O Debate em torno de um dos espectáculos da EXPO Dubai revelou que o moçambicano continua assimilando à herança colonial, isto é, não valoriza a sua cultura, não gosta. Afinal, o que é cultura?
Tylor tinha definido a cultura “um todo complexo que inclui o conhecimento, a crença, a arte, a moral, o costume e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. A cultura vai além das artes, inclui a língua.
Com esta definição, a cultura não se limitaria à “Alta Cultura” como acontecia no tempo colonial onde se valia a cultura do colono, mas incluía tudo que é feito pela sociedade. Assim, o que o indígena faz também é cultura.
Isto tudo vem a propósito dos comentários sobre a EXPO em que um comentador identificado como Tomas Vieira Mário exige um “desmentido público” da ministra da Cultura porque diz que o Pandza de Mr. Kuka é “pouco representativo da cultural musical moçambicana”, com efeito não “corresponde a uma exibição oficial”.
Curioso é ter criticado a representatividade da cultura moçambicana através do português que lhe parece muito representativo da cultura, e se refere ao Pandza, a música mais dançada pelo povo, como pouco representativa. Que critério o Sr. Tomás Viera Mário usou para aferir a representatividade da cultura moçambicana? Algum estudo, teoria ou paixão? O texto não diz, mas conclui que deve haver um pedido de desmentido.
O comentador, que eventualmente pertence a alguma Ordem Profissional, exige esse pedido de desmentido com base no “ser titular de todos os direitos de cidadania consagrada na Constituição de República”. Portanto, a mesma constituição da República que consagra que “todos os cidadãos têm direito à liberdade de criação”.
Enquanto membro da desejada Ordem de Cultura tenho interesse em tecer alguns comentários para evitar a pulverização de análise deste campo de estudo.
- O comentador tem todo o direito a evocar a constituição para exigir um pedido de desculpas pelo critério de escolha do Mr. Kuka. Sucede que a constituição consagra a liberdade de criação artística como direitos fundamentais. Então, não existe na constituição de Moçambique nenhum impedimento de ser criativo, criar ou inovar um género musical, como foi o caso do Pandza. Não é pela constituição que se fundamenta o critério de escolha, mas sim pela política cultural associada à EXPO. Ao menos que explique como se extrai uma representatividade.
- Mas a EXPO DUBAI tem um curador que não foi nomeado pela Ministra. Deve saber melhor que ninguém que o comissariado das EXPO é criado pelo Conselho de Ministros e não pelo ministério da Cultura. Querendo exigir algum pedido deveria fazê-lo a quem tem responsabilidades, no mínimo, demonstraria comprometimento com a causa. A crítica é bem-vinda, mas com algum sustento que supere os segundos do vídeo.
- O comentador parece que não viu o espectáculo alusivo ao dia de Moçambique, mas parte dele, por sinal, uns segundos. Recomendo que assista o concerto e ouça o discurso que o seu director artístico faz. Diz Moreira Chonguiça que quer “desconstruir Moçambique”, revelar a sua “diversidade étnica”. E como faz?
O concerto, no minuto 29 da cerimónia, inicia com Mbira/Santse/Kalimba ou Xitata um instrumento tradicional com cerca de 3000 anos e comum entre os povos bantus. Portanto, Mbira é nossa cultura. Se dúvida existia sobre representatividade, o tambor de Xigubo tratou de desfazer. Repito, recomendo que assista ao concerto todo e não trecho porque é desonestidade intelectual exigir um pedido de desmentido à ministra porque deseja que a parte em causa seja maior que todo o concerto.
- Se a ordem da Cultura fosse como Ordem dos Advogados, Engenheiros, Médicos, Arquitectos todos perceberiam melhor o que é cultura moçambicana. Reparem que a língua usada na EXPO Dubai foi o português. Custa-me acreditar que a língua portuguesa, num acto oficial no Dubai, representa mais a cultura moçambicana do que o Pndza do Mr. Kuka. Alguém entende porque não se criticou o não uso de changana, Makua ou outra identidade Nacional? A resposta é: português é língua oficial. Agora queremos músicos oficiais, géneros musicais oficiais tal como acontece nos países comunistas e tivemos na CNCD essa herança de companhia oficial. Portanto, o que vem do colono, a língua portuguesa é cultura nacional e o que vem dos jovens pandzante, não é. Creio que temos que descolonizar o nosso saber e hábito.
- Visto sobre este prisma, o problema não é ter no acto oficial cultura “estrangeira”, mas ter sido apresentado à Baixa cultura. Isto é, foi apresentado o Pandza, mas quanto ao ter sido apresentado o português não incomoda ninguém.
- É importante que se crie a Ordem de Cultura em que todo o interessado no desenvolvimento deste sector deva ser avaliado para junto da sociedade exercer esta função. Os Médicos, Engenheiros, Arquitectos, Advogados há muito perceberam que se não sentarmos cinco anos a estudar o que queremos ser vamos matar muita gente. Pedimos que na verdade sejam montadas portagens culturais onde existem dois lados. Um baixo outro alto.
- Em suma, a Constituição de República não só consagrou a liberdade de expressão como direito fundamental, mas incluiu o direito à criação. A EXPO merece profunda mudança para atribuir mais competência à tutela da cultura porque cabe ao Conselho de Ministros. A curadoria da EXPO existe e pode pronunciar-se querendo. Pandza é nossa cultura. Não há nada de cidadania ou ciência quando se exige pedido de desculpas à ministra com fundamentos subjectivos. É importante ler os decretos sobre EXPO para perceber a responsabilidade de cada um, e assistir o vídeo completo.
- Mr. Kuka tem meu apoio e dos que têm hábitos e costumes populares porque só assim não teremos portagens na cultura que privilegiam a censura de micromúsicas. O resto tem a ver com protagonismo que qualquer projecto implica.
Genitho 1Rasta





