A antiga primeira-ministra moçambicana, Luísa Diogo, e a advogada Lucinda Cruz sublinham a defesa de camadas sociais desfavorecidas por Carlos Cardoso, recordando matérias sobre as mulheres das fábricas de caju e dos pequenos importadores informais, vulgo “mukheristas”, nos trabalhos do jornalista.
Diogo e Cruz falavam em entrevista ao jornalista Joao Almada, num trabalho especial para Carta de Mocambique, a proposito de 25o aniversario do assassinato de Carlos Cardoso, que se assinala no proximo sábado (22).
Para Diogo, que conheceu Cardoso em 1994, o cajueiro plantado por operárias no local onde o jornalista foi assassinado simboliza, de forma sublime, o reconhecimento do compromisso com as classes desfavorecidas.
A admiração das mulheres que trabalhavam nas fábricas de caju nasceu da luta, através de textos que escreveu, contra a imposição do Banco Mundial para a liberalização da indústria do sector, uma política que, para Carlos Cardoso, era uma sentença de morte para milhares de trabalhadores.
Luísa Diogo, que era ministra das Finanças quando Cardoso foi assassinato, em 22 de Novembro de 2000, recorda que aquelas operárias exigiram que a rua onde o jornalista foi morto a tiro levasse o seu nome, numa demonstração do reconhecimento do seu papel.
Diogo lembra igualmente o empenho do escriba em compreender a dinâmica do “mukhero”, como era designada a actividade de importações informais da África do Sul e que alimentavam o comércio informal em Maputo.
Preocupava-se com o desemprego e contestava decisões económicas que, no seu entendimento, empurrariam pequenos comerciantes para a miséria, como a entrada do grupo de comércio a retalho Shoprite, no país, enfatiza a política, que foi primeira- ministra entre 2004 e 2010.
Com o tempo, a então ministra das Finanças percebeu que muitas das preocupações de Carlos Cardoso coincidiam com as do Governo, incluindo a necessidade de reabilitar infra-estruturas, especialmente estradas, e a urgência de compreender a economia real, aquela que se movimentava entre “mukheristas”, feiras e pequenos circuitos de comércio.
Carlos Cardoso transformava essas observações em dados concretos e fazia estatísticas, mapeava trajectos e analisava fluxos económicos, prossegue Luísa Diogo.
A antiga governante diz ainda que o jornalista internacionalizou debates, como o da indústria do caju, construindo alianças com colegas de outros países e pressionando instituições como o Banco Mundial.
Luísa Diogo considera que o jornalista destacava-se pela frontalidade e curiosidade inesgotável.
Recorda ainda que Carlos Cardoso influenciou mudanças estruturais, como o avanço do apoio directo ao Orçamento, numa altura em que tal parecia impensável.
A adesão do jornalista ao movimento Juntos pela Cidade é lembrada por Luísa com humor, porque dava nomes aos buracos, conforme os presidentes do município, impulsionado pelo desejo sincero de melhorar a cidade.
Defensor convicto dos pobres – Lucinda Cruz
A advogada Lucinda Cruz, assistente particular da família de Carlos Cardoso no julgamento do homicídio, também retrata o jornalista como um defensor dos pobres.
Cruz lembra que Cardoso escreveu profusamente sobre as vendedeiras e as lógicas de sobrevivência no mercado informal.
Era uma pessoa totalmente entregue ao jornalismo, sem ambições políticas pessoais, prosseguiu a jurista.
A sua entrada no movimento Juntos pela Cidade, dizia, era apenas a tentativa de contribuir para uma gestão urbana mais próxima dos cidadãos, lembra Lucinda Cruz, que conheceu o jornalista no final dos anos 70, “num ambiente de amizades partilhadas entre jornalistas, músicos e jogadores de “bridge”’.
“Era um homem ardente, sempre entusiasmado, que tanto investigava casos complexos como tocava guitarra e cantava Zeca Afonso”, nota, retratando uma faceta mais intimista de Carlos Cardoso.





