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9 de January, 2026

Invasão à Venezuela: oposição dividida quanto ao silêncio do Governo

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A oposição moçambicana está dividida quanto ao silêncio do Governo em relação à invasão da Venezuela pelos Estados Unidos da América (EUA), ocorrida na madrugada do passado )sábado e que culminou com o rapto do Chefe de Estado da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores Maduro.

Enquanto o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) é pela condenação dos actos protagonizados pelo Governo de Donald Trump, o Partido Optimista para o Desenvolvimento de Moçambique (PODEMOS) entende que o silêncio é a melhor opção, visto que o poder político moçambicano enferma dos mesmos problemas apontados pelos EUA à Venezuela. Por sua vez, a Frelimo, que mantém relações de cooperação com o Partido Socialista Unido da Venezuela, no poder, diz que o Governo pode ainda estar a estudar o assunto.

Condenamos o silêncio do Governo – MDM

O MDM, na voz da deputada Judite Macuácua, diz condenar o silêncio do Governo em torno da operação norte-americana. “É preocupante e condenamos o silêncio do Governo”, disse Judite Macuácua, em entrevista à “Carta”.

A porta-voz da bancada parlamentar do MDM afirma que o seu partido mantém a posição manifestada em Fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. “É preciso perceber que cada Estado é soberano, por isso um Estado não pode invadir o outro e, nesses casos, Moçambique sempre agiu da mesma forma, no silêncio”, sublinha.

Segundo Judite Macuácua, ao se manter em silêncio, o Governo pode, por um lado, estar a ser conivente com os actos contrários à defesa da soberania dos povos e, por outro, admitir que actos idênticos ocorram no território moçambicano. “Sempre defendemos o respeito pelo direito internacional, o Governo deve pensar que o que aconteceu com a Venezuela e Ucrânia pode um dia acontecer com Moçambique. Então, quando não nos solidarizamos, estamos a admitir que isto pode acontecer connosco”, atirou, suspeitando que o silêncio pode dever-se às recentes garantias de financiamento feitas pelo Governo de Trump.

“Não sei se o silêncio do Governo se deve aos favores que o país está a receber dos Estados Unidos e tem medo de ofender o patrão que lhe financia”, presume a deputada, fazendo referência ao financiamento de 1.8 mil milhões de USD destinado ao sector da saúde; a garantia de continuidade do Compacto II do Millennium Challenge Corporation; e a garantia de financiamento dos projectos de exploração de gás natural da bacia do Rovuma.

“Não é normal um país manter-se no silêncio diante desta situação. A solidariedade entre os países vale muito, tendo em conta que cada país defende a sua soberania”, defendeu a deputada, para quem independentemente das irregularidades praticadas pelo regime de Nicolás Maduro “é importante respeitar a soberania de um país”.

“Portanto, nós condenamos o silêncio do Governo porque defendemos o respeito ao direito internacional, pois, cada Estado é soberano, pelo que não podemos aplaudir quando um país invade outro e captura o presidente desse país”, finalizou.

Não se vai pronunciar porque reúne condições iguais às da Venezuela – PODEMOS

Por sua vez, o PODEMOS, o maior partido da oposição do xadrez político nacional, considera o silêncio do Governo moçambicano “correcto”, na medida em que o país enferma dos mesmos problemas apontados à Venezuela, sendo que qualquer passo em falso pode colocá-lo na mira do Governo norte-americano.

Segundo o porta-voz da bancada parlamentar do PODEMOS, Ivandro Massingue, condenar a acção dos EUA é colocar-se contra a nação mais poderosa do planeta terra, o que pode ter consequências nefastas para Moçambique. “O Governo não vai apoiar porque sabe que reúne condições iguais às da Venezuela e no dia em que a comunidade internacional fizer um levantamento das irregularidades e ilegalidades cometidas, pode também abrir espaço para sermos invadidos e termos alguns dirigentes recolhidos”, defende.

Nas suas declarações à “Carta de Moçambique”, Ivandro Massingue lembra que o Chefe de Estado norte-americano está atento às reacções dos Governos de todo o mundo, tendo já mandado recado para os países que se colocaram contra a sua acção. “Não quero acreditar que o nosso Governo vai querer correr esse risco de chamar atenção dos EUA para aquilo que são as suas más práticas de governação”, afirma.

“É preciso lembrar que uma das razões levantadas pelos EUA para invadir a Venezuela é o facto de o país ser um Estado narcoterrorista e Moçambique é o maior corredor de drogas do mundo e não quero duvidar que, diante de qualquer insinuação, os EUA se possam virar contra o nosso país”, atira o político, sublinhando que Nicolás Maduro não foi reconhecido como Chefe de Estado legítimo da Venezuela.

No entanto, apesar de Moçambique enfermar dos mesmos problemas que a Venezuela, o deputado reconhece que Moçambique tem sempre optado pela neutralidade quando se trata de casos de invasão, como se viu no momento em que a Rússia invadiu a Ucrânia, em Fevereiro de 2022.

 O Governo está a ser cauteloso – Frelimo

Já o partido no poder entende que o Governo está a ser cauteloso, tal como se verificou aquando da invasão da Ucrânia pela Rússia. “Sabe que é preciso, primeiro, analisar os prós e contras, os motivos, os passos subsequentes e aquilo que é a própria posição da União Africana, de que Moçambique faz parte, para que não esteja numa ilha”, disse Dias Letela, porta-voz da bancada parlamentar da Frelimo.

“O posicionamento imediato sem analisar os vários factores podia pôr também o próprio país numa situação de banalização. Então, acho eu que, nos próximos dias, o país poderá se pronunciar, mas a sua posição não se pode limitar na condenação, mas sim perceber o que isto terá criado no mundo”, acrescentou.

“Como parlamentar, condeno qualquer país que invada outro país porque todos os países são soberanos e quem deve resolver os problemas de Moçambique são os moçambicanos”, sublinhou Letela, alertando para a responsabilidade das Nações Unidas neste caso.

“Nós vimos várias reacções, que se centraram na chamada de atenção à ONU [Organização das Nações Unidas] das suas responsabilidades, no âmbito dos conflitos que o mundo vai vivendo. A ONU foi criada exactamente para garantir harmonia entre os países. Portanto, penso que cabe à ONU, sobretudo ao seu Conselho de Segurança, responder no dia-a-dia aos conflitos que o mundo vai tendo”, defendeu.

Refira-se que Nicolás Maduro foi deposto pelos EUA na madrugada do último sábado, após ataques à capital venezuelana, Caracas, e levado aos EUA junto com a esposa, Cilia Flores Maduro. Na sequência dos bombardeamentos norte-americanos, pelo menos 100 pessoas morreram, segundo o Ministro do Interior venezuelano, Diosdado Cabello.

Nicolás Maduro foi formalmente acusado de narcoterrorismo na última segunda-feira, em uma audiência em Nova York, na qual se declarou inocente e disse ser um “prisioneiro de guerra”. O Chefe de Estado venezuelano é acusado de conspiração para o narcoterrorismo; conspiração para o tráfico de cocaína; posse de metralhadoras e dispositivos explosivos; e conspiração para posse de metralhadores para uso pelo narcotráfico.

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