O sol já espreitava quando na Escola Básica 25 de Junho, nalgumas turmas decorriam as aulas matinais enquanto os outros alunos faziam a limpeza do quintal naquele que era o penúltimo dia escolar. As crianças, com o uniforme preto e branco, caminhavam pelo passeio, pastas às costas, algumas com riso solto conversando ao pé do tanque preto, outras aparentemente cansadas. Mas quando a agitação do dia parece acalmar, o recinto se transforma. A ausência da vedação, uma cerca de arame que há muito caiu, abre as portas da escola para outra realidade, rapazes que chegam de fora, grupos de adolescentes que chegam não com cadernos, mas com garrafas nos bolsos, e jovens que fazem do pátio abandonado um ponto de encontros íntimos.
“Às vezes nem parece uma escola, parece um bar a céu aberto”, desabafa uma vendedeira que tem a sua banca a poucos metros da entrada.
As salas trocadas pela rua
No início, parecia apenas uma moda de adolescentes, fugir de uma ou duas aulas. Mas os relatos mostram que a prática se tornou rotina. Em vez de permanecerem nas carteiras, que, também são insuficientes, muitos jovens preferem atravessar a rua e ficar nas barracas vizinhas. Ali, o uniforme não é disfarce nem impedimento, o álcool é vendido sem medo.
“Costumamos ver os alunos uniformizados, durante as tardes, ainda com as pastas, a consumir bebidas das garrafinhas. Quando nos vêem, nem ficam intimidados. Recentemente vi dois a beberem e fui informar a escola de modo a alertá-los das consequências que poderiam advir após o acto. Estavam embriagados”, conta Angélica Flora, encarregada de educação e vizinha da escola.
A bebida, para muitos, substitui o lanche escolar. Desde que o programa de refeições foi interrompido, várias famílias acreditam que os alunos perderam a motivação para estar presentes nas aulas. “Antes, o prato de comida era uma razão para virem. Agora, trocam a sala por uma garrafa”, lamenta uma anciã vendedeira que pediu anonimato.
A professora agredida
Mas o episódio que mais abalou a comunidade aconteceu dentro de uma sala, há menos de dois meses.
Era um dia comum quando uma professora dava aula. De repente, um rapaz, que nem aluno da escola era, entrou e, sem razão aparente, puxou o lenço da professora. Surpreendida, ela virou-se para repreendê-lo. Foi então que o agressor desferiu-lhe uma rasteira. O silêncio tomou conta da turma entre olhares incrédulos dos alunos.
“A professora levantou-se, mas o rapaz já tinha fugido da sala”, lembra uma das alunas da turma, que acompanhou o caso de perto.
O jovem foi identificado e se soube que estudava numa escola secundária da região. Foi levado à esquadra e o assunto foi encerrado, mas o medo ainda paira no seio dos alunos e professores.
“Desde aquele dia, os professores vivem em alerta. É como se tivéssemos perdido a autoridade. E se acontecer de novo?”, questiona o professor.
Fonte interna reconhece os problemas, mas insiste que faz o que pode. O guarda foi instruído a não deixar ninguém permanecer no recinto depois das aulas e passa de sala em sala para sensibilizar os alunos. “Eu falo com os alunos como mãe, mas estou ciente de que a educação não começa aqui, começa em casa”, diz uma funcionária.
Ainda assim, os limites da escola terminam nos portões. Do lado de fora, é a comunidade que testemunha o descontrolo dos adolescentes uniformizados a beber, a se agredirem e até a envolverem-se em encontros íntimos.
As barracas no banco dos réus
O dedo acusador da comunidade aponta para as barracas que circundam a escola. É lá onde se vende a bebida, é lá onde os jovens encontram o escape. “Não é justo. A dona da barraca sabe que está a vender a menores. Mas ela quer dinheiro. E quem paga o preço somos nós, os pais, que vemos os nossos filhos perderem o futuro ainda na primeira escola que é esta primária”, acrescenta Flora.
Moradores pedem uma solução simples, que as barracas deixem de vender álcool a menores. “Podem continuar abertas, mas não podem vender bebidas. O aluno sai da sala, atravessa a rua, compra uma garrafa, bebe e volta como se nada fosse. Isso não é lanche, isso é veneno”, diz uma mãe.
Os alunos falam
Entre os alunos, há também quem reconheça o problema. Alguns admitem já ter visto colegas alcoolizados, incapazes de assistir às aulas. Outros falam de confusões que nascem no efeito do álcool. “Nós sabemos que está errado, mas não temos o que fazer”, admite uma aluna.
Informações avançadas fazem saber que a Escola Básica 25 de Junho tenta manter-se de pé, e está neste momento com cartas enviadas a parceiros a pedir carteiras, pedindo apoio ao Serviço Distrital e promovendo reuniões de turma com vista a sensibilizar os alunos. Mas, enquanto isso, a vedação continua caída, a escola continua aberta para tudo o que vem de fora e com carteiras deficientes





