Passou, neste domingo (19), um ano desde a noite fatídica em que o advogado Elvino Dias, assessor jurídico do candidato presidencial Venâncio Mondlane, e o mandatário nacional do PODEMOS, Paulo Guambe, foram brutalmente assassinados a tiros, na cidade de Maputo. O crime, ocorrido na transição de 18 para 19 de Outubro de 2024, abalou o país.
Os dois foram brutalmente assassinados por indivíduos desconhecidos no bairro da Coop, após deixarem o mercado 4 de Outubro, popularmente conhecido como Pulmão da Malhangalene, onde se encontravam num momento informal de convívio. Quando saíam do local, acompanhados por Adássia Macuácua, uma cidadã que, de acordo com fonte próxima a ela, havia pedido boleia, a viatura foi bloqueada por outras duas.
De uma delas, segundo testemunhas, saíram dois homens que, após uma breve conversa, dispararam uma verdadeira chuva de balas contra o carro de Elvino Dias, tirando-lhe a vida e a de Paulo Guambe no local. Os restos mortais de Elvino Dias foram sepultados em Maputo, enquanto os de Paulo Guambe repousam em Inhambane, sua terra natal.
Reconhecimentos póstumos
Um ano depois, o nome de Elvino Dias ecoa para além das fronteiras nacionais. Postumamente, o jurista foi distinguido com o Prémio Nelson Rolihlahla Mandela 2025, atribuído pela associação portuguesa ProPública em parceria com as Nações Unidas. A distinção, anunciada em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, representa um marco histórico, sendo a primeira vez que um moçambicano é agraciado com o galardão que celebra juristas comprometidos com os direitos humanos e a cidadania.
No mesmo ano, a 12 de Junho, Elvino foi novamente homenageado com o prémio “Guardian of Justice Award (In Memoriam)”, em reconhecimento ao seu trabalho em defesa dos direitos eleitorais e da integridade do Estado de Direito em Moçambique.
Por sua vez, o partido Aliança para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA), liderado por Venâncio Mondlane, anunciou, em Agosto último, a criação de uma Fundação, baptizada com o nome do advogado Elvino Dias.
“Prestamos homenagem àquele que disse que vamos continuar a lutar até ao fim. Deu a sua vida, sacrificou a sua família e morreu por nós. Então, vamos homenagear Elvino Dias em nome das mais de 500 pessoas que tombaram pelo movimento ANAMOLA, por criação de um Estado verdadeiramente de Direito Democrático”, afirmou Dinis Tivane, porta-voz dquela formação política.
Já o Presidente Interino do ANAMOLA considerou Elvino Dias, o primeiro herói do ANAMOLA. “É também um momento especial porque aproveitamos esta inauguração para homenagear aquele que nós consideramos o primeiro herói do partido ANAMOLA, que é exactamente o doutor Elvino Dias. Que é neste momento o maior símbolo de resistência, o maior símbolo de luta que o ANAMOLA tem para apresentar ao povo”, defendeu Mondlane, após inaugurar a primeira sede distrital do partido, localizado no bairro do Zimpeto, na cidade de Maputo.
Aliás, o ANAMOLA prometeu, em Setembro último, financiar as despesas escolares dos filhos de Elvino Dias e do Mano Shotas (activista assassinado na vila fronteiriça de Ressano Garcia, província de Maputo), do ensino primário até ao superior.
Naquela noite de horror, Adássia Macuácua, a mulher que seguia no banco traseiro do veículo, escapou com vida, mas com ferimentos graves. A história de Adássia, que se transformou de anónima em testemunha-chave de um assassinato político, é marcada por sortilégios, boatos e trauma.
Internada na enfermaria de Ortopedia do Hospital Central de Maputo, sobreviveu não apenas aos disparos, mas também à onda de desinformação que inundou as redes sociais, onde chegou a ser dada como morta.
Dias depois, o Presidente da República, Filipe Nyusi, deslocou-se ao hospital para visitá-la, um gesto interpretado por muitos como simbólico, mas também interrogativo, quando o Chefe de Estado lhe perguntou se conhecia os autores dos 25 disparos que tiraram a vida aos dois juristas. Um ano depois, após várias tentativas da “Carta”, nunca foi possível conhecer nem conversar com Adássia sobre a noite que, provavelmente, a marcou para sempre.
O porta-voz do SERNIC, João Adriano, afirmou que as investigações continuam em curso com vista a dar esclarecimentos sobre os processos, apesar de não poder avançar qualquer dado referente ao caso, por se tratar de um processo sensível e complexo. “É um processo extremamente sensível e complexo, mas está a ser feito um trabalho com vista ao esclarecimento do que aconteceu”, afirmou Adriano, assegurando que “a investigação não está no mesmo estágio”.
Mesmo em meio ao luto e à indignação, no dia 4 de Outubro, durante as celebrações do Dia da Paz, o partido PODEMOS (que suportou a candidatura de Venâncio Mondlane) realizou marchas em homenagem aos seus companheiros tombados. O porta-voz do partido, Duclésio Chico, declarou que “Elvino Dias e Paulo Guambe são heróis de causas justas e serão eternamente homenageados nas províncias que os viram nascer.”
Alcina e Madalena são também rostos da brutalidade
Os assassinatos de Elvino e Guambe inserem-se num contexto mais amplo de instabilidade e repressão associado às eleições gerais de 2024, oficialmente ganhas pela Frelimo, mas que são contestadas pela oposição, sobretudo por Venâncio Mondlane, que entende ter ganho o escrutínio.
Em Abril de 2025, a Plataforma da Sociedade Civil para a Monitoria Eleitoral (DECIDE) avançou que entre 21 de Outubro de 2024 e 31 de Março de 2025, pelo menos 800 pessoas foram baleadas pela Polícia, das quais 388 perderam a vida durante as manifestações pós-eleitorais, mortes causadas pelo uso excessivo da força por parte das autoridades e por atropelamentos fatais, ao longo de cerca de cinco meses de protestos pós-eleitorais.
Uma das vítimas dessa brutalidade policial é Alcina Nhaume, uma jovem de 28 anos de idade, que no dia 5 de Março de 2025, foi baleada dentro do seu atelier em Michafutene, no distrito de Marracuene, por um agente da Unidade de Intervenção Rápida (UIR).
A bala destruiu parte do seu rosto e obrigou-a a passar por uma complexa cirurgia de reconstrução facial. Alcina vivia com limitações para falar e alimentar-se e há pouco tempo regressou da Espanha e se encontra em recuperação e readaptação apesar de ter retomado ao trabalho, onde já participou do MFW young Designers e ganhou diversos prémios e capacitações. Alcina segue transformando a dor em arte e assim concretizando os seus sonhos.
Outro caso que continua sem resposta é o de Maria Madalena Matusse, que com 29 anos foi atropelada intencionalmente por um carro militar (BTR) das Forças Armadas, em plena Avenida Eduardo Mondlane, sob o olhar impotente da população. O episódio, ocorrido em Novembro do ano passado, jamais resultou em responsabilização judicial. Madalena ainda vive com o trauma, enquanto os culpados seguem livres.





