Quando a 3 de Agosto de 2024 lançamos a primeira edição da “Carta da Semana”, nossa aventura pelo formato tabloide, por enquanto ainda em vertente e-paper, escrevemos que o seu fio condutor assentava no aprofundamento do nosso jornalismo, perspectivando de forma mais assertiva os acontecimentos da semana, registando para a história os factos marcantes do processo moçambicano – nossa vida política, social e económica – dissecando as vicissitudes inerentes ao contexto da crise política, económica e orçamental sob um pano de fundo de corrupção endêmica e uma fastidiosa gangsterização das finanças públicas.
Passados 12 meses, e olhando pelo retrovisor através das capas que foram estampadas, esse fio condutor está lá, incólume: as capas retrospectivam o essencial dos acontecimentos registados nesse período, com uma abordagem plena de jornalismo de referência.
Sim, em pouco tempo, o nosso jornal é tido como uma referência que não se contorna. E isso não se deve apenas ao jornalismo que fazemos, com sua moldura criativa, mas também a um vasto leque de colaboradores e colunistas de fina estampa, que emprestam seus olhares diversificados dos fenómenos em curso na sociedade.
De modo que, um ano depois, há razões quanto baste para celebrarmos, de forma efusiva com champanhe e hosanas espampanantes, mas seguramente nos questionando sobre se nosso desiderato foi alcançado de forma cabal.
Se eu disser que “sim”, estaria a ser injusto e mentiroso num registo de autoavaliação egocêntrico, para satisfação individual como mentor do projecto.
A verdade é que “Carta da Semana” ainda não conseguiu fazer o pleno: falta-nos o verdadeiro jornalismo investigativo. Porquê? Não sei…, mas é fácil apontar razões como a crise económica, a falta de monetização do projecto e, nessa sequência, a escassez de meios produtivos e seus insumos para que possamos cumprir esse objectivo primordial.
Falta ainda disponibilidade humana e recursos financeiros para explorar esse tipo de jornalismo de que Moçambique precisa, num momento em que o país lambe as feridas do endividamento oculto guebusista, mas a apetência pelo saque corrupto à nossa economia persiste e está em cima das mesas, debaixo de candelabros de cristal nos hotéis de luxo da capital, sobre os tapetes vermelhos da nossa política, nas noites mal dormidas da pundicracia reinante, na indústria extractiva, na banda comercial, no procurement de baderna que nos corrói o destino.
Este desafio mantém-se, pois, intacto. E, se “Carta da Semana” não colapsar nas próximas semanas, nosso compromisso é mesmo fazer investigação.
Mas colapsar porquê se é uma “referência”?, eis a questão.
A ideia de referência decorre da reacção positiva de uma enorme franja de leitores de classe média-alta que se tornaram leitores assíduos deste jornal e nos têm transmitido em devido tempo sua reacção positiva ao projecto.
Mas a ideia de referência não tem qualquer correspondência com o sucesso em termos de monetização. Nesse aspecto, “Carta da Semana” ainda não deu o “take off”, ainda não atingiu o “break even”, para usar um conceito de gestão. O jornal vive dos recursos e fontes de receita da Cartamz online, o jornal website da empresa nascido em 2018.
Vivemos uma conjuntura de aversão dos leitores à compra de conteúdos noticiosos, pois as redes sociais já fornecem leitura “satisfatória”. Ou seja, o ritmo de captação de assinaturas tem sido penoso.
Por outro lado, o mercado publicitário moçambicano não escapa à actual crise económica, embora consideremos que o sector bancário e das indústrias extractivas poderia ser mais efectivo no apoio comercial à média independente. Isso não acontece e não existe regulação pública para tal.
Sem receita financeira própria, “Carta da Semana” só pode zumbir. Se isso acontecer, não nos envergonharemos. Estamos cientes das nossas capacidades e sabemos que podemos contribuir mais para este país, com melhor jornalismo, mas isso não depende apenas de nós.
A fechar, faz sentido uma palavra de apreço a todos os colaboradores, colunistas (dos melhores do mundo) e anunciantes e, sobretudo, aos parceiros do Suplemento de Logística e Supply Chain, com sua enorme generosidade. Sem eles, este suplemento era um nado morto.





