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2 de December, 2025

LAM, militares e juventude: A arquitectura invisível de uma viragem política

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“A chegada foi silenciosa, discreta, mas a imagem que ficaria para o país já estava cimentada: a de um Presidente que embarca com o povo, que brinca com os símbolos de uma companhia nacional e que transforma um simples pacote de chips num gesto político de proximidade.”
Eram sensivelmente 17 horas quando o Presidente da República, Daniel Chapo, atravessou a pista do Aeroporto de Maputo em direcção ao avião da LAM que o levaria a Pemba. O fim de tarde mergulhava numa luz azulada, espessa, enquanto os candeeiros da pista projectavam halos dourados sobre as asas e sobre os trabalhadores que se moviam no ritmo apressado dos últimos voos do dia.
À base das escadas metálicas, o Presidente fez um gesto que nenhum aparato oficial conseguiria ensaiar. Parou, virou-se para a equipa de solo e, com um sorriso rápido, lançou a frase que arrancou gargalhadas sinceras: “Vou ver se ainda estão a dar chips ou não.”
Era uma frase simples, dita com a naturalidade de alguém que recorda um hábito antigo, mas nela havia qualquer coisa de profundamente simbólico: um gesto que devolvia à companhia de bandeira um pedaço da sua memória afectiva, tão comum aos passageiros moçambicanos. As risadas ecoaram. Os telemóveis começaram a gravar. E o Presidente subiu as escadas sem cerimónia, tocando o ombro de um dos técnicos enquanto se despediam com um aceno cúmplice.
Pouco depois, instalado já na cabine executiva, o detalhe tornou-se mais do que piada, tornou-se confirmação. A LAM, fiel a esse ritual que moldou gerações de viajantes, serviu mesmo os chips durante o voo. Um gesto pequeno, quase doméstico, mas que, naquela noite, ganhou a força de um símbolo.
Não era apenas o cumprimento de um serviço: era a prova viva de que a companhia que o Estado decidiu resgatar ainda preserva a sua identidade, os seus ritos, a sua memória.
O avião descolou antes das 17h00 e, pouco depois das 19h, começou a descida para Pemba. A escuridão dominava o litoral do Norte, pontuada apenas por luzes dispersas. A chegada foi silenciosa, discreta, mas a imagem que ficaria para o país já estava cimentada: a de um Presidente que embarca com o povo, que brinca com os símbolos de uma companhia nacional e que transforma um simples pacote de chips num gesto político de proximidade.
Cabo Delgado: quando o Estado muda a arquitectura da resposta
A escala em Cabo Delgado não foi apenas uma etapa de agenda, foi a reconstrução de um posicionamento do Estado num dos dossiers mais sensíveis da governação recente. Desde 2017, a província tornou-se palco de uma insurgência que redesenhou não só o mapa da segurança, mas também o da diplomacia moçambicana. Cada operação militar, cada episódio relatado por organizações internacionais, cada relatório (verdadeiro ou manipulado) moldou a percepção externa sobre o país.
Nos últimos anos, Moçambique viu-se forçado a navegar entre pressões internacionais, relatórios divergentes e narrativas muitas vezes produzidas longe do terreno. A própria ONU, a União Europeia e várias ONG levantaram questões sobre alegadas execuções, detenções arbitrárias, desaparecimentos ou abusos cometidos por vários actores – estatais, privados e insurgentes. Foi nesse ambiente tenso que, desde 2021, emergiu a figura de Elísio Macamo e outros académicos a criticar a ausência de instrumentos institucionais robustos que pudessem permitir ao Estado “falar com autoridade moral”.
A inauguração da primeira Delegação Provincial da CNDH em Cabo Delgado insere-se neste vazio histórico. Não é apenas um escritório: é a tentativa de normalizar a presença do Estado num campo dominado durante muito tempo por versões concorrentes dos factos.
Pela primeira vez, uma instituição moçambicana com mandato formal e enquadramento legal instala-se no epicentro da crise para:
  • Recolher queixas;
  • Acompanhar processos;
  • Investigar incidentes;
  • Emitir relatórios técnicos;
  • Criar evidências próprias.
O Presidente, ao colocar o tema no centro da visita, fez um movimento raro na política africana: aceitou que o Estado deve também fiscalizar-se a si mesmo, em vez de apenas rejeitar críticas externas. A imagem que se constrói aqui é subtil, mas poderosa: Moçambique deixa de ser objecto da narrativa internacional e passa a ser produtor de narrativa institucional.
TON: o país que se sustém na fadiga dos seus jovens
No Teatro Operacional Norte, o ambiente era outro: militarizado, duro, marcado por anos de tensão e vigília. O Presidente encontrou batalhões que carregam nos corpos e nos rostos o peso diário de decisões que, para o resto do país, chegam apenas como notas em relatórios.
Sob a sombra de uma árvore imensa, símbolo quase bíblico num território onde a natureza é testemunha da guerra, os soldados estavam alinhados. Muitos são jovens que, há quatro anos, jamais imaginariam estar ali: recrutados às pressas, mas com patriotismo, treinados durante a emergência, enviados para uma frente volátil. Outros são veteranos que viram colegas caírem, aldeias deslocarem-se e a geografia política do norte mudar radicalmente.
A presença do Presidente ali foi mais do que uma visita protocolar: foi uma espécie de “actualização moral” do vínculo entre o Estado e aqueles que operacionalizam a soberania nacional.
O Comandante-em-Chefe não discursou apenas; escutou. E a escuta, naquele ambiente, tem efeito político e psicológico. Há anos que analistas referem que a moral das FDS é construída em três pilares:
  1. Condições reais de trabalho;
  2. Capacidade logística;
  3. Presença simbólica da liderança.
O terceiro pilar, por muito tempo, foi percebido como inconsistente. Neste fim-de-semana, a percepção mudou. A fotografia do Presidente rodeado de jovens fardados – alguns quase da idade dos estudantes universitários – tornou-se a imagem narrativa que o Governo precisava: a de uma liderança que não dirige a guerra a partir da distância. E os soldados, ao vê-lo ali, reconheceram algo ainda mais profundo: a política, por um instante, entrou no terreno real onde a guerra se decide, não em comunicados, mas em madrugadas longas, botas gastas e noites sem sono.
A ponte entre duas juventudes: a militar e a civil
Em Tete, o Presidente entrou noutro universo, não o da guerra, mas o da juventude civil, reunida para celebrar os 48 anos da OJM. A transição narrativa foi executada com inteligência política: do chão de terra batida do TON para o palco cerimonial da maior organização juvenil do país.
Hoje, Moçambique vive um paradoxo:
é um dos países mais jovens do mundo, mas a sua juventude encontra-se fracturada entre oportunidades desiguais, expectativas curtas e um mercado de trabalho exíguo. O Presidente procurou reparar essa fractura através do simbolismo: aproximou a juventude militar – aquela que arrisca a vida – da juventude civil – aquela que arrisca o futuro.
O fio condutor é simples e profundo: (i) uns defendem o país com armas, (ii) outros defendem-no com sonhos. A narrativa presidencial foi construída em torno desta ponte. E, num momento em que as redes sociais amplificam descontentamentos e multiplicam vozes críticas, esta estratégia funciona como “redesenho emocional” da ligação entre Estado e juventude: não uma juventude vista como ameaça, mas como protagonista.
HCB: a economia política do rigor
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa é mais do que um empreendimento energético: é um símbolo de soberania recuperada. Desde a reversão total, HCB tornou-se a maior empresa pública operacional do país, gerando receitas que sustentam sectores essenciais do Estado.
Ao colocar cinco desafios concretos à administração, o Presidente fez algo que raramente faz: colocou exigência clara, mensurável, quase empresarial, no discurso político.
Os cinco desafios foram interpretados dentro da própria empresa como um “puxão de responsabilidade”: não basta ser uma empresa que funciona, HCB deve transformar-se num modelo de gestão pública eficiente, rentável e geoestrategicamente relevante.
O subtexto é cristalino: o Governo projecta que a eficiência da máquina estatal seja parte da sua narrativa de continuidade. E se a LAM representa o resgate, a HCB representa a consolidação.
Em suma: se antes a Presidência operava num campo distante, formal, quase impermeável, este fim-de-semana introduziu um tipo de política próximo, táctil, quase cinematográfico. Uma política feita de símbolos, gestos e presenças não apenas de declarações.
No final, a narrativa fica clara: o Presidente não quis apenas governar; quis encenar uma nova gramática de liderança, uma que mistura humor, autoridade, proximidade e exigência. E, curiosamente, tudo começou com um pacote de chips.
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