Dois episódios recentes envolvendo menores em Maputo levantam preocupações sobre a pressão escolar e o ambiente educativo no país. Nesta terça-feira, foi a enterrar, no Cemitério da Texlom, um estudante da 8ª classe da Escola Secundária da Liberdade (salas anexas da EPC 4 de Outubro), residente na rua 2 da Unidade H.
Informações apuradas pela “Carta” dão conta de que o menor, que apresentava baixo aproveitamento pedagógico, terá colocado termo à vida, após ser repreendido pela mãe. O caso aconteceu depois de uma reunião de pais e encarregados de educação, onde o director de turma informou sobre o fraco desempenho escolar do aluno.
Num outro caso, registado na Escola Básica 25 de Junho, também em Maputo, uma aluna da 4ª classe foi apanhada com uma faca de cozinha, que, segundo confessou, pretendia usar para atacar a professora.
De acordo com informações recolhidas, o episódio começou quando a professora impediu a menor de sair para o intervalo por não ter feito os trabalhos de casa.
Em retaliação, a criança terá prometido matar a professora. Na sexta-feira da semana passada, levou uma faca escondida, mas colegas denunciaram a situação a tempo de evitar uma tragédia.
A direcção da escola interrogou a aluna, que confirmou a intenção de cometer o acto e foi encaminhada para psicólogos.
Psicólogo diz que repreensão foi gatilho
Por outro lado, “Carta” conversou com o psicólogo Bernardo Maholela, que afirmou que a repreensão da mãe não foi, por si só, a causa do suicídio do aluno da 8ª classe, mas funcionou como um gatilho num quadro já consolidado de sofrimento psicológico.
Segundo Maholela, o jovem já estaria “saturado” de situações dolorosas e a chamada de atenção apenas precipitou um desfecho que vinha a ser projectado há muito tempo.
O especialista explicou que a repreensão “serviu apenas como um empurrão” para o acto, mas que a razão profunda foi a depressão e a percepção de não ser amado ou acarinhado pela família. “Ele nunca se sentiu amado ou acarinhado pela família. Por isso acabou por ter esse tipo de atitude. Como quem diz: se ninguém olha por mim, mais vale eu não existir”, afirmou Maholela, citando o raciocínio que terá passado pela cabeça do menor.
O psicólogo sublinhou ainda que o comportamento suicida já estava planeado anteriormente e que o episódio da repreensão apenas concretizou essa decisão: “Este já tinha projectado isto há muito tempo e não no dia em que foi repreendido; naquele dia só concretizou”.
Sobre o caso da aluna da 4ª classe que levou uma faca para a escola com intenção de atacar uma professora, Maholela recomendou intervenção psicológica imediata. “A família deve levá-la a conversar com um profissional para perceber o que está a acontecer com ela. Pode tratar-se de uma reacção a uma dor interior, com psicólogos é possível perceber e intervir adequadamente”, declarou.
Aquele especialista destacou a necessidade de maior atenção aos sinais de sofrimento em crianças e jovens, bem como a urgência de políticas e serviços de saúde mental integrados às escolas e às comunidades para prevenção e intervenção precoce.





