Cidadãos retidos no Terminal Interprovincial da Junta, na Cidade de Maputo, na sequência do corte na Estrada Nacional N.º 1, devido ao transbordo do Rio Incomáti – o que obrigou a interrupção da circulação rodoviária –, relatam momentos de grande incerteza, para além de enfrentar sérias dificuldades logísticas.
Em conversa com “Carta”, os passageiros, alguns dos quais se encontram no local há mais de uma semana, pedem assistência urgente por parte do Governo, alegando não dispor de recursos financeiros para satisfazer sequer as necessidades básicas.
Maria Zamile está retida no Terminal da Junta desde a passada quinta-feira, 22 de Janeiro. Conta que pretendia viajar para a província de Nampula, sua terra natal, mas acabou impedida de prosseguir devido ao corte da estrada. Sem meios de subsistência, relata viver momentos difíceis. “Vim a Maputo a trabalho e vivo na casa dos meus patrões. No princípio do mês pedi férias para visitar a minha família em Nampula, mas, no meio da viagem, fomos surpreendidos com o corte da estrada e obrigados a regressar. Pensei que seria por um ou dois dias, mas os poucos recursos que juntei estão a acabar”, contou.
Zamile afirma ainda que tentou regressar ao trabalho, mas a patroa informou que já havia colocado outra pessoa para a substituir temporariamente, não havendo espaço para acolhê-la novamente, obrigando-a a aguardar até ao fim do mês. “Estou a sofrer muito. Não tenho família em Maputo e já não tenho dinheiro. Dormimos dentro dos carros e vivemos na incerteza do amanhã. Aqui tudo se paga, até para usar a casa de banho”, lamentou, acrescentando que teme perder definitivamente o emprego.
Outro passageiro, identificado como Faruque Samudini, contou que decidiu regressar à cidade da Beira após não ter conseguido melhorar as suas condições de vida, em Maputo. “Eu vivia em Maputo desde Fevereiro do ano passado e vim à procura de trabalho. Arrendei um quarto na Malanga e vendia bolinhos e ovos como ambulante, mas ganhava muito pouco. Quando as oportunidades falharam, decidi voltar à Beira”, explicou.
Surpreendido pelo corte da EN1, Faruque afirma viver dias de grande dificuldade. Sem dinheiro, conta que depende do pouco apoio que a família lhe envia, alimentando-se, na maioria das vezes, apenas de pão ou bolachas.
O cenário no maior Terminal Interprovincial da capital do país é descrito como angustiante, com homens, mulheres e crianças à espera de uma oportunidade para retomar as suas viagens, no entanto, sem previsão clara de quando isso será possível.
Laura Cabral, mãe de duas meninas, está no local há mais de duas semanas. Ela conta que veio a Maputo para passar as festas de fim de ano a convite de sua tia, sem imaginar que seria atingida pela tragédia das cheias. Ficou hospedada na casa tia, no bairro do Fomento, na autarquia da Matola, porém, a anfitriã regressou à África do Sul, deixando a residência fechada.
Sem avançar muitos detalhes, um responsável da comissão dos transportadores da Junta confirmou que vários passageiros têm passado noites no terminal por não terem familiares que os possam acolher. Acrescentou que os transportadores estão a acumular prejuízos significativos, devido à paralisação das viagens.
O Governo estima que a circulação de viaturas na EN1 possa ser restabelecida em 15 dias. “No máximo, em duas semanas vamos restabelecer a ligação na EN1. Mesmo quando as águas subiam, o empreiteiro já se encontrava no local, pronto para descarregar brita e outros materiais necessários para a reposição da estrada o mais rapidamente possível”, assegurou o Chefe do Estado, durante a abertura da reunião do Conselho de Ministros, que teve lugar, esta semana, em Xai-Xai, na província de Gaza. (Marta Afonso)





