A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), a Portos e Caminho de Ferro de Moçambique (CFM) e a Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE), corporações que compõem o Conselho de Administração da Linhas Aérea de Moçambique (LAM), no âmbito da reestruturação da companhia aérea de bandeira, criaram recentemente uma sociedade e registaram-na na Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), com o objectivo único de adquirir aviões para LAM. Trata-se da Fly Moz Investiments S.A, com sede em Maputo e um capital social de 10 milhões de Meticais.
A informação foi revelada há dias pelo Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, durante a abertura do XXII Economic Briefing da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA). Sem revelar o nome da sociedade, João Matlombe disse: “todo o processo de reestruturação que nós estamos a fazer ao nível da nossa companhia de bandeira, a LAM, está a ser feito através de uma sociedade criada e registada na Bolsa de Valores de Moçambique”.
Entretanto, em conversa com o Presidente do Conselho de Administração da BVM, Pedro Cossa, “Carta” apurou que se trata da Fly Moz Investments, S.A. “É uma sociedade anónima de direito moçambicano, com sede em Maputo e um capital social de 10 milhões de Meticais, representado por um milhão de acções ordinárias. E permita-me aproveitar a pergunta para desfazer um equívoco que tem circulado: a Fly Moz não é, em rigor, uma sociedade de gestão da LAM. É um veículo de investimento – aquilo a que no mercado se chama SPV, uma sociedade de propósito específico – criado pelos accionistas com dois momentos bem definidos”, explicou Cossa.
Segundo Cossa, num primeiro momento, a Fly Moz vai adquirir aeronaves e colocá-las à disposição da LAM em regime de locação seca, o chamado dry lease: a Fly Moz é proprietária dos aviões, a LAM opera-os sob o seu próprio Certificado de Operador Aéreo e assume as tripulações, a manutenção e os seguros, dado que o objecto social da Fly Moz exclui expressamente a operação de aeronaves. “Num segundo momento, a sociedade entrará na estrutura accionista da LAM. É uma sequência estruturada, em que primeiro se alivia a LAM do esforço financeiro de comprar frota, e depois trata-se do capital”, acrescentou o PCA da BVM.
Cossa fez ainda saber que a Fly Moz foi constituída por escritura pública de 6 de Outubro de 2025, no Cartório Notarial do Ministério das Finanças (o mesmo em que foram criadas a REVIMO e as três empresas envolvidas nas dívidas ocultas) e os seus estatutos foram publicados no Boletim da República de 12 de Dezembro de 2025, sendo os accionistas fundadores, a HCB, os CFM e a EMOSE, as três empresas que gerem actualmente a LAM.
Sociedade começou a operar em Março de 2026
Depois do registo, o PCA da BVM explicou que, neste momento, decorre o processo de admissão à cotação no Terceiro Mercado da BVM. Segundo Cossa, cronologicamente, a 02 de Fevereiro de 2026, os accionistas reuniram-se em Assembleia Geral Extraordinária e aprovaram formalmente o pedido de entrada em bolsa, mesmo antes do início de actividade, o que é um prenúncio do tipo de gestão que se pretende transparente e equilibrada.
Em Março de 2026, a sociedade iniciou actividade. Em Abril de 2026, submeteu à BVM o pedido de admissão, acompanhado do respectivo Prospecto e do Plano de Negócios, através de um operador de bolsa que patrocina o processo, no caso o Banco Nacional de Investimento (BNI).
“A partir daí entrou-se naquilo que é, na Bolsa, trabalho de rotina e de rigor, a instrução técnica do processo. A BVM analisou a documentação e apontou um conjunto de aspectos a aperfeiçoar, que foram sendo sanados. Posteriormente, a própria Fly Moz remeteu à BVM informação adicional sobre as actividades desenvolvidas entre Março e Junho de 2026”, acrescentou o PCA da BVM.
Fly Moz caminha para cotação
Segundo Cossa, a decisão de cotar a Fly Moz compete ao Conselho de Administração da BVM e o processo encontra-se na fase final da sua instrução. Sublinhou que, para admitir qualquer sociedade à cotação, a Bolsa precisa de um documento contabilístico credível que ateste a sua situação financeira. “Quando a Fly Moz submeteu o pedido, em Abril, esse documento não podia existir: a sociedade tinha começado a operar em Março e nenhum semestre se havia completado”, assinalou a fonte.
Entretanto, Cossa explicou que os estatutos da sociedade tornaram possível a apresentação de demonstrações financeiras reportadas a 30 de Junho de 2026 com todos os requisitos associados: elaboradas nos termos do Plano Geral de Contabilidade baseado nas Normas Internacionais de Relação Financeira (PGC-NIRF), assinadas por contabilista certificado pela Ordem dos Contabilistas e Auditores de Moçambique, e a serem aprovadas pelo Fiscal Único, submetidas à BVM através do operador de bolsa patrocinador, o BNI.
“Reunido esse elemento, e verificadas as demais formalidades, estarão criadas as condições para a concretização da admissão. Não estamos perante um travão; estamos perante uma sequência que tem de ser cumprida – e que é, ela própria, uma garantia dada ao investidor”, sublinhou o PCA da BVM.
Importância do registo da Fly Moz na BVM
Segundo Cossa, a operação importa por duas razões. A primeira é institucional, pois, a reestruturação da LAM não é um dossier sectorial: é uma política pública assumida ao mais alto nível. O reforço da LAM foi assumido pelo Governo como uma das prioridades do actual ciclo de governação.
“A segunda razão é de mercado, e é a que mais nos diz respeito enquanto Bolsa de Valores. A admissão da Fly Moz traz ao mercado de capitais moçambicano um activo com exposição ao sector da aviação, até hoje inexistente na BVM. Diversifica a oferta, aprofunda o mercado e abre aos investidores nacionais a possibilidade de participarem, através da Bolsa, num projecto de interesse estratégico para o país”, concluiu o Presidente da BVM.





