Na sede da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), onde foi homenageada no dia 10 de Setembro, Lília Momplé esteve ausente por razões de saúde. Entre familiares, escritores, leitores e jovens autores, a sua obra voltou a ser lembrada como memória, testemunho e responsabilidade. Um ano depois de a entrevistarmos em sua casa, recuperamos algumas das suas palavras, sobretudo aquelas em que falava do futuro que ainda desejava para a literatura moçambicana.
Lília Momplé não esteve na sede da AEMO na tarde em que o seu nome esteve no centro da sala. Foram os familiares que falaram em seu nome numa sessão que reuniu leitores, estudantes, escritores, amigos e jovens autores, no âmbito das celebrações dos 44 anos da agremiação.
A ausência, contudo, não impediu que se falasse dela a partir de diferentes lugares. Houve quem lembrasse a escritora que conheceu; quem recuperasse a relação pessoal construída ao longo dos anos; quem destacasse a influência da sua obra sobre uma geração mais nova; e quem procurasse situá-la no percurso da literatura moçambicana e nas instituições culturais que também ajudou a construir.
A sessão começou com as palavras de boas-vindas do secretário-geral da AEMO, Filimone Meigos, que enquadrou a homenagem nas celebrações dos 44 anos da associação e no reconhecimento do percurso de Lília Momplé.
Em representação da família, Ricardo falou da relação com a escritora e agradeceu à AEMO pela homenagem. A ausência de Momplé aproximou o testemunho da mulher que existe para além dos livros: aquela que a família acompanha de perto e conhece também na vida quotidiana.
Palmira, mulher de Ricardo e também próxima de Lília Momplé, retomaria essa dimensão no final da sessão. É uma das pessoas que actualmente acompanha a escritora de perto e está ligada aos cuidados e às responsabilidades da sua vida quotidiana. “Eu sempre dizia ao meu marido: ‘Eu não vou morrer sem deixar aqui outra secretária-geral’.”
Entre uma intervenção e outra, foi-se tornando mais evidente uma dimensão de Lília Momplé que não cabe apenas nos livros: a relação que construiu com diferentes gerações de escritores. Foi a partir dessa relação entre gerações que falou o poeta Nelson Lineu. Em representação dos jovens escritores, recordou a sua aproximação a escritora e o contacto que outros jovens ligados ao Movimento Literário Kuphaluxa foram mantendo com a escritora e a sua obra.
A relação, explicou, não se limitou à leitura. Passou por encontros, iniciativas e momentos de homenagem e divulgação da obra da escritora. É também desse contacto que nasce um documentário actualmente em produção sobre a escritora, intitulado “Lília Momplé: o sofrimento e o desespero em arte e amor”, dedicado à sua vida e obra.
A presença dessa geração na homenagem não é um detalhe. Um ano antes, quando a entrevistámos na sua residência, em Maputo, uma das suas preocupações estava precisamente naquilo que aconteceria à literatura depois dela.
Naquela manhã, a escritora tinha sobre a mesa livros, papéis e uma lupa. Aos 90 anos, continuava a corrigir o trabalho de uma jovem escritora. “Continuo a contribuir para a literatura”, disse-nos então. E explicou: “A literatura vive disso, a literatura vive da memória”.
Naquele momento, falava de uma jovem que acompanhava e da possibilidade de que ela viesse, um dia, a tornar-se a segunda mulher a ocupar a secretaria-geral da AEMO. Era uma preocupação que a escritora exprimia sem esconder a mágoa pelo facto de ter sido, até hoje, a única mulher a ocupar o cargo. “Eu sempre dizia ao meu marido: ‘Eu não vou morrer sem deixar aqui outra secretária-geral’.”
A frase ganha outra leitura quando, um ano depois, jovens escritores se reúnem numa sala da AEMO para falar sobre ela. Mas não é apenas a questão da sucessão que ajuda a explicar a permanência de Momplé entre os escritores mais jovens. Há também a obra.
A história vista de perto
O poeta Léo Cote, na sua intervenção, procurou pensar a escritora a partir da relação com o seu tempo. A leitura que apresentou afastou a escritora de uma ideia mais convencional da chamada poesia de combate e aproximou-a da figura do intelectual orgânico: alguém cuja escrita permanece profundamente ligada à sociedade em que vive.t
A comparação que estabeleceu com a poetisa Luísa de Sousa serviu para pensar essa relação entre escritor e contexto. No caso de Lília Momplé, esse contexto atravessa praticamente toda a obra.
“Ninguém matou Suhura”, publicado em 1988, recupera histórias marcadas pela violência colonial. “Neighbours”, publicado em meados da década de 1990, parte de um episódio de violência política ocorrido em Maputo durante o conflito regional que envolvia a África do Sul do apartheid. “Os olhos da cobra verde”, de 1997, volta a trabalhar sobre experiências e tensões da sociedade moçambicana.
Quando falámos com ela, há um ano, ela explicou que muitas das personagens dos seus livros nasceram de pessoas e acontecimentos que conheceu. “Todos eles, mais ou menos, são verídicos”, disse.
A escrita começou, aliás, antes de ela se considerar escritora. No contexto colonial, contou-nos, não tinha consciência de que a literatura pudesse ter um papel importante no desenvolvimento de um país. Escrevia por outra razão: porque havia dentro dela uma sensação persistente de injustiça. “Comecei a escrever por uma espécie de necessidade… de tirar de dentro de mim aquela sensação constante de que eu e o povo moçambicano estávamos a ser vítimas de qualquer coisa”.
O primeiro livro só viria depois dos 50 anos. A publicação de “Ninguém matou Suhura” alteraria a relação que tinha com os próprios textos. Antes disso, escrevia sem imaginar que aquelas histórias seriam publicadas. Foi Luís Bernardo Honwana, então ministro da Cultura, quem a convenceu de que o livro devia chegar aos leitores.
O livro acabaria por alcançar várias edições. Honwana também aparece na memória dela por outra razão. Quando esteve ligada ao Ministério da Cultura, acompanhou o ministro em diferentes iniciativas e recordou, na nossa conversa, o papel que teve na criação de estruturas como as escolas de Artes Visuais, Música e Dança.
Falou, ainda, da exposição de Arte Maconde apresentada em Paris e da surpresa que provocou entre jovens estudantes franceses. São memórias de uma escritora que não viveu a literatura separada da cultura e da sociedade. A sua passagem pelas instituições culturais fez parte desse percurso.
As intervenções dos seus pares recuperaram precisamente essa dimensão biográfica e literária, passando por diferentes momentos do percurso de Lília Momplé e pelas responsabilidades de liderança que assumiu. Entre elas, a secretaria-geral da AEMO, cargo que ocupou entre 1995 e 2001.
O que a literatura guarda
Há um episódio da conversa que tivemos com a escritora no ano passado que ajuda a perceber a relação entre acontecimento e escrita. Falava de “Neighbours”. Numa madrugada, quando vivia na então Rua General Pereira D’Eça, ouviu sons que lhe pareceram garrafas de champanhe a serem abertas. No dia seguinte, soube que tinha ocorrido uma operação de assassinato de pessoas ligadas ao ANC, envolvendo sul-africanos e moçambicanos.
A notícia perturbou-a. Durante meses, segundo contou, ficou impressionada com o acontecimento e com a proximidade da violência. Depois escreveu. “Fiz este livro também como uma catarse. Já fiz várias catarses na vida”.
É difícil separar essa palavra da própria ideia que Lília Momplé tem da literatura. Não como solução para os problemas do país, nem como substituto da política, mas como uma forma de retirar experiências do silêncio e colocá-las diante dos outros. Talvez por isso a memória seja tão central na sua obra. Não apenas a memória individual, mas também a memória de um país.
O que vem depois?
A homenagem terminou com a entrega de uma escultura, de um diploma de mérito e de um mucume. Houve também o corte do bolo dos 44 anos da AEMO. Depois das formalidades, o público teve espaço para falar. Leitores e escritores partilharam considerações sobre a escritora, completando, a partir das suas próprias experiências, o retrato construído ao longo da tarde.
A cerimónia terminou, mas uma pergunta levantada pela própria escritora há um ano permanece: o que fazer com a literatura que recebemos? Na entrevista realizada em sua casa, não respondeu falando apenas de livros. Falou de leitura, de educação, de solidariedade e de responsabilidade. Criticou a pouca circulação dos livros e a perda do hábito de leitura. Insistiu que não é possível escrever bem sem ler.
E, quando lhe perguntámos que sonho guardava para o futuro da literatura e da sociedade moçambicana, respondeu: “A esperança”. Depois falou de uma sociedade onde houvesse solidariedade e partilha. Falou de bom gosto – na vida, na educação e também na literatura. E voltou a colocar responsabilidade sobre os professores e sobre aqueles que vêm depois.





