Moçambique e a tensão cambial que cresce em silêncio.
Há momentos na economia em que nada parece dramaticamente errado e, ainda assim, algo profundo começa a mover-se por baixo da superfície.
Moçambique vive um desses momentos.
Não há pânico nas ruas. Não há manchetes alarmistas. As reservas internacionais continuam, nas estatísticas oficiais, dentro de níveis considerados aceitáveis. À primeira vista, tudo parece sob controlo.
Mas na economia real os sinais contam outra história.
Empresas enfrentam dificuldades para pagar fornecedores estrangeiros. Bancos racionam moeda estrangeira. Importadores aguardam semanas por autorizações. Investimentos são adiados, decisões são suspensas, contratos ficam em espera.
Estes não são sinais de um sistema em colapso. São sinais de um sistema sob tensão.
Porque a escassez de divisas não começa quando um país fica sem dólares. Começa quando o mercado deixa de acreditar que os dólares circularão normalmente.
E é exactamente nesse ponto que Moçambique parece encontrar-se.
O país dispõe de reservas internacionais que, à superfície, oferecem alguma protecção. Mas as reservas agregadas raramente contam toda a história. O que realmente importa não é apenas quanto o país possui em dólares. É quanto desses dólares está efectivamente disponível para circular no sistema financeiro interno, com previsibilidade, rapidez e confiança.
Quando empresas começam a enfrentar atrasos sistemáticos na obtenção de moeda estrangeira, quando os bancos impõem limites silenciosos ou criam listas de espera invisíveis, o sinal é claro: o mercado cambial pode parecer estável, mas por baixo da superfície existe fricção.
Nos últimos anos, para mim, o comportamento do metical face ao dólar só fez verdadeiramente sentido num momento: durante a crise das dívidas ocultas, quando a moeda saltou de cerca de 32 para perto de 100 meticais por dólar.
Naquele momento o mercado reagiu.
Desde então, porém, a taxa de câmbio tem vivido numa zona curiosa. Uma zona onde o valor oficial parece estável, mas onde a realidade económica sugere algo diferente.
Durante muitos anos o nosso câmbio foi, em grande medida, político. Não necessariamente o resultado puro das forças de oferta e procura. E, infelizmente, essa politização continua a existir.
Qualquer estudante do primeiro ano de economia percebe rapidamente que uma taxa de 63 meticais por dólar dificilmente reflecte os fundamentos da economia. Basta sair do país, pagar com cartão e observar a conversão real para perceber que o preço implícito do dólar é outro.
O dólar provavelmente deveria situar-se próximo dos 80 meticais.
Assusta ouvir isto. Mas os mercados raramente respeitam aquilo que nos conforta.
Mercados sob tensão acumulam energia. Mais cedo ou mais tarde libertam-na.
A crise cambial que hoje começa a desenhar-se em Moçambique não nasceu ontem. É o resultado de fragilidades acumuladas ao longo de anos.
A primeira dessas fragilidades é a confiança.
Quando as dívidas ocultas vieram a público em 2016, algo mudou profundamente na percepção internacional do país. O financiamento externo tornou-se mais caro, mais cauteloso e mais volátil. E, na economia monetária, a confiança é uma variável invisível, mas absolutamente decisiva.
Quando a confiança se fragiliza, os fluxos de capital tornam-se nervosos. Economias dependentes de financiamento externo passam a viver num equilíbrio mais delicado.
Moçambique conhece bem essa realidade.
A segunda fragilidade é estrutural e diz respeito ao padrão do comércio externo.
O país importa combustíveis, alimentos, equipamentos industriais e medicamentos. Exporta sobretudo produtos concentrados: alumínio, carvão, gás e alguns outros recursos.
Esta assimetria cria uma dinâmica conhecida: a procura por moeda estrangeira é ampla e permanente, enquanto a oferta depende de poucos sectores e de poucos projectos.
Qualquer atraso num projecto energético, qualquer interrupção num grande exportador ou qualquer queda nos preços internacionais pode afectar imediatamente a disponibilidade de divisas.
A terceira fragilidade reside na própria taxa de câmbio.
Quando a taxa de câmbio não se ajusta aos fundamentos da economia, surgem distorções. O metical pode parecer estável, mas se estiver sobrevalorizado cria incentivos perversos: importar torna-se artificialmente barato, exportadores têm menos incentivo para converter receitas e a procura por moeda estrangeira cresce acima da oferta.
O resultado não é equilíbrio. O resultado é racionamento.
E o racionamento da moeda é quase sempre um sinal de desequilíbrio profundo.
A quarta fragilidade encontra-se nas finanças públicas.
Sem uma consolidação fiscal consistente, o Estado tende a recorrer mais intensamente ao sistema bancário doméstico. Embora existam vários bancos no país, a realidade segue muitas vezes a lógica da teoria de Pareto: uma pequena parte das instituições concentra a maior parte da actividade financeira.
Isto reduz o espaço de crédito para o sector privado e aumenta a pressão sobre a liquidez interna.
Quando a liquidez se torna mais escassa, surge outro fenómeno clássico das economias sob tensão: a dolarização defensiva.
Empresas e particulares começam a procurar refúgio em moeda forte.
E aqui entra um factor frequentemente subestimado na economia: a psicologia.
A fuga de uma moeda não precisa de ser física. Pode ser simplesmente mental.
Basta que os agentes económicos passem a acreditar que o valor da moeda poderá deteriorar-se no futuro. A partir desse momento, decisões começam a mudar: investimentos são adiados, reservas são convertidas, riscos são evitados.
A história económica mostra que crises cambiais raramente começam com números dramáticos. Começam com expectativas desalinhadas.
Se o mercado acredita que uma taxa de câmbio está artificialmente sustentada, começa a antecipar uma desvalorização futura.
E quanto mais essa expectativa se consolida, maior se torna a pressão imediata.
A experiência do Zimbabwe ilustra bem esta dinâmica.
Quando cheguei a Harare em Agosto de 2001, o Banco Central afirmava que o dólar zimbabweano valia cerca de 55 por dólar americano. Mas na rua, entre estudantes e comerciantes, o câmbio real aproximava-se de 300.
Seis vezes mais.
Não era um crime. Era simplesmente o preço que as pessoas aceitavam pagar.
O desfasamento prolongou-se até que a realidade finalmente venceu a ficção. Anos depois, apareceram notas de biliões que compravam apenas um pão.
A moeda desapareceu.
Moçambique não está nessa situação. Nem sequer perto dela.
Mas a lição permanece: quando a realidade económica e a narrativa oficial divergem durante demasiado tempo, a correcção acaba por chegar — quase sempre de forma abrupta.
Se não houver uma correcção gradual e ordenada, os riscos tornam-se previsíveis: desvalorização brusca do metical, pressão inflacionista, dificuldades acrescidas na importação de bens essenciais e deterioração da confiança empresarial.
Quando a confiança empresarial diminui, o investimento congela.
E quando o investimento congela, o crescimento desaparece.
Hoje já vemos alguns sinais de reacção defensiva: limites de gastos em cartões no estrangeiro, restrições a certos pagamentos internacionais, dificuldades em transacções digitais.
Estas medidas procuram gerir a pressão.
Mas a história mostra que controlar sintomas raramente resolve a doença.
Moçambique não precisa de medidas espectaculares.
Precisa de coerência macroeconómica.
Isso começa por uma política monetária clara, previsível e comunicada de forma transparente. A comunicação económica não deve ser hermética. Deve ser compreensível para quem participa diariamente na economia.
Exige também uma consolidação fiscal credível. Os mercados não exigem austeridade cega. Exigem direcção.
Quando percebem um caminho consistente de disciplina fiscal, o prémio de risco diminui. E quando o risco diminui, o país ganha espaço para respirar.
Exige ainda uma flexibilidade cambial gradual e bem comunicada. A taxa de câmbio não deve ser um símbolo político. Deve ser um preço económico.
E, acima de tudo, exige diversificação económica.
Nenhum país consegue estabilidade cambial duradoura quando depende de poucos produtos de exportação. Agro-indústria, turismo estruturado, logística regional, serviços tecnológicos e energia competitiva para a indústria são caminhos fundamentais para reduzir a vulnerabilidade externa.
Falar de câmbio em linguagem técnica pode parecer distante. Mas o impacto é profundamente humano.
Quando uma empresa não consegue obter dólares para importar matérias-primas, trabalhadores ficam sem produção. Quando hospitais enfrentam atrasos cambiais, equipamentos médicos demoram a chegar. Quando fertilizantes encarecem, agricultores produzem menos.
A estabilidade da moeda não é um conceito abstrato.
É uma condição básica para o funcionamento da economia real.
Moçambique não enfrenta uma ausência absoluta de dólares.
Enfrenta um desalinhamento entre políticas fiscal, monetária e cambial.
Enfrenta expectativas fragilizadas.
Mas também possui activos extraordinários: recursos naturais abundantes, potencial energético significativo, posição geográfica estratégica e uma sociedade que já demonstrou uma impressionante capacidade de reconstrução.
O potencial existe.
Mas potencial, por si só, nunca construiu prosperidade.
Somália também tem praias magníficas e águas cristalinas. Ainda assim, os turistas preferem Zanzibar, Mombaça, Seychelles ou Maurícias.
Não é por causa da beleza natural.
É porque nesses lugares existe estabilidade institucional e um ecossistema económico previsível.
A normalidade cambial não se decreta.
Constrói-se.
Constrói-se com disciplina fiscal.
Constrói-se com política monetária consistente.
Constrói-se com uma taxa de câmbio alinhada com os fundamentos económicos.
Se Moçambique conseguir alinhar estes elementos, a actual escassez de divisas será apenas um episódio transitório na sua história económica.
Mas se continuar a tratar sintomas em vez de causas, a tensão regressará — ciclicamente.
Parafraseando a economista Gita Gopinath, da Universidade de Harvard, poder-se-ia dizer que a economia moçambicana não está a sofrer um ataque cardíaco.
Tem apenas colesterol elevado.
O problema do colesterol, porém, é conhecido. Durante muito tempo não dói.Até ao dia em que dói de repente.
A boa notícia é que Moçambique ainda está a tempo de corrigir o rumo.
A má notícia é que, na economia, o tempo raramente espera.
Em Moçambique, ainda é possível





