O negócio de bebidas destiladas de baixo custo em Moçambique é dominado por produtores indianos e chineses, que importam álcool etílico e corantes, da África do Sul, para fabricarem o vulgo “xivotxongo”, de acordo com dados apurados por “Carta”. “Não se conhece uma explicação clara sobre por que produtores indianos e chineses controlam a produção dessas bebidas, mas se presume que se deve ao capital relativamente maior que detêm, em comparação com a maioria dos agentes económicos moçambicanos, e ao know how que possuem nesse ramo”, afirmou um gestor da área de importação de bebidas alcoólicas, falando no anonimato.
Fotos: Facebook do Conselho Municipal da Cidade da Matola
Dados indicam que 37 das 42 empresas que operam na produção e importação de bebidas alcoólicas no país são do ramo das espirituosas e nenhuma pertence a moçambicanos, apesar de serem estes que dão a “cara” em entrevistas com a comunicação social e no contacto com as autoridades. “Essas bebidas estão em todo o país. Algumas [fábricas] exportam essas bebidas, mas o grosso é para o consumo, a nível nacional”, afirmou Joel Nhassengo, director provincial da Indústria e Comércio de Maputo.
Províncias de Maputo e de Nampula: as destilarias
O número de fábricas de bebidas destiladas de baixo custo pode estar aquém da realidade, porque há produtores que se aproveitam da permissividade das instituições e da corrupção para operar na clandestinidade, alertam operadores do sector. “É uma situação de ilegalidade que convém aos funcionários corruptos, porque têm uma via aberta para a extorsão. Fazem nessas fabriquetas clandestinas rusgas constantes, para ir tirar dinheiro, como fazem nos ‘bottles store’ e ‘contentores’ de nigerianos, burundeses e ruandeses que estão em conflito com a lei”, contou um comandante de uma esquadra da polícia que opera num bairro suburbano de Maputo.
A extrema pobreza, o elevado desemprego jovem, baixo preço da matéria-prima e facilidade de importação da vizinha África do Sul tornam Moçambique um território fértil para bebidas como “xivotxongo”.
“Com álcool etílico, corantes e água, para mistura, e uma maquineta quase artesanal, para a destilação, fazem-se aquelas bebidas”, narrou um gestor de uma das “fabriquetas” de “secas” acessíveis.
Trata-se de um negócio que também prospera na ilegalidade, através da corrupção, contrabando e contrafacção, considera a Associação dos Produtores e Importadores de Bebidas Alcoólicas (APIBA). “O regulamento que disciplina o sector de bebidas alcoólicas diz claramente que devem ser feitas análises laboratoriais ainda na fase de testes para a produção, mas se fala agora de realização de exames laboratoriais de marcas que são comercializadas há muitos anos. Isto parece uma autópsia a um cadáver exumado”, sublinha a fonte da APIBA.
Essa comparação surge na sequência do anúncio do porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, de que serão feitas análises laboratoriais às bebidas destiladas de baixo custo, para a aferição da sua aptidão para consumo humano, reforçando a ameaça de banimento da produção deste tipo de líquido etílico.
Alguns operadores consideram que a postura do Governo está a ser demasiado draconiana e injusta, tendo em conta que há fabricantes que operam dentro da legislação. “Dizer que faz mal à saúde não poderia ser assim, partindo do princípio de que toda a bebida, mal consumida, faz mal à saúde. Falando da nossa linha em especial, comparando com o que a gente tem visto, a nossa até é recomendável, porque nós temos técnicos aqui, engenheiros químicos para as análises, e é por isso que tivemos a licença para operar”, considera Joaquim dos Santos, da administração da Apex Beverages, empresa visitada pelas autoridades do município da Matola.
“Os jovens querem uma ‘pancada rápida’ e barata, para anestesiar o desespero e a frustração” – Jorge Miguel, vendedor e estudante universitário.
A cadeia de valor do ‘’xivotxongo’’
Jorge Miguel, que gere uma lojinha da mãe, instalada na varanda da parte frontal da casa de habitação da família, admite que as bebidas destiladas de baixo custo geram uma receita significativa, apesar de não serem o “core business” do comércio familiar. “Temos gin ‘Royal’, ‘King’, ‘Zero’ e ‘Indica’ e whisky ‘Bond Seven’, que custam entre 50 meticais, para as garrafinhas, e 120 meticais, o pacote maior. São bebidas com 43% de álcool e, com 200 meticais, o consumidor está ‘arrumado’”, relata Miguel, cujo estabelecimento que gere se situa no Bairro Ferroviário.
Com 200 meticais, para quatro unidades de “xivotxongo”, de 50 meticais, cada, compram-se 16 pães, ao preço de 12 meticais, cada, praticado nas padarias mais acessíveis, e que pode alimentar três famílias, com cinco membros, cada uma.
Jorge Miguel vende 24 garrafinhas em cinco dias, em média, mas há dias em que o quintal da casa fica repleto de consumidores de ‘xivotxongo”. “Os jovens querem uma ‘pancada rápida’ e barata, para anestesiar o desespero e a frustração”, diz Jorge Miguel, que é também estudante universitário.
O sector de bebidas alcoólicas em Moçambique tem uma parcela notável da economia nacional, contribuindo com entre 2,5 e 3% do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com a APIBA, cerca de 500 mil pessoas, maioritariamente jovens, trabalham no ramo.
3% do PIB e “pão” a mais de 2 milhões de pessoas
O sector de bebidas alcoólicas em Moçambique tem uma parcela notável da economia nacional, contribuindo com entre 2,5 e 3% do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com a APIBA, cerca de 500 mil pessoas, maioritariamente jovens, trabalham no ramo.
Inferindo da fórmula usada pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE), que diz que um trabalhador moçambicano é provedor, em média, de um agregado familiar com cinco pessoas, pode assumir-se que cerca de 2,5 milhões de pessoas sobrevivem graças ao sector de bebidas alcoólicas.
Não há, contudo, dados desagregados, sobre a quota-parte da indústria de destiladas de baixo custo e que enfrenta agora o espectro de encerramento.
Dados da Autoridade Tributária referem que o sector de bebidas alcoólicas mete no fisco moçambicano cerca de 500 milhões de meticais, por ano, em Imposto de Valor Acrescentado (IVA) e Imposto de Consumo Específico (ICE).
O valor não desagrega a contribuição por subsectores, nem inclui os ganhos com a rotulagem de bebidas.
“Lei seca” ou criminalização?
Analistas alertam que os antecedentes de casos de “banimento” de bebidas alcoólicas com consumidores fiéis podem empurrar a actividade para a clandestinidade e aproveitamento pelo crime, incluindo o organizado.
A experiência negativa mais conhecida é a dos efeitos da “Lei Seca”, quando, entre 1920 e 1933, o Governo norte-americano tentou reduzir o consumo de álcool.
A medida logrou a diminuição da ingestão de bebidas, mas também produziu o efeito contraproducente de consumo clandestino e de aumento de produção de bebidas adulteradas, agravando a saúde dos utentes dos locais de venda, entretanto proibidos.





