Aos 81 anos, Manuela Soeiro será homenageada esta terça-feira, 20 de Outubro, quando a Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane atribuir o seu nome à sala Mini-Teatro, no âmbito das celebrações dos 50 anos da universidade. É um reconhecimento a uma mulher que dedicou mais de cinco décadas ao teatro moçambicano, como encenadora, criadora e formadora de gerações. Mas o percurso também se fez de escolhas pessoais e de custos que a própria reconhece.
Em 2024, numa conversa com a Carta da Semana, Manuela Soeiro falou de uma carreira construída entre o teatro e a maternidade, com os dois filhos, por vezes, a dormirem nos bancos do Teatro Avenida enquanto ela trabalhava. “A minha carreira foi difícil. Fiz a minha carreira com os meus dois filhos nos braços, às vezes, a dormirem nos bancos do Avenida. Já pedi desculpas publicamente por lhes ter torturado e ter feito da sua infância menos prazerosa. Mas era o que eu era”, confessou. E acrescentou: “Identificava-me com o teatro, mas sobretudo identificava-me como moçambicana, como parte deste país”.
Na altura, Manuela Soeiro tinha 79 anos. Recebeu-nos no Centro Cultural Sabura, espaço que idealizou como lugar de formação, memória e criação artística. Entre quadros, esculturas, livros e projectos, falou da infância, das raízes que a ligam ao Norte e ao Sul de Moçambique, do Teatro Avenida, das peças que marcaram o seu percurso e da intervenção social que sempre procurou imprimir ao trabalho cénico.
Revisitar esta conversa é reencontrar a mulher por detrás de um percurso que se confunde com a história do teatro moçambicano. Uma mulher que fez da cena um espaço de criação, formação e intervenção, sem deixar de reconhecer o lugar da família e do país na sua trajectória. É pela sua própria voz que regressamos a Manuela Soeiro.
Uma máscara de todas as cores!
Tudo o que ele pensava parecia estar agora exposto, ali, naquele espaço. A vida dela também. A vida, os 79 anos. E os mais de 50 de teatro traduzidos em cadeiras, mesas, quadros, esculturas, projectos em papéis, livros, uma cascata de pensamentos profundos, melancólicos e felizes.
À entrada de Sabura, um cão espreguiça-se entre a relva. Não é verde, como nos habitua o verão. Tudo está pálido, até as paredes. Os vestígios são de recomeço, de reposição, de transplantio. A decoração do jardim, em pedras, vai aos poucos ganhando forma. Do outro lado, uma voz interrompe a minha procissão: “ela já chegou!”, alerta o segurança, sentado, a aproveitar os poucos raios solares que lhe batem a cara, num dia quase frio. “Está reunida com aquelas pessoas”, orientou-me, de novo, com os olhos, sóbrios, tímidos e cansados.
Manuela Soeiro está de óculos escuros, um cachecol cinza, sentada numa poltrona, aquieta, pequena, sem muita acção. Vê-la assim, sentada, quieta, não se imagina o seu peso no teatro, na dramaturgia, nas artes cénicas em Moçambique. O outro homem, com o qual está reunida, fala de números, muitos números, enquanto ela observa e acena, afirmativamente, com a cabeça. “Que senhora!”, titubeei comigo mesmo, enquanto tento evitar escutar a conversa alheia. “Não é bom. Por isso, estou aqui a dormir”, disse-me a assistente, quando questionei porque estava tão cabisbaixa. Na sala maior, do rés-do-chão, há uma longa e reluzente homenagem ao poeta-mor, José Craveirinha. Dezenas de quadros em acrílico ocupam as paredes. Há poesia. Muita poesia pintada. De amor, de combate, de pena. Tudo o que ele pensava parecia estar agora exposto, ali, naquele espaço. A vida dela também. A vida, os 79 anos. E os mais de 50 de teatro traduzidos em cadeiras, mesas, quadros, esculturas, projectos em papéis, livros, uma cascata de pensamentos profundos, melancólicos e felizes.
É que, mais do que uma escola, o Centro Cultural Sabura é um espaço de cultura a partir de “elementos da natureza”, cruzando teatro com arte artesanal, com uma colecção de obras pessoais colectadas durante anos, dando ao espaço uma identidade singular. É um lugar que engloba várias actividades que estão ligadas ao teatro, artes performativas e formação.
Ela, agora, observa-me e dá por encerrada a reunião. Na verdade, ela já estava à minha espera no momento da minha chegada. Sorriu, feito criança, e objectou: “desculpas, já não te reconhecia”. Faz muito tempo, respondi, também tímido, puxando a cadeira. Inclinou os ombros, como se estivesse a vir ao meu encontro, para me segredar alguma coisa. Tendo estado um pouco doente, como descobri depois, ela não podia se emocionar muito, mas ela não se importa. “O que queres saber?”, perguntou, com aquele tom cansado, mas que ainda ressoa vigor.
Contive a respiração enquanto ligava o gravador. Manuela Soeiro sempre foi um assunto de imenso interesse nos midia dentro do teatro, e mais ainda porque a sua atitude como activista política, nos casos de Eduardo Mondlane, Samora Machel, Siba-Siba Macuácua e Carlos Cardoso – através da peça “Um Inimigo do Povo” – produzia, diante de tanta indiferença social, tantos aplausos.
Tive, então, de ir devagar, começando pelo fim, sempre a puxar a memória através de perguntas de insistência. O seu estado emocional e de saúde dificultaram o processo, mas não imperaram.
Porquê Sabura?
Durante a nossa infância, as nossas mães sempre têm alguém que lhes ajude a cuidar de nós. E a minha babá chamava-se Sabura, de lá da Ilha do Ibo. Ela é que me criou e cuidou de mim durante a infância. Então, em homenagem, dei o nome dela, para lembrar-me dela pelo resto da vida.
Seria o concretizar de um sonho…
Diria que sim. Eu quase dei esse nome a minha filha, hoje Kwacha, que quer dizer aurora na língua de Tete. Não dei o de Sabura por imperativos diversos, na família.
79 anos de vida e ainda sonha gigante. Porquê uma escola, um museu de teatro?
Quando comecei a fazer teatro, mesmo nos tempos do Avenida, queria fazer uma escola. Em 1982, comprei este terreno, no Conselho Municipal da Cidade de Maputo, para fazer um centro cultural. Um centro que englobasse tudo, porque no teatro a dinâmica do tempo era outra. Na altura, poderíamos actuar em qualquer espaço, debaixo de árvores, nas ruas…
Depois senti a necessidade de repensar e avançar com a ideia de construir uma escola de teatro. Também porque no Teatro Avenida ficava complicado. Aqui seria para fazer outro tipo de eventos que não cabiam no Avenida.
Mia Couto chama-lhe de “Mãe” do teatro moçambicano e alguns de tantos outros nomes. Como define esse percurso no teatro?
Às vezes, digo as pessoas que me chamam de mãe que «olha lá eu não conheço o seu pai». Em jeito de brincadeiras, rimo-nos sempre disso. Mas sinto que é com ternura que as pessoas me chamam, já que me atirava de cabeça para os trabalhos que fazia. Quando entro num projecto, qualquer que seja, entro inteira. Não há espaço para mais nada além do que acho necessário contribuir para o desenvolvimento daquela actividade.
Desde criança sempre acreditei naquilo que faço. Sinto que sou capaz. Então, daí, pronto: tenho que aceitar… Não posso negar esse nome de «mãe».
“…valorizo muito a política de trabalhos manuais nas escolas. Mas cortaram. Foi um crime, posso dizer, é um crime porque, enquanto crianças, queremos aprender tudo, fazer tudo. Isso hoje faz muita falta”.
Como o teatro, “hobby” na altura em que era professora de Educação Física, se tornou o seu cavalo de batalha?
Tirei, de facto, o curso de Educação Física e, como professora, aprendi que o desporto tem a ver com a vida, com a utilização do corpo. Não podemos ignorar a influência do meu pai, quando vivíamos ainda na Ilha do Ibo. Ele cantava, fazia teatro, dizia poesia, escrevia poemas em línguas locais de Cabo Delgado. Era cristão e falava Emacua, Chimakonde e Kimwani. Era uma pessoa que tinha muita vontade de fazer coisas. Então, para mim, ele era um ídolo.
Então, abandonou as aulas…
Bom, antes disso, quando o meu pai perdeu a vida eu tinha 5/6 anos. Toda aquela vivência que tive com ele fez-me crescer muito rápido. Erámos seis irmãos, numa família com muito poucas posses. Lembro-me que, por causa disso, uma das tias pediu à minha mãe para vir viver com ela aqui, em Lourenço Marques, para diminuir a despesa. Mas chegado aqui, fui viver com outro irmão da minha mãe, enfermeiro, cuja esposa não concebia.
Por ela ser filha de um régulo de Gaza, a minha vida foi feita em meio a várias culturas. Comecei a aprender tudo o que era dança, jogos tradicionais, quer lá, em Cabo Delgado, quer aqui, em Lourenço Marques. Foi assim que eu entro para esse mundo cultural.
…e foi crescendo.
Sim, depois fui estudar num colégio interno em Namaacha. Havia ali muita actividade que me serve até hoje. Fazíamos trabalhos manuais que hoje, já quase 80 anos, aplico sem dificuldades. Tudo porque aprendi quando era criança. Por isso, valorizo muito a política de trabalhos manuais nas escolas. Mas cortaram. Foi um crime, posso dizer, é um crime porque, enquanto crianças, queremos aprender tudo, fazer tudo. Isso hoje faz muita falta. Tem gente que vê coisas que não sabe que elas próprias podem fazer porque sempre as vê feitas.
Como conseguiu ter o Teatro Avenida?
O Teatro Avenida estava abandonado. Foi na altura das nacionalizações. Aquilo tinha água por todos os lados. Então, o Ministro da Cultura, na altura Luís Bernardo Honwana, propôs-me que ficasse com o lugar, também porque submetia sempre cartas a pedir autorização para espectáculos. Na altura, os teatros pertenciam ao Ministério da Informação, mas também ao Ministério da Cultura.
Conforme pedido, mandei, para os dois ministérios, uma proposta de tornar o Teatro Avenida um centro cultural para diversas actividades de teatro, música, poesia, dança, e cuidar dele.
E cuidou até hoje…
Sim, porque tinha a necessidade de segurar aquele espaço. Sentia que era capaz. Fazia e não ficava na expectativa de acordar e ter tudo diferente. Tenho convicções muito fortes sobre aquilo que quero.
E as aulas de Educação Física?
Abandonei. Aconteceu muito rápido (risos). Quando comecei o teatro, em 1975, entrei em diversos grupos polivalentes, dinamizadores, nos bairros e nas fábricas. De forma empírica, sem ter livros nem nada, montávamos histórias do quotidiano. Começamos a ser a voz do povo, e, sem me aperceber, já estava distante da escola.
Sem um roteiro definido, mergulhámos depois no teatro moçambicano.
Qual é o estágio actual do teatro em Moçambique?
Penso que o teatro teve um desenvolvimento muito forte. Quando comecei, assim num teatro mais organizado e já adulta, fui chamada para fazer produção de um brasileiro chamado Martin Lutero. Foi lá onde me atirei de cabeça porque era a coisa que eu mais queria, e ter a possibilidade de trabalhar exclusivamente no teatro, conhecendo as formas, as actividades e todas as áreas, era incrível. O teatro tem elementos como a cenografia, o guarda-roupa, a produção, a luz, que a gente explora quando tem vontade. Aprendi muitas actividades, quase sem ir à escola. E isso faz com que a gente desenvolva.
“Agora quero saber: quando me dizem que querem dividir o país, vão-me cortar ao meio? Vou ter dupla nacionalidade no meu país? Eu quero saber quem deu essa ideia, porque devia ser exposta para saber o valor que um país tem na vida de alguém”.
O que tem a dizer sobre a peça ‘’Nove Hora’’?
Foi a primeira peça que montei, já profissional. Foi por volta da década de 80. Foi “Nove Hora” que abriu, de facto, o Mutumbela Gogo, embora tivéssemos feito outras peças. Era um poema de Rui Nogar sobre um tempo que eu vivi, no subúrbio da Malanga. Foi onde víamos os magaissas, todas aquelas personagens do poema.
Lembro-me que quando contei ao Rui Nogar que queria fazer uma peça, mas sem muitas ideias ainda, disse-me que tinha um poema que podia fazer um musical. Ofereceu-me “Nove Horas” para trabalhar. Quando montei, convidei-o para falar sobre o poema e assistir à peça. Ele e o Malangatana não queriam ver o resultado final, por medo.
Mas quando a peça acabou, o Rui tinha as costas completamente transpiradas. Veio ter comigo e perguntou: tu conheceste a protagonista Rosalina? Eu disse não, mas vivi aquele tempo, lá no subúrbio. Eram as nossas vidas. Daí ter sido tão forte. Ficamos em cena durante um ano, sempre com a sala cheia, às sextas, sábados e domingos.
O que mais lhe marcou durante este percurso?
O nosso trabalho era muito de intervenção social. Nós contribuímos, de certo modo, para aquela altura. Por exemplo, nos Acordos Gerais da Paz fizemos outras peças, nos problemas de saúde, em tudo. Tínhamos sempre intervenção social. E ainda hoje as nossas peças sempre têm um ponto a tratar.
A sua carreira foi marcada também por activismo político. Fale-nos dessa aventura.
Curiosamente, trabalhei muito com Marcelo Mosse. Na morte de Carlos Cardoso, criámos um espaço que todos os anos, no dia 22 de Novembro, fazemos uma cerimónia. Cuidamos daquele local, criamos cartazes e promovemos actividades todos os anos. E há uma coisa muito interessante nisso: os chapas, que por ali sempre passam, nesse dia param e trazem flores para o memorial de Carlos Cardoso.
Outro momento que me marcou bastante foi aquando da morte de Siba-Siba Macuácua. Como aconteceu em frente ao Teatro Avenida, mobilizamo-nos e decidimos que iriamos homenageá-lo com um banco. Avisou-se a população e, logo, aconteceu o interessante: as pessoas foram abrir contas no banco em frente ao “Avenida”. Mas a homenagem era de um banco de sentar, o qual as pessoas usavam nos momentos de espera das peças, ali no teatro.
Mas não foi só na política. Lembro-me que quando fizemos a peça “Sexo? Sim, Obrigado! ou a Arte de Ganguissar”, quebramos o tabu em todos os níveis. Era uma adaptação de uma peça italiana e o resultado foi incrível, sobretudo por parte das mulheres. De tanto gostarem, de tanto quebrar o paradigma do tabu, compramos livros sobre educação sexual para vender em frente ao Avenida.
Os professores das escolas de Maputo agradeceram-nos muito por conseguirmos tirar-lhes o peso de explicar o tema em contexto de sala de aulas. Os alunos também sentiam que podiam falar livremente sobre o tema. Esses são alguns momentos de glória.
79 anos de vida. 50 anos de carreira. Como se define, em termos de valores?
Não há dúvida de que a minha carreira foi difícil. Fiz a minha carreira com os meus dois filhos nos braços, às vezes a dormirem nos bancos do Avenida. Já pedi desculpas publicamente por lhes ter torturado e ter feito da sua infância menos prazerosa. Mas era o que eu era. Identificava-me com o teatro, mas sobretudo identificava-me como moçambicana, como parte deste país.
As minhas raízes jazem no norte e no sul deste Moçambique. Agora quero saber: quando me dizem que querem dividir o país, vão-me cortar ao meio? Vou ter dupla nacionalidade no meu país? Eu quero saber quem deu essa ideia, porque devia ser exposta para saber o valor que um país tem na vida de alguém. Quando vou para Niassa, Gaza, Beira (Sofala), Manica, todas essas províncias, sinto-me em casa, por que estou no meu país. Agora querem cortá-lo? Esquartejá-lo? O que é isso? Isso é crime. Sacrilégio!!! Desculpas, tive de aproveitar este encontro para dizer aquilo que sinto.

