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10 de March, 2026

Alambique: quando a música se tornou destino

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O planisfério literário moçambicano, do Nelson Saúte, que tem sido um libelo contra a desmemória, o descaso da pátria e, convenhamos, contra o vexame do esquecimento, quase não faz referência ao agrupamento Alambique. Não creio que se trate de pura omissão, muito menos de desconhecimento.

Em boa hora, um tributo traz de volta esta mística banda, com Childo Tomás e Celso Paco de forma presencial,membros de toda uma geração que brindou o país com uma sonoridade elegante e erudita. Dizem os mais velhos que “quando dois rios se encontram, nasce uma corrente ainda mais forte”. Foi esta corrente que deu corpo ao surgimento do nosso saudoso Alambique.

Não foi em 1980, como por vezes se supõe, mas em 1984, ano em que duas inquietações musicais, Arão Litsure e Hortêncio Langa, decidiram transformar encantamento em projecto.

O começo dos anos 80 havia sido de pro acontecimentosculturais. Criam-se inúmeras bandas tais como, M`bila, Ndzuti   (sombra) e até o Xigutsa Vuma, a cabeça com os saudosos Pedro Langa e Simião Mazuze, este, maistarde, Salim Mohamad.

Para o grupo Alambique tudo começará em 1982, quandoArão e Hortêncio integraram uma digressão do Grupo Nacional de Canto e Dança, viajando por Cuba, Jamaica e Guiana. Essas delegações culturais eram mais do que espectáculos, eram afirmações diplomáticas e marcavam o compasso de países solidários que sabiam reescrever a cultura através da cooperação feita de guitarras, violinos e tambores.

Samora Machel, era um incansável promotor da cultura como instrumento político. Compreendia que uma nação recém-independente precisava de se apresentar ao mundo pelo seu canto, pela sua dança e pelo seu ritmo. Por conseguinte, um Ministério da Educação e Cultura, ciente dessa ligação estrutural inquebrantável.

Moçambique, independente desde 1975, seguia uma orientação socialista marxista, aplaudida por muitos, e olhada de soslaio pelo Ocidente. O país se posicionava, sempre contra os regimes das minorias do apartheid na África do Sul e na Rodésia, afirmando-se solidário com os movimentos de libertação da África Austral. Quantas vezes, nessa ocasião, ouvimos falar e celebrar os Não-Alinhados, e outros países que fizeram parte do nosso imaginário.

1980 foi um ano economicamente de mau agouro, a crise que se abateu na economia nacional, a guerra de desestabilização mergulhou Moçambique numa das fases mais difíceis da sua história, o caos tomou conta de todos nós, em cada esquina as famílias se desestruturavam, o tecido social dilacerou, e voltámos a escutar Nyerere, dizendo que Moçambique estava em mar alto. Mas, o nosso mar alto tinha ondas tenebrosas. Como se diz lá pelo Norte, a árvore pode perder as folhas, mas não perde as raízes. E a cultura tornou-se raiz e bandeira.

Sem grande precisão sobre quem havia participado no festival do Caribe, encontrava-se, entre outros agrupamentos, a banda jamaicana Third World. O seu reggae sofisticado, com fusões harmónicas e consciência política, já influenciava auditórios moçambicanos. Arão e Hortêncio assistiram às performances e ficaram profundamente tocados. Não era apenas a música, era a atitude estética, a construção sonora, a disciplina de palco.

Do festival e dessas observações foi ganhando corpo o sonho de criar, em Moçambique, uma banda que conjugasse identidade nacional, sofisticação harmónica e consciência histórica. Nascia o embrião de um sonho, e parecia sem retorno. O apoio do governo à cultura era evidente. Arão e Hortêncio, Já na cidade de Maputo, começam a maturar as linhas que iriam costurar essa nova banda. Um pouco por todo o país, novas bandas e rítmos se firmavam. Cerca de um ano depois a Empresa Moçambicana de Entretenimento (EME) promovia um concurso para descoberta de novos talentos, num momento em que Hortêncio era o Chefe de Produção da EME. Entre eles, destacava-se Childo Tomás, então integrante da banda Comércio, hoje muito pouco falada, e Celso Paco, oriundo de uma família profundamente ligada à cultura e guitarrista do grupo Xigutsa Vuma. Eram as peças-chave para corporizar aquilo que deixaria de ser apenas um sonho musical, tornando-se uma realidade ao alcance da mão.

Este período coincide com a fase da rebeldia musicalonde os músicos cantavam sem ocultar o desacordo e a controvérsia. A sociedade também mostrava indignação devido as experiências dos campus de reeducação e da sinistra operação produção que para os músicos foi de péssima memória.

Iniciaram-se os contactos. Fizeram-se propostas. Foi um sonho em conjunto. A este núcleo juntou-se, ainda na fase de construção, Alex Honwana, como teclista. Houve, também, a presença inspiradora de um professor da Escola de Música, conhecido como Langa, cuja orientação técnica foi determinante, embora não tenha chegado a integrar formalmente o grupo. “Quem ensina a semear, participa da colheita”, ensina um ditado popular.

Assim nasceu, em 1984, o Alambique. O nome era simbólico. Um alambique que destilava, transformava epurificava. E o grupo propôs-se a isso, destilar tradição e modernidade, fundir jazz, marrabenta e influências afro-caribenhas, e criar uma linguagem urbana sofisticada, sem perder o enraizamento.

A entrada no cenário musical moçambicano foi triunfal. O público encontrou ali algo novo e sofisticado, com rigor instrumental, experimentação e identidade. Tocaram meia dúzia de anos, não tantos quanto o nosso gosto e desejo gostariam, mas consolidaram-se como referência do jazz e da música moderna moçambicana.

Entre as passagens marcantes, destacam-se a entrada de Adérito Gomate, no teclado, que substituiu Alex Honwana, posteriormente, a presença de André Cabaço, ainda que de curta duração, mas cuja contribuição elevou ainda mais o nome e a reputação do grupo.

Mais tarde, já no final da década de 1980, quando Arão Litsure partiu para Harare onde foi estudar Teologia, o grupo Alambique quase entrou em desagregação, porém, novas vozes integraram o grupo, mesmo sem vínculo efectivo, caso particular de Stewart Sukuma, voz então emergente que acrescentou uma nova cor ao percurso do Alambique.

A vida, porém, é feita de travessias. Arão construiu uma trajectória em que música, missão pastoral e política se entrelaçaram. Celso Paco radicou-se na Europa, levando consigo o pulso moçambicano para os palcos exigentes da Escandinávia. Childo também migrou para a Europa.

As nossas referências sustentam que o Alambique jamais se extinguiu como banda, apesar de muito se falar do seu fim. As saídas, no entanto, sugeriram uma descontinuidade. Os tempos políticos ganharam novos contornos, o país tentou desfazer-se da bandeira socialista e seguiu pelos caminhos de Bretton Woods. Machel foi assassinado, e o movimento cultural sofreu um revés.

Hortêncio Langa continuou no país, assumindo uma posição mais educativa e ajudando a formar novas gerações de músicos, e fê-lo de forma exímia. Porém, jamais deixou de cantar e de apoiar os mais jovens. Este país ficará a dever muito a esse filho de Manjacaze, com origens em Chibuto, que cantou Moçambique com o melhor do seu talento e de sua voz.

Arão, igualmente, já não caminhava entre nós. Ainda assim, quando regressou dos estudos, assumiu essa espiritualidade e uma missão política. Mais tarde, voltaram a reunir-se para celebrar os 20 anos do Alambique, aproveitando a presença em Maputo, em gozo de férias, de Childo e de Celso, destilando a mesma qualidade e dignidade. Como diz o nosso povo, “os mortos não morrem quando partem, morrem quando são esquecidos”. Eles

permanecem aqui, e este tributo será prova evidente de uma destilaria que continua viva e activa.

Recordo, como jovem, do privilégio de assistir a alguns concertos do Alambique. Guardo memórias vívidas, ora do Duo, ora do Quinteto Alambique em palco. Mais tarde, privei com Hortêncio em momentos diferentes, informais, académicos e em tantas tertúlias musicais de que fazia questão de participar. Também reencontrei Arão em Harare, onde as suas vocações se cruzavam sempre com a missão de evangelizar e pacificar almas desavindas de um país em conflito permanente e em desarmonia social.

Essas memórias confirmam outro ensinamento ancestral, o de que “a música é a casa onde o tempo não destrói”. Hoje, graças à iniciativa de amigos liderados pelo produtor e radialista Izidine Faquirá, esta história é novamente convocada. Não como nostalgia, mas como uma semente. Um tributo cujo simbolismo valerá a pena revisitar.

Essa fogueira que hoje nos aquece foi acesa por mãos antigas, porém, também é verdade que, se ninguém lhe acrescentar lenha, o fogo extinguir-se-á. O Alambique não é, nem será nunca, apenas memória, pois, é responsabilidade. É herança viva colocada nas mãos de uma nova geração de músicos moçambicanos que hoje ocupa palcos, estúdios, igrejas, escolas e plataformas digitais.

Os que vieram antes provaram que era possível criar em meio à escassez, a música de qualidade. Que era possível fazer jazz num país em guerra. Que era possível pensar harmonia quando o ruído da instabilidade e dasarmas tentavam abafar os sonhos. “A água que encontra pedra não recua, contorna e segue.” Hoje, os desafios são outros. A globalização aproxima, mas também dilui, a tecnologia amplia vozes, mas também uniformiza sons. O risco já não é apenas o silêncio imposto, é a perda de identidade.

Então, os novos Alambiques são chamados não a imitar, mas a compreender. Não a repetir fórmulas, mas a assumir a mesma coragem de experimentar.

O jazz moçambicano não nasceu da cópia, nasceu da síntese. “Quem sabe de onde vem, sabe para onde pode ir.” Que cada jovem músico se pergunte, que som traduz o meu tempo? Que ritmo fala da minha comunidade? Que harmonia revela a complexidade do meu país?

Celebrar os 46 anos do Alambique é lembrar que a música pode ser projecto de um país. Que pode dialogar com o mundo sem perder o sotaque. Que pode ser sofisticada sem se afastar do povo. Que pode ser espiritual, política e estética ao mesmo tempo. Enquanto houver quem toque com verdade, o Alambique continuará aceso.(X)

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