Desde o fim do ano passado, a Yango registou algumas denúncias de assédio, supostamente cometido por alguns motoristas. No início deste ano, esses casos intensificaram-se e alguns relatos foram partilhados com a Carta de Moçambique.
Como forma de esclarecer esses relatos, o jornal contactou a Yango e, na ocasião (no mês de Fevereiro), a empresa recusou-se a prestar qualquer esclarecimento. No mês de Maio, a nossa reportagem tomou conhecimento de que a Yango tinha implementado novas medidas que visam salvaguardar os clientes.
Neste contexto, voltamos a contactar a Yango para saber em que consistem essas medidas. Mas antes, questionamos alguns motoristas para saber se estavam cientes das novas medidas e até que ponto estas estão a ser implementadas, tendo respondido negativamente.
Entre as medidas introduzidas figuram a entrega do registo criminal por parte dos motoristas, o envio de uma “selfie” a cada três dias e a suspensão do motorista caso esteja em situação irregular.
Segundo alguns motoristas, a exigência de envio da “selfie” já existia desde o início da operação da Yango no país. “Quem não envia a ‘selfie’ deixa de receber chamadas. É como se desaparecesse do sistema”, relatou um motorista.
A única novidade, segundo eles, foi a exigência do registo criminal actualizado, que teria sido introduzida após os recentes relatos de crimes. No entanto, todos os motoristas ouvidos afirmaram não ter apresentado esse documento. Estimam que entre 80% a 85% dos motoristas também não o fizeram.
As justificativas dos motoristas incluem a perda de tempo [tirar o documento leva horas] que poderia ser utilizado para trabalhar e os custos relacionados com as despesas suportadas pelos próprios motoristas, além de combustível, manutenção do veículo e a comissão de 15% por corrida paga à Yango. “Essas medidas são só para inglês ver. Eles dizem que exigem o registo criminal, mas na prática não exigem nada”, disse um dos motoristas.
Face a esta alegação, confrontamos a Yango, tendo explicado que implementou um protocolo abrangente de segurança e qualidade, incluindo o monitoramento contínuo do desempenho, com base em feedback dos passageiros, padrões de viagem e alertas internos e colaboração com frotas parceiras, para garantir a conformidade dos motoristas; desactivação imediata de condutores envolvidos em má conduta, fraude ou mau atendimento; revisão manual e investigação de incidentes com base em registos de viagem e evidências disponíveis.
Questionada sobre a alegação de que alguns motoristas desconhecem as novas medidas, a empresa respondeu: “a Yango utiliza diversos canais de comunicação com os motoristas, incluindo notificações no aplicativo com explicações detalhadas, comunicação com empresas parceiras e centros de suporte ao motorista. Esses canais têm sido usados para notificar os motoristas sobre quaisquer alterações ou medidas”.
Tentamos ouvir a Polícia da República de Moçambique (PRM) para saber se houve algum registo de queixas relacionadas a motoristas da Yango, tendo a corporação confirmado que tem registado alguns casos, mas até ao fecho desta edição aguardávamos pelo envio dos dados que ainda estavam a ser recolhidos.
PGR admite desafios nas investigações dos crimes de taxistas por aplicativos
O magistrado do Ministério Público afecto à área criminal, Amâncio Zimba, confirmou que há registo de crimes cometidos por motoristas de aplicativos e que investigações estão em curso com apoio do SERNIC.
“Temos de reconhecer que há o desafio de obter melhores ferramentas para investigar esses crimes, como meios tecnológicos adequados para rastreamento e melhor cooperação com os servidores de internet”, afirmou Zimba, confirmando, por exemplo, que neste ano já foram registados alguns casos de crimes envolvendo motoristas de aplicativos.
Importa lembrar que, no início do ano, a Yango Moçambique, uma plataforma de mobilidade urbana por aplicativo, deixou os seus usuários alarmados após diversos relatos apontarem para o perigo iminente de utilizar os seus serviços.
Fontes ouvidas pela “Carta de Moçambique” relataram momentos de pânico, supostamente causados por motoristas da Yango. Um dos casos aconteceu na última semana de Janeiro, quando uma passageira contou que, por volta das 20h00, solicitou um Yango da cidade da Matola para o Alto Maé, onde reside. Ao chegar, o motorista aparentava ter cerca de 40 anos e conduzia um Alion cinza, porém, no aplicativo, constava que o carro seria um Sienta. “Ele perguntou o meu nome e se eu havia solicitado um Yango. Respondi que sim. Por estranhar o veículo, assim que entrei, compartilhei todas as informações com o meu irmão.”
A viagem corria normalmente até chegarem ao Alto Maé, nas proximidades da Praça 21 de Outubro, quando o motorista decidiu entrar numa rua escura e pouco movimentada. Com a mudança repentina da rota, a passageira perguntou o que estava a acontecer. O motorista alegou que precisava parar por um minuto para urinar.
“Fiquei apreensiva e, ao tentar desbloquear o meu celular para avisar o meu irmão, o motorista tirou uma arma, apontou para mim e anunciou o assalto. Levou minha bolsa, meu celular e minha peruca, e mandou que eu descesse do carro”, narrou.
Mais relatos de pânico após solicitar um Yango
Outro caso foi relatado por Katia Agy, artista moçambicana, que compartilhou nas redes sociais o susto vivido em Fevereiro, após solicitar um serviço da Yango. Segundo ela, após concluir um compromisso, chamou um carro por aplicativo. O motorista ligou informando que estava a três minutos de distância e, ao chegar, telefonou novamente.
“Quando atravessava a rua para entrar no carro, percebi algo estranho: havia dois homens no veículo. O que aparecia no aplicativo estava no banco do passageiro, mas o condutor era outro, não identificado. Recusei-me para entrar. O motorista, em tom apressado, tentou justificar: ‘Sou instrutor da Yango e estou a ensina-lo como funciona, pois é a primeira vez que está ao volante.’ Isso não fazia sentido. Logo a seguir questionei: ‘Se você é instrutor, sabe que não deveria estar no carro com ele, pois os motoristas passam por uma formação antes de começar a trabalhar e não andam com instrutores. Daí desisti de fazer a viagem”.
Outra cidadã, que preferiu não se identificar, compartilhou a sua história vivida no passado dia 22 de Fevereiro. Ela solicitou um táxi na zona do Jardim e, ao chegar, o motorista aparentava ter mais de 55 anos. Inocentemente, entrou no carro confiando que chegaria ao destino sem problemas.
“Solicitei o carro para me deixar em casa, no bairro da Malanga. Pouco tempo depois, o motorista fingiu receber uma chamada de uma cliente habitual. Acreditei e não vi problema em desviar para buscá-la e partilhar a tarifa. No caminho, ele desviou para uma rua no Fajardo, onde estacionou o carro, colocou uma máscara e anunciou o assalto. Levou meu dinheiro, celular e me abandonou naquele local”.





