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15 de August, 2025

Jimmy Dludlu: O Regresso do Som que Nunca Partiu

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Há presenças que não precisam de passaporte para atravessar fronteiras. A música de Jimmy Dludlu intensa, delicada, improvisada e, ao mesmo tempo, meticulosamente pensada é uma dessas presenças que nos acompanha mesmo quando não sabemos que é ela que ouvimos ao fundo da memória. A sua guitarra é, há décadas, uma voz firme de Moçambique no mundo. E, paradoxalmente, só agora começamos a reconhecê-la plenamente como nossa.

A recente Aula de Vida Artística que Jimmy Dludlu proferiu na Universidade Pedagógica de Maputo, por ocasião da abertura do II semestre académico,não foi apenas um momento académico. Foi, antes, um reencontro com a dignidade. Digo isto sem dramatismo. Foi ali, entre jovens estudantes e professores atentos, convidados especiais, que sentimos que a arte não se mede apenas por aplausos internacionais, mas pela capacidade de tocar fundo a alma dos que partilham as nossas raízes. O molwene de Chamanculo provou tudo isto e muito mais, ou não estivesse a própria universidade no mesmo bairro.

Jimmy Dludlu nasceu Adelino Cuambe, em Inharrime, província de Inhambane, no dia 17 de Novembro de 1966, e cresceu no bairro de Chamanculo, em Maputo. Esse território de criatividade brava e improviso poético que tantos talentos gerou para o país. Basta evocar o nome de Lurdes Mutola para se perceber o canto fértil desse lugar. Frequentou a Escola Primária do Lhanguene e, mais tarde, a Escola Secundária Estrela Vermelha. Reprovou tantas vezes quantas foram necessárias para provar que aquele não era o seu destino. A sua praia eram as cordas musicais; o seu voo, os sons da guitarra.

Mas, aos 13 anos, Jimmy já vivia entre os sonhos e as melodias. Bebia dos ritmos moçambicanos e do afro-jazz que chegavam pelas ondas da rádio. Ainda adolescente, arriscou tudo e atravessou fronteiras rumo à Suazilândia e à África do Sul, numa fuga marcada por dificuldades e improvisos, como tantas da nossa história recente. Não se esquece nunca do seu amigo Manito com quem atravessou a fronteira. Manito sonhava com o futebol; Jimmy, com a música. Como poderiam ser tão amigos e tão próximos? Só a arte e talento poderá explicar.

Jimmy guarda também, com gratidão, a memória das influências de Fanuel Paunde, então secretário do Grupo Dinamizador do bairro de Chamanculo. Foi ele quem os incentivou a explorar outras geografias, mas sem jamais desistir dos próprios sonhos.

Naquele tempo, Moçambique vivia sob a influência da revolução socialista, atravessado por guerras ferozes e fratricidas. As atrocidades faziam manchetes e empurravam os sonhos de diferentes gerações. Era uma guerra interna e uma agressão externa. O país minguava. A bandeira da liberdade se encolhia diante de sangue desnecessariamente derramado e restrições económicas de toda a natureza. Jimmy falou da guerra como assombração e do cartão de abastecimento, como recordação. Esses foram os anos dos ódios e intolerâncias. Os conflitos, infelizmente, persistem ao longo dos tempos e dos anos.

Aos 16 anos, era apenas mais um jovem sem documentos nem garantias. Saltou a fronteira como fizeram milhares. Não foi para as minas do Johnnem para o rand sul africano. Seguiu outros caminhos, menos ortodoxos, atravessando a Suazilândia pelos montes Drakensberg, Namaacha. A sorte, aprendeu cedo, só acompanha os audazes; e essa foi uma lição gravada pela via mais dolorosa.

No país vizinho, fez de tudo um pouco; foi pastor de gado, aprendiz de soldador e, por destino, ironia e persistência, acabou a tocar guitarra nos bares nocturnos. Curiosamente, foram esses trabalhos menos qualificados que lhe permitiram comprar a sua primeira guitarra.

O talento, no entanto, foi abrindo portas. Nesta jornada, contou com a companhia de Frank Paco e John Assan. Juntos, tocaram na banda Loading Zone. Frank Paco vinha de uma talentosa família musical e cultural; os irmãos Paco tocavam de tudo um pouco. Ainda assim, foi a Loading Zone que marcou um tempo, deixando memórias e inspirações que, como várias luas, se replicariam ao longo dos anos.

A Suazilândia, hoje ESwatini, conduziu-o, entre novos episódios e muitas aventuras, até ao Botswana. Mas ali também não escapou à sombra da xenofobia, nem às marcas e contradições do racismo que, embora tivesse o seu epicentro na África do Sul, estendia-se de alguma forma aos países vizinhos. A guerra movida pelo ANC fazia pairar suspeitas sobre todos os que se envolviam em movimentos de libertação. O apartheid, ainda que vacilante, respirava.

O Botswana, mesmo independente, vergava-se perante a brutalidade do sistema sul-africano e sentia na própria pele os efeitos perversos de um regime degradante e desumano. Gaborone era um círculo estreito e vigiado, e ali ele também sofreu, na carne, os efeitos colaterais da discriminação racial. Ao chegar à cidade, foi recebido como parte da juventude do ANC.

Mas foi pelas cordas da guitarra que respondeu à falta de empatia e solidariedade humana. A sua filha mais velha nasceu ali, e tudo indicava que escolhera o Botswana para se fixar. No entanto, apesar do cerco e das limitações à liberdade, o país acabou por servir de trampolim para uma nova fuga.

Partiu num comboio carregado de cimento e, já em território sul-africano, saltou para terra firme. Chegou como um fantasma à África do Sul, mas sabia que aquele era o palco certo para lançar a sua carreira, para erguer aquilo que o coração pedia e a alma defendia; dar um propósito às cordas do violão que carregava em suas costas. Fazer com que a guitarra falasse, chorasse, lamentasse e tocasse profundamente os corações de quem o escutasse.

Joanesburgo vibrava de emoções e de noites culturais que pareciam não conhecer o descanso. Madrugadas para lá de surpreendentes e mágicas. Foi uma oportunidade para tocar e privar com os melhores músicos locais e com estrelas internacionais. Partilhou palcos com Trevor Hall (Jamaica), George Lee (Gana), e outros grandes nomes do continente.

A “cidade-luz” oferecia muito mais do que ele algum dia ousara sonhar. As exigências e o nível de qualidade eram de outra galáxia. Só os eleitos chegavam tão alto, e com sons absolutamente espirituais. Acompanhou em digressões lendas como Miriam Makeba, Hugh Masekela, Sipho Mabuse e Brenda Fassie. Participou na gravação do histórico Eyes on Tomorrow, de Makeba, e se firmou com o já referenciado grupo Loading Zone.

Antes ainda passou pela Namíbia. Foram dois anos decisivos. Foi lá que, pela primeira vez, cruzou-se com Papa Wemba, o lendário cantor e músico congolês, considerado um dos maiores nomes da música africana. Senhor da rumba congolesa e fundador do movimento La Sapé, Papa Wemba havia criado o grupo Viva la Música, com o qual conquistou reconhecimento na Europa e nos Estados Unidos.

Entre um espectáculo e outro, o “Rei da Rumba” cruzou-se com Jimmy e, como que por milagre, convidou-o para alguns shows, integrando-o a uma banda de altíssima qualidade técnica. Windhoek vibrou com essa fusão, uma harmonia de sons vindos de outra galáxia. A mestria de Jimmy marcou Papa Wemba de forma indelével. Sem precisar de grandes apresentações, o mestre congolês levou-o para o estrelato e, de certo modo, impulsionou a sua transição da Namíbia para a Cidade do Cabo, a cidade da consagração.

Mas Jimmy não quis ser apenas instrumentista de ocasião. Estudou música na Universidade da Cidade do Cabo (UCT), depois de muitas peripécias e ditos por não ditos. Chegou a UCT sem documentos. Se justificou dizendo que a guerra, em Moçambique, havia destruído todos os seus papeis. A governação universitária foi generosa e sugeriram caminhos alternativos. Ele os seguiu à risca, estudou durante o dia e, insistentemente, cantou durante a noite. Alguns anos depois, graduou-se apresentando um jazz africano moldado a partir de influências norte-americanas. O júri ficou convencido. E Jimmy conquistou, para sempre, respeito e admiração.

Posteriormente, como acontece com muitos artistas que vivem de noitadas, Jimmy teve os seus altos e baixos. Ganhou muito dinheiro, papel que parecia fácil e eterno. O poder financeiro atraiu amizades, algumas verdadeiras, outras oportunistas. Amigos que nunca o foram de facto, mas que se aproveitaram das circunstâncias. O que parecia simples tornou-se complexo. Perdeu mais do que ganhou logo em seguida, e sua vida transformou-se num constante sobe e desce.

Casou-se, e sua amada esposa, Sandra, tornou-se o seu porto seguro, aconselhando-o nas tempestades dos tempos. Jimmy não quis pactuar com o modelo de vida que o levava à autodestruição. Sandra foi mais que um tripé de apoio; foi fonte de inspiração, ajudando-o a compor In the Groove e History in a Frame.

A perda de Sandra, o seu maior amor, deixou um vazio profundo. Determinado a reconciliar-se consigo próprio, procurou “zerar” a vida e recomeçar, já sem amigos falsos, sem tentações e sem a presença da sua grande companheira. Como diz o provérbio, “o rio não bebe da própria água”, lição que Jimmy aprendeu de forma dura. As dores mais profundas deixam marcas que nunca se apagam.

Passou pelas igrejas e voltou a escutar as melodias que reencarnam a espiritualidade e divindade. Mas, esta foi uma lição que ficara para sempre e que abraça muitas das estrelas pelo mundo. Uma repetição da história e das perdições.

Jimmy Dludlu também passou pela Universidade do Gana, numa etapa marcada por novas experiências e tempos de recuperação. Jimmy Dludlu sabia que o músico deveria saber posicionar-se no mundo e “levantar a bandeira” da cultura africana. O Gana pode ter ajudado a chegar a outros patamares e filosofias. Entendimento do mundo. Espírito de Nkrumah.

Era inevitável que os Estados Unidos surgissem como um destino desejável para estudar e mostrar o seu talento. Não tardou e o convite do governo americano, por intermédio de algum Embaixador, chegou. Foi convidado para desempenhar a função de Embaixador do continente africano nos EUA. Representar, também, a América na diáspora, ampliando nesta missão a promoção da músicaafricana. Um cenário tão improvável quanto surpreendente, mas profundamente encorajador. Essa oportunidade consolidou as suas melodias, reforçou a sua reputação e projectou-o para o cenário mais conceituado da música internacional, dando-lhe também uma nova profundidade artística. Nessas alturas, lembrava-se de Jimi Hendrix, seu ídolo de infância.

Foi a sua fase de recuperação e entronização. Uma premiação e um reconhecimento de um inegável talento. Alguém que procurava um porto para deixar seus dotes desfilarem. Pura coincidência foi para uma universidade com um nome muito familiar: a North West University. Foi ali que, no passado, o líder da revolução moçambicana, Eduardo Chivambo Mondlane, também esteve. Por estes caminhos Mondlane se cruzou com Janet e, juntos, sonharam Moçambique, livre, independente, desenvolvido e reconciliado.

A discografia de Jimmy Dludlu é vasta e multifacetada, refletindo décadas de criatividade e mestria musical. Entre os seus trabalhos maisemblemáticos destacam-se: Echoes from the Past (1997), Essence of Rhythm (1999), Afrocentric (2002), Corners of My Soul (2006), Portrait (2007), In The Groove (2016), History in a Frame (2021). São obras que continuam a ecoar no mercado, nas coleções dos amantes de música.

Dludlu recebeu vários reconhecimentos nos South African Music Awards, incluindo o título de Artista Masculino do Ano por três vezes. Em 2016, conquistou o All Africa Music Award para Melhor Artista de Jazz de África, e a sua canção “Ha Deva” foi eleita a Melhor Canção. No entanto, talvez o momento mais marcante da sua trajetóriatenha sido quando o South African Music Awardslhe atribuiu o Prémio Carreira, possivelmente a mais alta distinção da sua vida artística, um reconhecimento que, em tempos, lhe teria parecido inimaginável..

Em 2014, depois de mais de três décadas na África do Sul, Jimmy regressou a Maputo, ao seu Chamanculo e a Moçambique. Não regressou para descansar, muito pelo contrário, mas para construir e erguer a nova escola de música que era desejo do Governo e sonho da própria universidade. Aceitou o convite do então Presidente Armando Guebuza para apoiar a criação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

Regressou como quem sabe que a música só cumpre o seu destino quando serve o lugar de onde nasceu. Não foi um desafio linear e sem querelas. Instituição publica não se coaduna com a liberdade e criatividade musical. Porém, escreve história neste local. Tem um bom número de jovens que viraram discípulos e ensinam em outras e novas escolas de música criadas no país. Um legado que representa a multiplicação de uma mudança e ressignificação dos sons originários, agora reinterpretados em novos compassos e batidas.

O seu regresso, a sua disponibilidade para ensinar, para escutar e para inspirar, devem interpelar-nos. Estamos prontos para acolher os nossos artistas como educadores da sensibilidade? Estamos dispostos a reconhecer a cultura como um elemento essencial do desenvolvimento nacional?

Na aula que proferiu na UP-Maputo, Jimmy falou com simplicidade do seu percurso, mas as entrelinhas da sua narrativa eram uma lição de cidadania cultural. Ao vê-lo ali, meio nervoso e tentando se soltar, entre estudantes, guitarras, partituras e memórias, percebi que, muitas vezes, os nossos heróis culturais são celebrados tarde, ou só depois de atravessarem oceanos. Este um músico e ícone musical que merece bem mais do que foi feito até agora.

Jimmy Dludlu não é apenas um grande guitarrista africano. É um artista que conseguiu fazer da sua música uma síntese do mundo, como Lionel Loueke, Richard Bona, Jonathan Butler ou Pat Metheny. Mas fê-lo sem nunca trair a alma da marrabenta, nem as raízes da oralidade moçambicana. Fê-lo com rigor técnico, intuição artística e uma consciência profunda do que significa carregar uma pátria nos dedos.

Que esta Aula de Vida Artística não seja um ponto fora da pauta. Que seja o início de uma nova melodia; uma em que os sons que vêm de longe nos ensinem a valorizar o que temos dentro. (JF).

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