Escrito por: Jesse Copelyn para Spotlight e GroundUp
As crianças já estão a morrer em Moçambique, devido ao corte da ajuda humanitária dos Estados Unidos da América. A decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de desmantelar a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) afectou directamente o país, que era um dos principais beneficiários do programa, num contexto em que o sistema de saúde depende em grande parte de recursos americanos.
Após a ordem executiva de Donald Trump de cortar o financiamento de ajuda global dos EUA em 20 de Janeiro, sem aviso prévio, o sistema de saúde em algumas partes de Moçambique entrou em caos.
As agências de ajuda dos EUA financiavam grande parte da força de trabalho da área da saúde, juntamente com o transporte de medicamentos e testes de diagnóstico para hospitais governamentais.
Em algumas províncias, esse dinheiro vinha dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, que interromperam grande parte de seu financiamento logo após o decreto.
Já nas províncias centrais de Sofala e Manica, o dinheiro vinha da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que cortou em definitivo as suas operações.
Durante uma semana, a Spotlight e a GroundUp viajaram no passado mês de Junho para nove vilas e cidades rurais nas duas províncias para descrever o custo humano.
A equipa constatou que os hospitais estão com falta de medicamentos que salvam vidas. Médicos e enfermeiros foram demitidos em massa. As filas nos hospitais ficaram cada vez maiores. Alguns pacientes recebem a medicação errada, provavelmente porque os colectores de dados (que geriam os arquivos dos pacientes) perderam seus empregos. Assistentes sociais comunitários que entregavam medicamentos às crianças órfãs para tratamento de HIV pararam de trabalhar. Sem anti-retrovirais (ARV), algumas dessas crianças estão condenadas à morte.
Entrevistas com assistentes, profissionais de saúde e autoridades governamentais convergiram para uma conclusão quase universal: os cortes de verbas levaram à morte de crianças. Uma das razões prende-se com o facto de milhares de crianças seropositivas terem sido abandonadas após a demissão de agentes comunitários de saúde, apoiados pela USAID.
Pânico em todos os níveis
Em 2020, uma organização sediada em Sofala, chamada ComuSanas, recebeu uma doação da USAID para empregar centenas de agentes comunitários em áreas rurais da província.
“O projecto visava reduzir a mortalidade entre crianças vivendo com HIV”, disse Joaquim Issufo, ex-agente comunitário do projecto. Ele está agora como vendedor informal num mercado no bairro pobre de Buzi, onde gere uma barraca de venda de peixe. “Trabalhávamos com crianças de 0 a 17 anos, especialmente órfãs e crianças vulneráveis”.
Essas crianças vivem em aldeias remotas, longe de serviços públicos. Algumas foram encontradas morando em casas sem adultos. Muitas outras vivem com os avós que mal conseguem se sustentar.
No meio da pobreza e isolamento, os assistentes sociais, conhecidos localmente como activistas, funcionavam como ponte entre essas crianças e os hospitais. Eles transportavam testes diagnósticos entre comunidades e unidades de saúde. Levavam os medicamentos às crianças e garantiam que tomassem as doses correctas nos horários certos. Acompanhavam-nas até às unidades de saúde e ajudavam-nas a superar a burocracia.
Issufo observa que o seu papel se estendia muito além da saúde: eles organizavam certidões de nascimento, matriculavam crianças nas escolas e encaminhavam-nas para casa. Quando a seca e a fome devastavam as aldeias, eles levavam cestas básicas e forneciam educação nutricional.
“Nas aldeias onde estive, as crianças e os seus pais ou encarregados referiam-se aos activistas como “mãe”, “pai ” ou “irmã”, e diziam que eram como membros da família”, disse Issufo.
Mas depois que a USAID emitiu em Janeiro ordens de paralisação de obras na ComuSanas, esses “pais e mães” pararam abruptamente de visitá-los e, de repente, as crianças mais desesperadas da região foram abandonadas à própria sorte.
Issufo disse que depois disso houve “pânico em todos os níveis, tanto para nós como activistas quanto para os nossos beneficiários”.
Crianças hospitalizadas e abandonadas para morrer
A cerca de 80 km da barraca de peixe de Issufo fica a aldeia de Tica, no distrito de Nhamatanda. No meio de casas de tijolos de barro e palha, um grupo de ex-activistas do ComuSanas senta-se em troncos, baldes e esteiras e explica as consequências do fim do programa.
“Antes da suspensão das operações da USAID, eu cuidava de um menino que morava com uma senhora idosa e ela tinha de trabalhar”, diz Marta Jofulande. “Eu tinha de ir ao posto de saúde e dar a medicação [ARV] para a criança. Eu também ajudava em outras coisas como preparar comida. Mas com essa suspensão, eu já não faço nada disso”.
Pouco depois, Jofulande foi informada que a criança havia adoecido e estava em tratamento intensivo no hospital central.
“Fui eu que levei os ARV para ela”, conta Jofulande. “Assim que o programa terminou, ela parou de tomar a medicação e foi aí que teve uma recaída. Ela está em estado muito crítico e respira por um tubo. O nome dela é Cleiton e tem oito anos de idade”, acrescenta.
Muitas outras crianças já faleceram. A 20 minutos de carro de Tica fica o assentamento de Mutua, no distrito de Dondo. Lá, a activista Carlota Francisco afirma: “Durante esta pausa, tivemos casos [de crianças] em estado crítico que acabaram perdendo a vida.”
Uma delas era uma menina de dois anos que estava sob seus cuidados.
“Aquela criança dependia de mim”, diz Francisco, que explica que ela buscava e fornecia os ARV à menina. Depois que ela parou de tomar, ela conta que os responsáveis da menina não lhe deram as dosagens correctas. Pouco depois, a criança morreu.
Histórias como essa repetiam-se em quase todas as aldeias que visitamos. Muitas vezes, crianças ou seus tutores tentam obter os medicamentos sem a ajuda dos activistas. Mas muitos hospitais estavam em estado de caos, pois, os profissionais de saúde e os colectores de dados financiados pela USAID haviam sido demitidos. Os agentes de ligação que conheciam essas crianças e as haviam auxiliado anteriormente também haviam partido.
A aquisição de ARV é financiada pelo Fundo Global de Combate ao HIV/Sida, tuberculose e malária. Esse dinheiro continua a fluir, mas a distribuição desses medicamentos aos hospitais depende de dinheiro dos EUA.
Filas intermináveis, escassez de medicamentos e perda de arquivos de pacientes fizeram com que alguns não recebessem os medicamentos.
Taxas de tratamento anti-retroviral caem em toda a província
O director de saúde do distrito de Buzi, Roque Júnior Gemo, diz que a missão dos agentes comunitários é estender os serviços sanitários a áreas remotas que eles lutavam para alcançar há muito tempo.
“Eles são como os galhos das nossas árvores para levar os serviços às pessoas”, diz Gemo. “As nossas aldeias estão distantes e temos uma grande população que precisa de informações e serviços básicos”.
“Especialmente na área do HIV, temos pacientes terminais que antes eram acompanhados por activistas. Eles costumavam receber medicamentos em casa. Sem essa ajuda, o seu estado de saúde piorou e alguns morreram”.
No entanto, a dimensão do problema se estende muito além do distrito de Buzi.
Na capital de Sofala, Beira, o supervisor provincial do HIV, Manuel Seco, forneceu dados sobre a resposta à pandemia na província, antes e depois dos cortes. Entre Maio e Dezembro de 2024, o número total de pessoas em tratamento ARV na província aumentou em mais de 20.000 pessoas, mostram os dados. Esse aumento ocorreu de forma constante, com um incremento de 500 a 5.000 pessoas por mês.
Mas, assim que os cortes foram anunciados, esse progresso foi interrompido e a tendência se inverteu. Desde Janeiro, o número de pessoas em tratamento anti-retroviral vem caindo em centenas de pessoas por mês.
O motivo, de acordo com a Seco, é que muitas pessoas que tomavam ARV interromperam o tratamento, enquanto as novas adesões caíram drasticamente.
O impacto vai muito além da resposta ao HIV
Construído num complexo pertencente à Tongaat Hulett, encontra-se um hospital público que atende a população rural de Mafambisse, no distrito de Dondo. Joaquim Mupanguiua, que lida com tuberculose no hospital, conta que, após a demissão dos activistas, a unidade sanitária viu um declínio acentuado no número de pacientes com tuberculose que chegam às instalações.
“Só quando já estão muito doentes é que eles vêm ao posto de saúde”, diz. “Mas, com os activistas, eles facilmente iam às comunidades e encontravam os doentes.”
De facto, o número de pacientes que chegam ao hospital é cerca de um terço do que era antes: “Costumávamos receber cerca de 28 a 30 pacientes [de TB] por mês, mas agora estamos com menos de 10”, observa Mupanguiua.
Como os pacientes chegam ao hospital quando já estão gravemente doentes, as unidades de saúde nada podem fazer por eles. Portanto, não é surpresa que Mupanguiua acredite que houve um aumento nas mortes evitáveis por tuberculose.
Encontrando outras maneiras
De volta ao escritório do distrito de Buzi, Gemo diz que esforços foram feitos para ajudar pacientes terminais que antes eram apoiados por activistas, mas há tantas pessoas necessitadas que eles não conseguem ajudar.
Sem o financiamento do ComuSanas para os custos de transporte, muitos activistas têm dificuldade para visitar crianças em áreas remotas. E a perda de sua renda por meio do programa significa que agora precisam passar os dias encontrando outras maneiras de sobreviver – agricultura de subsistência e mercados de rua são as rotas habituais.
Mas esse trabalho raramente oferece o tipo de renda regular que o ComuSanas vinha proporcionando.
“Sinceramente, comprar cadernos, canetas e roupa para os meus filhos tornou-se muito difícil”, diz o activista Brito Balão, de Dondo.
Enquanto isso, em Tica, os activistas perguntam como podem fornecer comida aos seus antigos beneficiários quando eles próprios passam fome.
Apesar disso, os activistas continuam morando nas mesmas vilas que os seus beneficiários. E ao contrário dos que vivem em Washington, não podem retirar o seu apoio sem enfrentar o ressentimento ou o desespero de suas comunidades.
“Trabalhamos com amor e ficamos muito tristes por não poder estar lá para essas crianças”, diz um activista de Mutua. “Outra família chorou hoje [quando me viu]. ‘Você ficou fora por um tempo’, disse. Não imagine como me senti mal”.
Entre os antigos beneficiários do programa, a sensação de abandono era palpável e a raiva era frequentemente direccionada aos antigos activistas. Isso era frequentemente agravado pelo facto de ninguém lhes ter explicado o motivo do fim do programa.
Na aldeia de Nharuchonga, Joana explica que, no passado, a activista Fátima sempre vinha e garantia que a sua filha tomasse os ARV. Agora que a Fátima parou de vir, a sua filha nem sempre toma os medicamentos, disse.
“Fomos abandonados por Fátima”, afirma ela, desviando o olhar da ex-activista. “Até agora, fomos tímidos demais para perguntar porque ela nos abandonou.”
Em muitos outros casos, o tom era simplesmente de tristeza.
De volta à Tica, dentro de uma cozinha ao ar livre feita de chapas de ferro, uma idosa, de nome Maria, segura a sua neta Teresa, de cinco anos. Apesar de ter passado fome em vários momentos nos últimos anos, ela cozinha batata-doce numa pequena fogueira e insiste que todos comam.
Os pais da criança morreram de HIV, conta Maria. O sustento da menor ficou a cargo dela, enquanto tenta cultivar arroz e milho para subsistência — um esforço dificultado pela seca frequente.
Por muito tempo, ela recebeu ajuda com esse papel parental. Jofulande vinha auxiliando a família e agindo como uma mãe para a criança. Mas, desde que o programa foi encerrado, eles não vêem mais Jofulande com tanta frequência.





