Instalou-se uma tensão laboral na vila municipal de Quissico, no distrito de Zavala, sul da província de Inhambane, onde os 99 trabalhadores do Conselho Municipal local paralisaram totalmente as actividades, em protesto contra quatro meses consecutivos de salários em atraso, incluindo o décimo terceiro.
Relatos colhidos junto dos funcionários indicam que a situação se arrasta desde Dezembro do ano passado, período a partir do qual deixaram de receber os seus vencimentos. “Estamos há quatro meses sem salário. Desde Dezembro não recebemos nada, incluindo o décimo terceiro”, lamentaram as “vítimas”, em conversa com a “Carta de Moçambique”, descrevendo um cenário de crescente desespero.
Os trabalhadores esclarecem, no entanto, que o problema não resulta directamente da gestão do Conselho Municipal, mas sim da falta de desembolsos, por parte do Governo, das verbas referentes ao Fundo de Compensação Autárquica (FCA), mecanismo financeiro pelo qual as autarquias pagam salários aos seus funcionários.
Segundo os funcionários, os últimos desembolsos destes fundos ocorreram em Agosto de 2025, tendo a edilidade recorrido a receitas locais para garantir o pagamento de salários até Novembro. Desde então, a situação tornou-se insustentável.
“De Agosto para cá não há desembolso do Fundo de Compensação Autárquica, nem do Fundo de Estradas ou de Investimento. O Conselho Municipal fez o possível até Novembro, mas neste momento não há condições”, explicaram.
A crise já está a ter impactos severos na vida dos trabalhadores e das suas famílias. Muitos afirmam sobreviver com ajuda de familiares e amigos, acumulando dívidas sem previsão de pagamento. “Estamos a viver praticamente a mendigar. Temos filhos na escola, precisamos de cadernos, lápis. Temos recorrido a empréstimos familiares. Mas já não está fácil pedir sempre às mesmas pessoas”, relataram, acrescentando que enfrentam também encargos bancários agravados por juros de mora.
Apesar da paralisação das actividades iniciada há dois dias, os funcionários continuam a deslocar-se aos seus postos de trabalho, embora sem exercer funções. Isto é, os serviços municipais, que são prestados entre as 7h30m e as 15h30m, estão interrompidos, com portas encerradas desde terça-feira.
Aliás, funcionários com mais de uma década de serviço afirmam que esta é a primeira vez que enfrentam uma crise desta magnitude. “Estou aqui desde 2014 e nunca vivemos algo assim. Já tivemos atrasos de um ou dois meses, mas quatro meses é a primeira vez”, disse uma trabalhadora.
À “Carta”, o Presidente do Conselho Municipal da Vila de Quissico, Abílio Paulo, confirmou a gravidade da situação, reconhecendo o desgaste enfrentado pelos trabalhadores e os impactos na arrecadação de receitas municipais. “Na qualidade de dirigente, sinto-me desconfortável com esta situação. Já vamos dois dias com actividades paradas e isso também implica perdas de receitas”, afirmou.
O Edil garantiu que o caso já foi comunicado às entidades competentes e manifestou expectativa de que haja uma resposta nos próximos dias. “Quem de direito já tem conhecimento do assunto e há esperança de que haja desembolsos dentro de dois dias”, disse.
Entretanto, a indisponibilidade de recursos continua a ser a principal justificação para o incumprimento salarial, numa altura em que os trabalhadores exigem uma intervenção urgente do Governo para normalizar a situação e evitar o agravamento da crise social no município.





