Moçambique está em Alerta Vermelho desde a passada sexta-feira, 16 de Janeiro de 2025, decretado pelo Governo em virtude das cheias e inundações que assolam as regiões sul e centro do país desde os princípios do ano. O alerta foi decretado após uma reunião de emergência do Conselho de Ministros, realizada na manhã daquele dia, em Maputo.
Refira-se que desde a manhã do dia 12 de Janeiro que as cidades de Maputo e Matola estão debaixo de água devido às inundações urbanas causadas por chuvas intensas que caem desde a noite do dia 09 de Janeiro, tal como as vilas de Machanga (Sofala) e Nova Mambone (Inhambane) encontram-se inundadas desde o dia 12 de Janeiro, devido ao transbordo do Rio Save.
Enquanto as vilas de Nova Mambone e Machanga faziam as contas dos estragos deixados pelas águas do Save, a vila de Búzi (Sofala) era invadida pelas águas do Rio Búzi no dia 14 de Janeiro e, no dia 16, as cheias atingiam os distritos de Boane, Namaacha, Moamba, Magude e Manhiça, na província de Maputo, e os distritos de Chókwè, Chibuto, Guijá, Massingir e Mapai, na província de Gaza.
Trata-se de uma tragédia que assola o país a cada época chuvosa e que causa destruição de diversas infra-estruturas públicas e privadas, com destaque para casas, escolas, hospitais e estradas, para além de óbitos. Dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) indicam que, até ao dia 16 de Janeiro, 103 pessoas já tinham perdido a vida em todo o país devido aos efeitos da época chuvosa e ciclónica 2025/2026 (iniciada em Outubro), que já afectou 234.052 pessoas e destruiu 15.499 casas, das quais 4.615 na sua totalidade.
Mas, afinal, o que diziam as previsões meteorológicas e hidrológicas?
Tal como em Março de 2019, em que o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) emitiu diversos alertas sobre a chegada de um Ciclone Tropical Intenso (Idai) à província de Sofala, o INAM voltou a emitir avisos e alertas de chuvas intensas, com possibilidade de causar inundações e cheias no país que, mais uma vez, foram ignorados pelas entidades que têm a responsabilidade de evitar a desgraça causada pelos eventos climatéricos.
Já em Setembro de 2025, o país estava informado sobre as condições climatéricas adversas que seriam enfrentadas na Época Chuvosa 2025/2026. Naquele mês, o INAM emitiu uma Previsão Climática Sazonal, na qual antevia a ocorrência de chuvas acima do normal e um risco elevado de inundações e ciclones, com maior probabilidade de precipitação intensa no sul do país (Out-Dez 2025) e abrangência nacional (Jan-Mar 2026), impactando nas áreas da agricultura e infra-estruturas, o que exigia preparação para desastres, especialmente em áreas de risco como a província de Gaza.
Da previsão geral, seguiram-se as previsões diárias detalhadas sobre a situação climatérica do país, já acompanhadas pelos boletins hidrológicos, emitidos pela Direcção Nacional de Gestão dos Recursos Hídricos, a entidade responsável pela gestão das bacias hidrográficas.
Por exemplo, no dia 5 de Janeiro, o gestor das bacias hidrográficas emitiu um alerta, no qual anunciava a previsão de subida do nível hidrométrico nos Rios Maputo, Incomáti, Umbelúzi, Save, Meluli, Monapo, Mecubúri, Megaruma, Montepuez, Ligonha, Messalo, Rovuma e Lúrio. A previsão é que tal acontecesse em 72 horas, pelo que recomendava a tomada das medidas de prevenção face ao aumento do caudal desses rios.
Quatro dias depois, a entidade emitiu um aviso anunciando o risco de inundações nas bacias dos Rios Búzi e Púnguè, na província de Sofala, face às chuvas que se registavam na região. Já no dia seguinte (10 de Janeiro), o Comité Nacional Operativo de Emergência emitiu um comunicado, alertando para a previsão de ocorrência de chuvas fortes, que agravariam a situação das cheias e inundações nas zonas baixas dos Rios Maputo, Umbelúzi, Incomáti, Limpopo e nas bacias costeiras da província de Inhambane.
Ainda no dia 10 de Janeiro, a Administração Regional das Águas do Sul (ARA-Sul) publicou um comunicado especial, anunciando, a partir do dia seguinte, o incremento gradual das descargas nas barragens dos Pequenos Libombos (Rio Umbelúzi), Corumana (Incomáti) e Massingir (Limpopo), prevendo, com isso, inundações na região sul do país.
Avisos e alertas idênticos, comunicando o aumento do caudal das bacias hidrográficas da zona sul e o incremento das descargas nas respetivas barragens, foram emitidos nos dias 11, 12, 13 e 14 de Janeiro, data em que a Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos anunciou o “incremento excessivo do volume de escoamento na Bacia Hidrográfica do Limpopo, podendo superar o alerta em mais de três metros”.
Aliás, foi no dia 14 de Janeiro (uma quarta-feira) que houve registo de abertura de todas as comportas da barragem de Massingir, aumentando o nível das descargas. Sublinhe-se que todos os comunicados eram acompanhados com apelos para a retirada de pessoas e bens nas áreas inundações nas bacias hidrográficas dos rios afectados, alguns de forma reiterada.
Perante as informações partilhadas durante este período, só na sexta-feira é que o Governo se reuniu para avaliar a situação, que culminou com a activação do Alerta Vermelho. Da activação do Alerta até à retirada definitiva dos afectados, o Governo dava apenas duas horas aos cidadãos para deixarem as suas residências. A medida está a ser severamente criticada pela opinião pública, que entende ter havido, novamente, amadorismo na gestão das novas cheias, num país experiente na gestão de desastres naturais.
Aliás, no caso das cheias da bacia do Umbelúzi, o sistema de alerta por SMS do INGD emitiu as mensagens às 14h25m, sendo que o prazo da evacuação era 15h00. Ou seja, os cidadãos deviam abandonar suas casas e bens em apenas 35 minutos, facto que concorreu para a existência de muitas pessoas sitiadas em diversos bairros de Boane.
Situação idêntica verificou-se no processo de retirada das populações residentes nas zonas baixas de Xai-Xai, Marracuene e Manhiça. O INGD emitiu o alerta por SMS às 18h42m deste domingo, tendo como prazo 19h00 do mesmo dia. Isto é, as zonas baixas dos rios Limpopo e Incomáti nestes distritos deviam ser evacuadas em 18 minutos. Em outros cidadãos, as mensagens só entraram às 00h00 de hoje, revelando uma falha grave na disseminação de informação vital.
Ainda são escassas as informações sobre os danos humanos causados pelas cheias na zona sul, porém, sabe-se que pelo menos uma pessoa morreu durante as operações de resgate. Só ontem, mais de uma centena de pessoas foram resgatadas dos telhados das casas e dos cumes das árvores, nos distritos de Chókwè, Guijá e Chibuto, na província de Gaza, numa acção digna de um filme de Hollwood.
Em Boane, as operações do INGD resgataram mais de mil pessoas que estavam sitiadas. As do Rio Limpopo água entraram em Chókwè às 15h00 de sexta-feira, duas horas depois do Conselho de Ministros Extraordinário, e pela madrugada de sábado no distrito Chibuto. Já às águas do Umbeluzi inundaram Boane pela madrugada de sábado.





