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14 de August, 2026

Qualidade da fortificação de alimentos e falta de dados continuam a desafiar combate à desnutrição em Moçambique

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Moçambique registou avanços na fortificação de alimentos de consumo massivo, mas continua a enfrentar desafios relacionados com a qualidade dos micronutrientes adicionados, o cumprimento das normas e a utilização de dados para orientar decisões. O diagnóstico foi apresentado durante o “Workshop sobre a Definição de Prioridades em Matéria de Dados Relativos à Fortificação Alimentar em Moçambique”, que reuniu representantes do Governo, da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), indústria e parceiros de cooperação.

O encontro decorreu na sequência do “Diálogo Regional Africano sobre Dados para a Acção em Fortificação de Alimentos”, realizado em Addis Abeba, Etiópia, em 2025, e pretende fortalecer os mecanismos nacionais de recolha, monitoria e utilização de informação para melhorar o Programa Nacional de Fortificação de Alimentos.

A Coordenadora Nacional da Fortificação de Alimentos, Eduarda Mungoi, explicou que o objectivo do “workshop” era demonstrar que o sucesso do programa não depende apenas da fortificação dos alimentos, mas também da quantidade adequada de vitaminas e minerais adicionados. “Não basta fortificar, é preciso fortificar nos níveis em que a fortificação vai trazer impacto e reduzir as deficiências de micronutrientes na população”, afirmou.

Segundo Mungoi, estudos realizados anteriormente sobre farinha, óleo alimentar, açúcar e sal revelaram que, embora a fortificação esteja a ser implementada, alguns produtos apresentam níveis de micronutrientes inferiores aos parâmetros recomendados, o que limita os efeitos esperados na saúde pública.

A Coordenadora referiu que o país apresenta carências significativas de ferro, vitamina A e ácido fólico, nutrientes cuja deficiência está associada a problemas como anemia, atraso no desenvolvimento infantil e outras complicações de saúde.

Actualmente, Moçambique apresenta um nível de cumprimento da fortificação estimado entre 60% e 70%, mas a coordenadora considera indispensável reforçar a fiscalização, a monitoria permanente e o cumprimento rigoroso das normas por parte da indústria. “Não importa apenas adicionar micronutrientes. É necessário fazê-lo nas quantidades capazes de produzir mudanças reais”, defendeu.

Entre os produtos abrangidos pela fortificação obrigatória destacam-se a farinha de trigo, utilizada na produção de pão e bolachas, o óleo alimentar, o açúcar e o sal iodado.

Dados são importantes para orientar políticas

O responsável pela Nutrição na Unidade de Desenvolvimento Social e Humano da SADC, Raymond Chikomba, destacou que a organização criou, em 2023, um mecanismo regional de coordenação para harmonizar as políticas de fortificação alimentar nos países-membros.

Segundo explicou, o plano regional foi elaborado em conjunto com os Estados da região e coloca a gestão de dados como uma das principais prioridades. Chikomba recordou que cerca de 34% das crianças da África Austral continuam afectadas por deficiências de micronutrientes e que aproximadamente 34% das mulheres em idade reprodutiva sofrem de anemia, realidade que demonstra a necessidade de reforçar intervenções de elevado impacto e baixo custo, como a fortificação alimentar.

“O primeiro passo é conhecer o problema. Precisamos de saber quais são as deficiências existentes, quem recolhe os dados, onde estão armazenados e como podem ser utilizados para orientar decisões”, afirmou.

O responsável acrescentou que Moçambique já fortifica cinco alimentos de consumo massivo, um desempenho que considera superior ao de vários países da região e que reflecte o compromisso do Governo com o combate à desnutrição.

UNICEF alerta para desafios na qualidade dos alimentos fortificados

A Chefe de Saúde e Nutrição da UNICEF, em Moçambique, Maaike Arts, reconheceu os progressos alcançados pelo país, referindo que uma elevada proporção dos principais alimentos consumidos pelos moçambicanos, incluindo açúcar, sal, farinhas de trigo e milho e óleo alimentar, já é fortificada.

Contudo, advertiu que os dados disponíveis também evidenciam problemas relacionados com a qualidade da fortificação e com o cumprimento dos padrões estabelecidos. “Os dados mostram que o acesso aos alimentos fortificados, por si só, não garante o impacto nutricional desejado”, afirmou.

Segundo Arts, outro desafio prende-se com a inexistência de um sistema nacional que concentre todas as informações relativas à fortificação alimentar, dificultando a monitoria e a tomada de decisões.

Para a representante do UNICEF, dados de qualidade são fundamentais para identificar lacunas, orientar investimentos, melhorar a coordenação institucional e medir os resultados das intervenções.

Governo destaca produção superior a 13 milhões de toneladas

Durante o encontro, a secretária de Estado da Indústria, Custódia Paúnde, defendeu que a fortificação alimentar continua a ser uma das estratégias mais custo-efectivas para prevenir a deficiência de micronutrientes nos países de baixa renda.

A governante revelou que, de acordo com o balanço de 2025, Moçambique produziu mais de 13 milhões de toneladas métricas de alimentos fortificados, incluindo farinha de milho, farinha de trigo, açúcar, óleo alimentar e sal iodado.

Segundo Paúnde, os resultados demonstram a capacidade crescente da indústria nacional para produzir alimentos fortificados e reduzir a dependência de importações. A responsável defendeu ainda a adopção de sistemas digitais de gestão de dados, capazes de melhorar a coordenação entre instituições nacionais e regionais, reforçar a monitoria do programa e apoiar o combate à desnutrição crónica.

O Governo apelou ao reforço da colaboração entre Estado, sector privado, sociedade civil, comunidade científica e parceiros de cooperação para consolidar os avanços já alcançados e reduzir os índices de deficiência de micronutrientes na população moçambicana.

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