“(…) A cooperação entre Brasil e Moçambique não pode mais oscilar entre momentos de aproximação e distanciamento. Não temos tempo para reclamar pelo que não aconteceu até agora. Disse ontem e vou repetir hoje: a minha visita à Moçambique é o remoço de uma história que nunca deveria ter parado de acontecer. A minha visita à Moçambique é para dizer à você, Presidente da República e ao povo de Moçambique, que o Brasil está de volta e quer colaborar com Moçambique. Conte connosco”.
Foi nestes termos que o Chefe de Estado brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, dirigiu-se aos moçambicanos, na tarde desta segunda-feira, no âmbito da sua visita de trabalho de um dia à Moçambique, iniciada na tarde do último domingo.
Falando momentos após a assinatura de nove instrumentos jurídicos de cooperação entre os dois países – no final do encontro bilateral entre as delegações moçambicana e brasileira –, Lula da Silva, que visita Maputo pela quarta vez (a primeira foi em 2003), sublinhou que as relações diplomáticas entre os dois Estados duram há 50 anos, no entanto, “passamos da irmandade [ao reconhecer a independência de Moçambique] à indiferença” por muitos anos “até que há 20 anos vivemos um grande despertar”.
“O Brasil que estava de costas para África reencontrou Moçambique. O país tornou-se o maior destinatário da cooperação brasileira no continente africano. Pouco depois, caímos no sono profundo. O Brasil se perdeu por caminhos sombrios e, nesse processo, se esqueceu dos laços com a África. Muitas das sementes que havíamos lançado não tiveram tempo de vingar. Mas, é a hora de recobrar a consciência”, afirmou o Estadista.
Lembre-se que foi nos dois primeiros mandatos de Lula da Silva (2003-2011) que as relações comerciais e diplomáticas entre Moçambique e Brasil ganharam maior notoriedade. Neste período, o Brasil financiou a obras de construção do Aeroporto de Nacala (ainda sem tráfego aéreo projectado), da barragem de Moamba-Major (depois suspensa) e da sonhada fábrica de antirretrovirais (que não chegou a vincar).
Neste novo regresso, Brasil e Moçambique celebraram nove acordos de cooperação, que visam fortalecer as capacidades institucionais das entidades moçambicanas. Os acordos são referentes às áreas de desenvolvimento, saúde, educação, diplomacia, empreendedorismo, promoção comercial, aviação civil, assistência jurídica e serviços agro-florestais. Para Lula da Sila, os dois países podem e devem ir além das áreas já acoradas.
“Moçambique é um país em desenvolvimento que ainda possui lacunas de infra-estruturas a suprir. O seu crescimento depende de portos, estradas, usinas e linhas de transmissão. O Brasil tem empresas dinâmicas com condições de contribuir”, afirmou o estadista brasileiro, assegurando que para tal, a nação canarinha deve “desatar uma marra determinante”, que é o financiamento. Entende que nenhum país consegue exportar serviços sem oferecer opções de crédito às suas empresas.
“Estamos trabalhando para o BNDS [Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social] recuperar a capacidade de financiar a internacionalização das empresas brasileiras. O fluxo de comércio que Brasil mantem com Moçambique é muito menor do que com outros países de língua portuguesa. Isso é injustificável entre dois mercados tão familiares”, disse.
O Chefe de Estado brasileiro disse ainda que o seu país está a investir no fortalecimento do seu complexo industrial de saúde, facto que permitirá ao país trabalhar novamente com Moçambique na produção de medicamentos. “Ninguém melhor que Brasil para contribuir também com a segurança alimentar de Moçambique. Com tecnologia adequada é possível ampliar a produtividade da savana africana sem comprometer o meio-ambiente”, destacou.
Aliás, em matéria de mudanças climáticas, Lula da Silva defende que Moçambique e Brasil podem trabalhar em duas áreas cruciais para o futuro do planeta: na protecção de biomas florestais, trocando experiências do manejo do fogo e uso sustentável dos recursos naturais para preservar esses sistemas, como a floresta do miombo; e na transição energética, onde o Brasil está pronto para trabalhar com o país na produção de biocombustíveis, aliando a geração de emprego à redução da dependência de combustíveis fósseis.
A reaproximação entre Moçambique e Brasil vai também permitir a troca de experiências nas áreas agrícola e pecuária. Lula da Silva anunciou que o Ministério da Educação do Brasil e a Agência Brasileira de Cooperação oferecerão, em 2026, até 80 vagas para cursos de formação de formadores em ciências agrárias e até 400 vagas para curso técnico em agro-pecuária a colaboradores moçambicanos.
“A EMBRAPA [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] vai reforçar as iniciativas por meio de um sistema de treinamento presencial e à distância de técnicos moçambicanos. Com o mesmo censo de prioridade, trabalhamos para incluir Moçambique na lista dos países contemplados pela etapa de implementação acelerada da aliança global contra a fome e a pobreza”.
“Enquanto sonharmos juntos, nossa estrada comum permanecerá viva. Não temos tempo para reclamar pelo que não aconteceu até agora. A minha visita à Moçambique é para dizer à você, Presidente da República e ao povo de Moçambique, que o Brasil está de volta e quer colaborar com Moçambique em todas as áreas, da indústria, da ciência e tecnologia, da agricultura, da energia e em tudo aquilo que você precisar, sobretudo, em duas áreas vitais para a humanidade: saúde e educação. Conte connosco”, sentenciou.





