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26 de January, 2026

Rosita (2000-2026): parto comovente, viagens pelo mundo e morte na auto-reclusão

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Quando Moçambique acordou, a 12 de Janeiro, com a notícia do falecimento de Rosita Mabuiango, ou simplesmente Rosita, como o país a chamava, rapidamente o discurso público voltou a convocar o símbolo da bebé que nasceu no cimo de uma árvore, durante as cheias de 2000, e resgatada após quatro dias cercada pelas águas do Limpopo.

A recém-nascida acabara de ser transformada num emblema de esperança nacional. Entretanto, pouco se disse sobre a pessoa que Rosita se tornou depois das câmaras, das viagens internacionais e dos discursos oficiais.

Após o seu desaparecimento físico, “Carta” esteve à conversa com uma pessoa próxima da família da célebre estilista Ruth Varela, que acolheu Rosita em Maputo, a pedido do então Presidente da República, Joaquim Chissano. O testemunho revela um lado pouco conhecido da vida da jovem que, ainda em criança, passou de símbolo nacional a adolescente reservada, marcada por expectativas, rupturas e silêncios.

Rosita Mabuiango nasceu a 01 de Março de 2000, em pleno auge das cheias que arrasaram vastas zonas dos vales dos rios Limpopo e Save. A mãe, cercada pelas águas durante quatro dias, sem comer, e com o filho mais velho, Benedito, às costas, deu à luz no topo de uma árvore, imagem que comoveu o país e o mundo.

Aos 13 anos de idade, Rosita foi “adoptada” pela estilista moçambicana Ruth Varela, falecida a 17 de Dezembro último, poucas semanas antes da morte da filha “adoptiva”. A “adopção” contou com o apoio da família e do esposo de Ruth, mas também com o acompanhamento próximo de Telma Chiziane, secretária pessoal da estilista e considerada “terceira mãe”, à época.

Segundo Telma, a vinda de Rosita para Maputo tinha um objectivo claro: dar continuidade aos estudos. Foram feitas várias diligências e cartas a solicitar bolsas de estudo, mas apenas a Escola Secundária da Polana respondeu positivamente.

Rosita ingressou na 8.ª classe e estudou até à 11.ª classe, vivendo com Ruth Varela. “O trabalho da Rosita era apenas estudar. O sonho dos padrinhos era vê-la formada e tornar-se numa figura exemplar na sociedade”, conta Telma.

Reservada e sensível

Descrita como uma jovem reservada, de poucas palavras e pouco social, Rosita não gostava de ser apresentada como “a menina que nasceu na árvore”, narra Telma Chiziane. Em Maputo, levava uma vida discreta. No fim de cada período lectivo, regressava à terra natal, Chibuto, para passar férias com a mãe biológica.

A adolescência, porém, trouxe tensões. Na 11.ª classe, Rosita reprovou. Como “medida disciplinar”, foi-lhe retirada a viagem de férias para Chibuto, sendo obrigada a estudar para recuperar o ano. A decisão não foi bem aceite. Sem informar a “família adoptiva”, Rosita fez as malas e regressou à casa da mãe biológica, relata Telma Chiziane.

Após o período de férias, voltou a Maputo e reiniciou as aulas. Pouco tempo depois, saiu definitivamente da casa dos padrinhos, deixando uma carta de despedida, onde se queixava de “controlo excessivo” dos “pais adoptivos”. A relação com Ruth Varela rompeu-se, a partir daí.

Tempos depois, Carolina, mãe biológica de Rosita, arrendou uma residência no bairro Ferroviário, em Maputo, para que a filha pudesse concluir os estudos, junto com a irmã mais velha, Célia. Ainda assim, a instabilidade académica acabou por limitar as oportunidades da jovem. “A falta de instrução limitou muito o crescimento dela”, afirma Telma.

“Aos 18 anos, partilhou comigo que tinha recebido o valor que lhe tinha sido prometido. Tempos depois, creio que em 2019, convidou-me para a inauguração da sua casa própria em Santa Isabel”, recorda.

A relação com instituições públicas manteve-se intermitente. Ao ver uma fotografia de Rosita no Egipto, Telma entrou em contacto com ela, que explicou estar a estagiar no Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). Foi essa organização que conseguiu uma bolsa de estudos para a Malásia ou Alemanha, posteriormente recusada por Rosita.

Afastamento da “família adoptiva”

A então directora do INGD pediu que Telma Chiziane conversasse com Rosita para que aceitasse a oportunidade. A jovem recusou, justificando que não queria deixar temporariamente a filha e a mãe. Preferia formar-se em Moçambique e permanecer próxima da família.

A notícia da doença de Rosita só chegou a Telma em Dezembro, três dias após o funeral de Ruth Varela. “Soube depois de ligar insistentemente para ela para informar sobre a morte da Ruth. Como não consegui contacto, falei com a secretária da Ruth, que me disse que também tinha tentado telefonar à Rosita. Com mais sorte, Rosita atendeu e disse que não estava bem, passou o telefone à mãe, que explicou que ela estava em Chibuto há algum tempo, tinha recebido alta há três dias, mas não estava bem”, relata.

Telma afirma que nunca foi informada da gravidade do estado de saúde de Rosita e que a notícia da sua morte foi recebida com surpresa. “Acredito que, se soubéssemos, teríamos envidado esforços para reverter a situação. A comunicação com Rosita era muito deficiente, ela era extremamente reservada. A nível governamental, não sei exactamente como o caso foi tratado, mas creio que o desfecho triste resulta da falta de comunicação e coordenação”, declarou.

A entrevistada também critica a forma como parte da imprensa nacional retratou as condições de vida de Rosita, mostrando uma cabana como se fosse a sua residência. “Aquela pequena casa sempre existiu, eu conheço. Mas depois das cheias, foi construída a casa principal onde a família reside. Além disso, Rosita deixou uma casa própria, recentemente construída na Santa Isabel”, narra.

Rosita Mabuiango deixa uma filha de cinco anos, o sonho de ser médica e de trabalhar no INGD, os pais e três irmãos. Morreu por volta das 05:00 da manhã, a caminho do hospital, vítima de anemia.

Apesar de ter sido símbolo de esperança das cheias de 2000, tendo viajado pela Europa e América, a família afirma que Rosita nunca recebeu a devida atenção institucional a longo prazo.

Os pais chegaram a trabalhar no Aparelho do Estado, depois de o Governo interceder nesse sentido, para garantir o sustento da família. Coube ao Município de Chibuto assegurar a assistência fúnebre.

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