A propósito das redes sociais, onde muito se comenta acerca de um transporte misto (passageiros e carga) que, o Fundo dos Transportes e Comunicações de Moçambique anda a distribuir pelos distritos deste nosso vasto país, vários colegas e amigos tem-me pedido a minha opinião sobre a matéria. Alguns chamam de atraso, outros dizem que é indigno. Para não ter que responder a cada um, decidi escrever o que penso sobre o assunto. Afinal, todos temos direito a opinar! Vou tentar dar o meu parecer baseado na realidade local, nos princípios de dignidade e nas boas práticas de desenvolvimento inclusivo.
1. Em primeiro lugar pergunto-me a mim próprio porque o meu País optou por esta solução temporária? Navego pelos imensos distritos, onde cada um tem as suas características e especificidades próprias e respondo. Para o problema de “acessibilidade em estradas difíceis” vejo o tractor como uma melhor tracção em estradas de terra batida, alagadas ou irregulares, onde veículos convencionais não passam. Para o problema, “baixo custo de aquisição e manutenção”, vejo os tractores agrícolas e atrelados, mais baratos do que autocarros ou carrinhas e com peças de reposição comuns no meio rural. Para o problema “falta de alternativas formais”, vejo a ausência de serviço público regular ou viaturas comerciais em zonas remotas e, neste caso, os tractores podem preencher o vazio deixado pelo sector formal;
2. Depois desta análise, no geral, olho para este tipo de solução e afigura-se como sendo versátil, dado que o mesmo veículo pode ser usado para transporte de passageiros (com cabine adaptada), transporte de carga agrícola (sacos, fertilizantes, colheitas) e até socorrer situações de emergências (ex.: transporte de doentes). O facto de ser operado pelas pessoas da comunidade traz mais valias e reduz a dependência de operadores urbanos ou formais. Não esqueço a confiança que os habitantes rurais têm em soluções locais e adaptadas à sua realidade;
3. Sobre o nosso País. Temos, se não erro, 154 distritos. Todos eles com contextos geográficos e de acessibilidade muito diversos. Imagino que, em alguns deles, não há estradas transitáveis o ano todo, nem operadores de transporte regular, nem sequer acesso motorizado convencional. Ignorar isso é continuar a excluir milhões de moçambicanos da mobilidade, do acesso à escola, ao hospital, ao mercado ou ao Estado. Logo, esta pode ser uma forma de combater a exclusão das comunidades, embora não seja a ideal nem óptima;
4. Esta solução do Governo, não é, no meu entender, definitiva, mas sim, deve ser vista como de transição, contextual e comunitária. Ninguém propõe que tractores substituam autocarros urbanos. Mas nas zonas de acesso difícil e orçamentos limitados, é uma solução transitória, prática e digna, quando bem implementada. É melhor ter um tractor com cabine segura do que andar 20 km a pé ou depender de viaturas ilegais ou perigosas. Não há vergonha em soluções criativas que salvam vidas e encurtam distâncias;
5. Entendo também que esta é uma solução de autonomia local e não de imposição. Muitas destas soluções nascem das próprias comunidades, que adaptam recursos agrícolas à mobilidade. Aqui, o Estado, tenta melhorar a segurança, apoiar as comunidades e regular o uso, não eliminando uma resposta funcional que já existe e é valorizada localmente. Tratar com dignidade as populações rurais não é prometer autocarros onde, nem estradas existem, mas sim, oferecer soluções seguras, acessíveis e adaptadas ao seu contexto. E isso, em muitos casos, começa com um tractor bem equipado, regulamentado e ao serviço da comunidade;
6. Não vejo este transporte misto como uma questão estética, mas de acesso e dignidade. Dignidade não é andar num veículo bonito, mas sim ter a possibilidade de chegar a um posto de saúde, uma escola ou um mercado com segurança e previsibilidade. O transporte comunitário com tractores pode ser seguro, coberto e adaptado, desde que tenha apoio técnico e normativo;
7. Exemplos internacionais mostram que é uma solução válida em zonas remotas. Países como Etiópia, Malawi, Bangladesh ou Nepal utilizam tractores adaptados com apoio estatal e reconhecimento legal, com cabines seguras, assentos e regras claras (ver tabela abaixo). Por exemplo, o nosso país vizinho Malawi, começou a promover o uso formal e comunitário de tractores com atrelados para transporte rural a partir da década de 2000, com maior ênfase após 2005, no contexto de programas de desenvolvimento rural e acesso aos serviços básicos. A prática, no entanto, já era informalmente adoptada pelas comunidades desde os anos 1990. Estes meios são subsidiados pelo governo e operados por cooperativas agrícolas, garantindo transporte escolar, de saúde e produção agrícola com uma única solução.
Tabela 1 – Países com transporte misto rural baseado no tractor
| País | Nome/local designação | Região de uso |
| Etiópia | “Isuzu Tractors”, “Gari” | Terras altas e zonas agrícolas |
| Malawi | “Oxcart Tractor” | Comunidades agrícolas rurais |
| Níger | Tractor agrícola adaptado | Regiões áridas e de savana |
| Tanzânia | Tractor com reboque | Zonas remotas e de cultivo |
| Zâmbia | Tractor trailer | Distritos rurais sem estrada pavimentada |
| Bangladesh | “Nosimon/Karimon” | Regiões rurais do norte |
| Índia (Bihar, UP) | “Jugaad vehicles” | Cinturões agrícolas e de difícil acesso |
| Nepal | Tractor-bus | Regiões montanhosas e agrícolas |
Penso assim que estes tractores não são luxo, mas uma solução real para um problema real. Passam onde os carros não passam. Custam menos que um autocarro. Servem para levar crianças à escola, doentes ao hospital, escoar produtos do campo e até para emergências. Em vez de esperar por promessas que nunca chegam, as comunidades adaptaram-se. E o Estado, em vez de virar as costas, decidiu apoiar e regulamentar essa iniciativa local. Talvez porque nasci num meio rural entendo desta forma o assunto. Costuma-se dizer que, quem está longe do povo não pode criticar quem encontra caminhos para chegar até ele. Vamos apoiar, melhorar e seguir em frente. Porque mobilidade também é justiça social. Um abraço de coração para todos.
*António Matos é o PCA da Agência Metropolitana de Transportes
**Título da responsabilidade de “Carta”





