Continua caótico o processo de pagamento de subsídios aos estudantes moçambicanos na Argélia, um problema já com “barba rija” e que até hoje continua sem solução. Nesta sexta-feira, 05 de Setembro de 2025, o problema voltou a dominar o encontro entre o Presidente da República e a comunidade moçambicana residente na Argélia, na sua maioria constituída por estudantes, no quadro da visita que o Chefe de Estado realiza àquele país magrebino.
Ao Presidente da República, os estudantes bolsistas – que se encontram na Argélia ao abrigo dos acordos de cooperação entre os dois países – denunciaram atrasos no pagamento de subsídios, assim como a alteração unilateral dos cursos para os quais têm concorrido no acto do lançamento dos concursos pelo Instituto de Bolas de Estudo (IBE).
Segundo o Presidente da Comunidade de Estudantes Moçambicanos na Argélia, Valdemiro Jorge, “faz um bom tempo” que os estudantes não recebem os subsídios das suas bolsas de estudo, facto que torna difícil as suas vidas, por um lado, devido à incapacidade dos pais em custear as despesas escolares e, por outro, devido à falta de oportunidades de emprego no território argelino.
“Faz um bom tempo que os estudantes moçambicanos, dentro do território argelino, não recebem o subsídio, têm de se virar e, como sabe, dentro do território argelino é difícil conseguir um biscate ou um lugar para trabalhar. Isso é um pesadelo que nos tira sono e nos tira a dedicação e foco naquilo que é o nosso objectivo, que é de estudar. Gostaríamos que Sua Excelência pudesse olhar esse ponto porque ele permitirá que nós possamos dedicar a nossa energia e a nossa força para os estudos, de modo a terminarmos em tempo recorde”, defendeu Valdemiro Jorge.
“Não se trata de pedir uma facilidade, mas sim um gesto de sensibilidade. Gostaríamos que assim fosse. Esse subsídio, mesmo que seja ajustado, de acordo com as realidades do país, vai ajudar bastante e vai nos dar um grande impulso”, acrescentou.
As palavras de Valdemiro Jorge foram secundadas por mais três estudantes moçambicanos, que se encontram naquele país há mais de cinco anos e que garantem estar privados do seu direito há alguns anos, uma situação que, segundo eles, levou alguns estudantes a regressar ao país.
Naira Boa diz ter chegado à Argélia em 2018 para um curso de licenciatura de cinco anos, mas quando já estava no seu último ano (em 2023), viu a sua bolsa de estudo a ser cortada sem conhecer as razões, embora tenha feito o curso em tempo recorde. No entanto, diz, houve estudantes que, apesar de terem registado um atraso nos seus estudos, receberam os seus subsídios.
“A maior parte dos meus colegas, que terminaram a licenciatura comigo em tempo recorde, encontraram-se numa situação de abandonar os estudos porque aqueles que nos deveriam defender ou incentivar a estudar estiveram aqui a nos perseguir, por isso questionamo-nos qual é o trabalho daqueles que vêm aqui para nos representar”, contou a moçambicana.
“Sofri as mesmas dificuldades que ela [Naira Boa] sofreu”, secundou Alfredo Macuácua, que está na Argélia desde 2018, e afirmou ser um dos que sofreram cortes naquele país do norte de África.
“A primeira coisa que foi cortada aos estudantes aqui na Argélia foi o direito de escolher a cidade onde querem frequentar os estudos. Depois foi cortada a faculdade de solicitar à Embaixada a alteração do curso. Começaram as irregularidades no pagamento dos subsídios que se foram multiplicando de tal forma que existia, naquela altura, um braço-de-ferro entre a comunidade estudantil e a equipa de pagamento de bolsas na Embaixada porque havia muitas irregularidades”, contou.
Prosseguindo, Alfredo Macuácua disse que último ano, em 2023, apesar de terem concluído os cursos em tempo recorde e estado no quadro de honra das suas universidades, “fomos colocados de lado no pagamento das bolsas”. Revelou: “temos muitos colegas que abandonaram Argélia e que deixaram entre 500 a 1.000 USD no sonho”.
“Gostava de saber se ainda temos direito ou podemos recuperar o dinheiro que não nos foi dado, porque estávamos ainda a fazer a licenciatura. Pode ser um valor que ainda nos possa ajudar a concretizar alguns projectos que nós temos como estudantes”, questionou, pedindo que o Governo verificasse o processo de pagamento de bolas de estudo naquele ano, de modo a se resolver as irregularidades.
Jéssica Viegas é outra estudante moçambicana que viu parte dos seus direitos amputados durante a sua formação em Medicina. Diz ter chegado em Argel em 2014 para um curso de sete anos, mas por ter reprovado duas vezes, teve de concluir o curso em nove anos. Nos últimos dois anos do curso não recebeu os seus subsídios, embora tenha colegas de cursos de cinco anos que receberam o dinheiro em situações em que estes também reprovaram duas vezes.
“Será que não fui paga a bolsa porque estava a fazer um curso de sete anos”, questionou a estudante, revelando que chegou a ter depressão devido ao problema, pois, os seus pais não dispunham de dinheiro para custear os seus estudos.
Em resposta, o Presidente da República prometeu trabalhar no assunto, de modo a restituir os direitos coartados aos estudantes. “Para estes casos, vamos fazer um levantamento de dados para perceber o que aconteceu. Se há, realmente, alguém que esteve na mesma situação e recebeu, então, alguma coisa não está bem. Ou não recebiam todos ou recebiam todos”, defendeu Chapo, assegurando ainda que “se há uma injustiça, tem de ser reposta”.
Refira-se que esta não é a primeira vez em que há relatos de irregularidades no pagamento de bolsas a estudantes moçambicanos na Argélia. Em 2012, por exemplo, os estudantes moçambicanos chegaram a ocupar a Embaixada moçambicana, em Argel, para exigir, por um lado, a regularização da situação e, por outro, o aumento do valor da bolsa, de 150 para 300 USD por mês.
Nessa altura, o país contava com mais de 600 estudantes, sendo, na altura, o maior grupo de bolseiros moçambicanos no estrangeiro. Actualmente, estão na Argélia pouco mais de 100 estudantes, constituindo a principal comunidade moçambicana no país.
Enquadramento dos formados no mercado de emprego em Moçambique
No encontro que durou perto de duas horas, os estudantes reportaram ainda, ao Chefe de Estado, dificuldades no repatriamento dos seus bens, no fim da formação (muitos deixam pertences comprados ao longo dos anos por excesso de carga); e a mudança unilateral dos cursos dos candidatos pelo Instituto de Bolsas de Estudo.
Igualmente reportaram dificuldades de enquadramento no mercado de emprego, no país, incluindo oportunidades de estágios pré-profissionais; e pediram a alteração do sistema clássico de atribuição de bolsas (para licenciatura) para um sistema LMD (Licenciatura, Mestrado e Doutoramento).
Sobre o repatriamento de bens, o Chefe de Estado disse que vai trabalhar com a contraparte argelina, com vista a encontrar-se soluções para que os estudantes consigam transportar os seus bens para Moçambique, visto que “tratando-se de estudantes, que vão viver aqui por muitos anos, não há como não acumular alguns bens”.
O Presidente da República prometeu também ajudar os estudantes a mudar os cursos para os quais foram direccionados sem que tenham concorrido. “É uma situação que vamos ter de gerir com o nosso Embaixador, com o Instituto de Bolsas e o sector da educação cá [da Argélia]”.
Nesta situação encontram-se, actualmente, quatro estudantes, nomeadamente, Valdemiro Jorge (que está para frequentar o curso de Francês, enquanto queria Ciências da Terra e de Vida); Ruqueia Massangaia (que está prestes a frequentar Medicina, mas concorreu para o curso de Ciências e Tecnologias); Nilza Manguele (que vai estudar Engenharia Informática, enquanto concorreu o curso de Letras e Línguas estrangeiras); e Agostinho Verniz (concorreu para o curso de Engenharia de Petróleo e Gás, mas está a cursar Ciências e Tecnologias).
Quanto ao enquadramento no mercado de trabalho, em Moçambique, Chapo assumiu que “este é o desafio” que o país tem, pelo que é importante que os candidatos concorram para os cursos de maior necessidade do país, como os de Engenharia de Petróleos, cujo mercado ainda é fértil no país, tendo em conta a implantação dos projectos de exploração de gás natural. (A. Maolela, na Argélia)





