Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

10 de December, 2025

Feliciano Gundana – Os silêncios que constroem um país

Escrito por

Algumas vezes ouvi dizer que há vidas que não cabem no tempo e vozes que não precisam gritar para serem compreendidas. E há também homens que, mesmo quando partem em direcção à eternidade, continuam a caminhar connosco,oferecendo, no seu silêncio, um conselho sereno e a paz de espírito que todos almejamos.

Feliciano Salomão Gundana é um desses nomes que se sussurra com respeito, se escreve com cuidado e se pronuncia com o coração em silêncio. Encontrou o seu espaço e o seu tempo para seguir o seu caminho com dignidade, lisura, probidade e decoro.

Nos últimos dias tive acesso ao seu livro,um trabalho meticuloso, de rigorosa pesquisa, escrito pelo Professor Joel das Neves Tembe, historiador de créditos firmados e que tem na luta armada, e em alguns dos seus protagonistas, a sua principal linha de trabalho. A obra ainda se encontra no prelo, mas já próxima do lançamento.

Ele partiu antes de ouvir estas palavras. Não esperou pelo lançamento, não esperou pelo prefácio, não esperou pelo aplauso,talvez porque os verdadeiros heróis conhecem, em silencio, a pressa do seu destino.

Agora, perante a sua nobreza, estas páginas erguem-se, respiram, e ler-se-ão na eternidade, na companhia da sua amada esposa de toda a vida, Eulália Muthemba, e ao lado dos seus antigos camaradas Filipe Magaia, Alberto Sithole, Eduardo Mondlane, Samora Machel, John Kachamila, Marcelino dos Santos e tantos outros que, certamente, o recebem de almas abertas, entusiasmados, com o mesmo abraço com que um dia sonharam Nação unida, uma Pátria livre e um país que nunca chegaram a ver no topo das suas potencialidades.

Ele disse um dia, com a simplicidade de quem carregava o peso do mundo: “O que é preciso para ser herói vivo, eu também não sei. O Governo é que disse que você é herói… É uma grande responsabilidade.” Ainda bem que estas palavras foram resgatadas para as páginas da história.

Para Gundana, ser herói não era um título, nem uma forma de ser, estar ou viver. Significava, antes, acordar cedo, servir sem alarde, colaborar para reerguer o país sem ostentação e sem vaidades. Era ser menino de Inharingue, adolescente da Beira, trabalhador dos Caminhos de Ferro, amigo de Filipe Samuel Magaia, Alberto Sithole e Tobias Dai; combatente disciplinado, estudante incansável, dirigente íntegro, patriota total. Homem de palavra curta e obra longa.

Ser herói, para si, significava que o heroísmo é sempre reconhecido pelo povo, pois os homens criam o seu próprio espaço no tempo das suas acções. Não são feitos por decretos, são eleitos pela gente.

Feliciano Gundana cresceu entre as areias de Chiloane, as correntes migratórias que levavam jovens ao Zimbabwe, então Rodésia do Sul de Ian Smith, as contradições de Manica e Sofala sob a Companhia de Moçambique, o peso do “Chibalo”, a dor dos impostos coercivos, a dureza da vida agrária e a promessa de um mundo maior.

Carregou nas mãos as memórias de um povo marcado por injustiças, exploração, fé, resistência e dignidade. As vivências de Manica e Sofala, da luta, moldaram profundamente a sua personalidade. O resto foi o próprio povo que traçou o seu destino.

Aos pés da Beira colonial, aprendeu cedo que o trabalho podia ser violência, mas também libertação; que o estudo era janela; que a missão era caminho; e que o país precisava de homens dispostos a ser ponte, não muro.

Foi essa ponte que ele se tornou. Ao lado de Filipe Samuel Magaia, ouviu as primeiras sementes da rebelião moral que culminaria na libertação nacional. Ao lado da sua UDENAMO, depois transformada na Frente de Libertação de Moçambique, deu o melhor de si, sempre com a humildade, decência e idoneidade que apenas os grandes possuem. Não se exibia, mas era impossível não o ver. Não discursava e era parco em palavras, mas era impossível não o ouvir. Não procurava destaque, mas era impossível não o seguir.

Guardo a imagem de um homem de moralidade e virtude, que agia preservando o amor-próprio, sem se curvar ou agir de forma desonrosa, mesmo diante das adversidades.

Quando Eduardo Mondlane lhe abriu a porta da formação superior, em pleno período da guerra de libertação, Gundana não viu apenas uma oportunidade, viu uma missão. Seguiu as instruções e transformou-se em guerrilheiro e estudante.Dominar a ciência para servir o seu povo. Tornou-se exemplo de disciplina, rigor e serviço público.

Foi gestor, ministro, quadro do Estado, militante discreto, chefe de família firme, cidadão exemplar. Foi Governador em Nampula, e foi lá que tive a primeira oportunidade de o conhecer, ao accionar um vídeo do Canal Zero na televisão da sua casa. Ele deslumbrou-se, embora nunca deixasse visíveis as suas emoções diante de nós.

Depois, fui acompanhando o muito que ele quase nunca dizia. Era desses homens que, no silêncio das palavras, revelavam a capacidade de ouvir e ofereciam cumplicidade através do olhar.

Foi proclamado Herói Nacional em 2015, por decisão do Governo, mas já o era muito antes disso, nos gestos pequenos, nas decisões difíceis, na coerência inabalável. Não precisou de decretos, pois a sua trajectória, tanto pelas obras de cunho patriótico, como pela dimensão quase mítica e pela liderança pelo exemplo, fez dele um homem distinto, probo e respeitado.

A história deste homem confunde-se com facetas, por vezes pouco esclarecidas, da luta de libertação e do pós-independência. Na contemporaneidade, a história deste país tem outros contornos e outra complexidade, não podendo ser reduzida apenas aos episódios da luta armada de libertação.

Não a história escrita em murais de glória, mas a história verdadeira, feita de madrugadas frias, resistências silenciosas, escolhas éticas, responsabilidade humana e lealdade à pátria. A sua biografia, tão meticulosamente reconstruída, devolve-nos as memórias da Beira colonial, o ambiente protestante e católico das missões, as redes de solidariedade entre militantes, o pulsar das comunidades de Machanga, Chingune, Mambone, Manica e Sofala.

E, mais do que tudo, devolve-nos um homem. Um homem que amou a sua Eulália com a serenidade de quem entende que o amor é também uma forma de libertação. Um homem que respeitou o silêncio, cumpriu a palavra e valorizou o estudo como arma de emancipação. Um homem que manteve viva a chama da Unidade Nacional, mesmo quando forças contrárias tentavam apagá-la.

Hoje, quando o país enfrenta novos e ainda não resolvidos desafios, tais como democracia emergente, justiça comprometida, inclusão, que por vezes se assemelha a exclusão, sustentabilidade, é às figuras como Feliciano Gundana que devemos regressar. Aos que não se deixaram seduzir pelo poder fácil, aos que sabiam que servir era mais importante do que governar, aos que fizeram da simplicidade a morada da sua grandeza.

Gundana não pertence apenas à família Gundana, nem apenas à história da FRELIMO, da UDENAMO ou de qualquer outra organização. Ele pertence ao povo que acreditou na liberdade e que hoje dela usufrui.

Pertence às escolas que precisam de referências, às universidades que precisam de ética, às comunidades que precisam de heróis reais, daqueles que viveram com o povo e para o povo.

Partiu em silêncio, como viveu. Mas deixou-nos um país. E deixou-nos um espelho. Que este texto, e o livro que inspirou, sirvam de luz e guia para as novas gerações, para que nunca esqueçamos que a pátria não é apenas território, é descendência moral. É continuidade ética. É memória viva.

Feliciano Salomão Gundana, dos últimos heróis vivos de uma geração fundadora, regressa hoje à eternidade não como ausência, mas como presença mais profunda. Porque heróis não morrem, transformam-se em país.

Visited 870 times, 1 visit(s) today

Sir Motors

Ler 785 vezes