítulo 7: A Resposta Chama-se Cidadania

Quando voltaram no dia seguinte, os três amigos traziam perguntas escritas num papel.

— Se o passado nos deixou tantas feridas — perguntou Samira — o que podemos fazer agora? Como se começa de novo?

Maria Tondhosa não respondeu de imediato. Pegou num pedaço de carvão e desenhou três círculos na terra batida. Um dentro do outro.

— Este é o indivíduo — disse, apontando o centro.

— Este é o cidadão — disse, apontando o círculo do meio.

— E este é o Estado — o círculo maior.

— Mas o que é que isso quer dizer? — perguntou Celso.

— Quer dizer que, sem cidadãos, o Estado vira patrão. E o indivíduo vira súbdito.

Mas quando há cidadania, a política deixa de ser uma luta de poder… e passa a ser uma construção partilhada.

— E como é que se faz isso? — Judite parecia impaciente.

— Faz-se com uma nova forma de governar. Não governar para controlar. Mas governar criando condições para que se possa governar. Fazer da política um espaço onde as pessoas têm voz, participam, decidem. Onde o poder serve para preparar o chão, não para se instalar nele.

— Isso ainda é revolução? — perguntou Celso.

— Talvez seja. Mas uma revolução calma. Uma que não precisa de armas nem de slogans.

Uma revolução que se faz nas escolas, nas assembleias, nas redes de água, nos transportes, nos bairros. Onde cada um percebe que a liberdade de um só existe com a liberdade dos outros.

— E isso é possível em Moçambique? — murmurou Samira.

— É mais do que possível. É necessário.

— E como é que se chama isso mesmo? — quis confirmar Judite.

— Cidadania. A palavra mais bonita que herdámos do futuro.

O Peso de Ver Mais Longe

Na última sessão antes das aulas recomeçarem, os três chegaram mais pensativos. Haviam falado sobre tudo com os pais, os avós, os amigos. Nem todos gostaram das perguntas. Nem todos aceitaram as respostas.

— Tenho uma dúvida — disse Celso. — Não é injusto julgar as gerações anteriores com os olhos de hoje?

Maria Tondhosa assentiu devagar, com ternura.

— Sim, é. E não é.

— Como assim? — perguntou Judite.

— Ter nascido depois dá-nos a vantagem da distância. Conseguimos ver erros que talvez, no calor da luta, não fossem tão claros. Mas isso não nos faz melhores. Apenas mais responsáveis.

— Responsáveis por quê? — perguntou Samira.

— Pelo país que herdámos. Pelas dores que nos deixaram. E também pelas palavras que dizemos. Porque criticar não é só apontar o dedo, é assumir a dívida.

— Dívida?

— Sim. A dívida com a verdade. Com os que morreram e com os que nasceram depois.

Não somos culpados pelos erros do passado, mas somos responsáveis por não repeti-los.

E isso exige humildade. A humildade de saber que, no lugar deles, talvez fizéssemos o mesmo.

— Mas então não vale a pena criticar? — perguntou Celso, hesitante.

— Vale, sim. Mas com o coração aberto. Com a coragem de dizer: “Eles erraram e nós também podemos errar.” E com a firmeza de continuar a procurar outro caminho mais justo, mais livre, mais digno.

Maria Tondhosa levantou-se, foi até à porta e olhou o céu.

— Porque a história não se repete. Mas às vezes… ela espera que alguém tenha a coragem de continuar o que ficou por fazer.

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