O texto de António Matos tenta justificar o uso de tratores para transporte de pessoas como uma solução criativa e digna para os distritos moçambicanos.
Mas o que ali se apresenta com aparência técnica é, na verdade, um discurso perigoso de normalização da precariedade e do abandono institucional.
1. Trator não é transporte público
Não importa o quanto se romantize a ideia: tratores são equipamentos agrícolas, não veículos de passageiros. Adaptá-los para transportar pessoas é aceitar, sem vergonha, que os cidadãos das zonas rurais não têm direito à mesma qualidade de serviços que os das cidades. Isso não é criatividade — é desigualdade institucionalizada.
2. Não se pode chamar de política o que é, na essência, abandono
Apresentar os tratores como “solução comunitária” ou “resposta transitória” dissimula o essencial: o Estado abandonou os distritos à própria sorte. Em vez de investir em estradas, operadores locais e transporte público digno, o governo decide oficializar o improviso como modelo de governação. Isso é regressivo, tecnicamente indefensável e socialmente inaceitável.
3. Dignidade não se mede pela adaptação ao abandono
Dizer que “dignidade não é andar num veículo bonito” é retórica cínica. Dignidade é ter acesso a transporte seguro, regulado, confortável e confiável. Substituir esse direito por uma carroçaria improvisada num trator é tratar comunidades inteiras como cidadãos de segunda classe.
4. Custo baixo? Risco alto. E lucro escondido.
O argumento do “baixo custo” ignora os custos reais: acidentes, falta de seguro, ausência de fiscalização, exploração informal e desvalorização da vida rural. E mais grave: quem está a vender esses tratores? Quem está a lucrar com a compra em massa destes equipamentos, apresentados como solução milagrosa?
É difícil não suspeitar de que alguém da nomenclatura está a transformar a necessidade do povo em oportunidade de negócio. Por trás do discurso de solidariedade com as zonas remotas, pode muito bem estar um esquema de acumulação privada por via de contratos públicos opacos e não fiscalizados.
5. Romantizar o improviso é perpetuar a miséria
A criatividade das comunidades deve ser reconhecida — mas não pode ser institucionalizada como política de Estado. O papel do governo não é regulamentar o improviso — é eliminar a necessidade dele. Quando o Estado aplaude a adaptação forçada dos pobres, está apenas reembalando o abandono como resiliência popular.
6. Não se trata de contexto — trata-se de prioridades políticas
O problema não é o trator. O problema é ter recursos para V8 nas capitais, voos em classe executiva, escoltas ministeriais de luxo, mas negar transporte digno aos distritos. A decisão de comprar tratores para transportar pessoas não é técnica — é ideológica, elitista e profundamente desigual.
Conclusão
Aceitar tratores como solução de transporte é desistir de governar com justiça. É o Estado a declarar — sem dizer em voz alta — que não tem plano, nem vontade, nem respeito pelas populações que vivem longe da capital.
Não há glória em transformar um trator agrícola em ambulância ou autocarro escolar.
Há, sim, um fracasso de planificação, uma recusa deliberada em investir onde vive a maioria pobre deste país, e uma estratégia de normalização do abandono, com lucros garantidos para quem está por trás do negócio.
Tratores não são política pública — são o símbolo brutal da cumplicidade entre indiferença e interesse privado. Aceitar isso como normal é legitimar a exclusão. Aplaudir isso é cumplicidade com a indignidade.
Porque quem anda de trator hoje, é quem o Estado abandonou ontem! é o retrato da exclusão!
*Adriano Nuvunga é Director do Centro para a Democracia e Direitos Humanos





