O antigo vice-presidente da Assembleia da República Abdul Carimo e o veterano da Frelimo Óscar Monteiro recordam o jornalista Carlos Cardoso, como um defensor de grandes causas, com rigor ético extremo e cultor da crítica.
Carimo e Monteiro falavam em entrevista ao jornalista João Vaz de Almada, num trabalho especial para Carta de Mocambique, a proposito de 25o aniversario do assassinato de Carlos Cardoso, que se assinala no próximo sábado (22).
O antigo vice-presidente da Assembleia da República, que como jurista se envolveu com Cardoso em vários temas, assinala que a abnegação na advocacia do interesse público era tal que o jornalista chegou a pensar em submeter-se a uma greve de fome e barricar-se no gabinete do primeiro-ministro, para impedir a liberalização da exportação da castanha de caju.
“‘Buda [nome com que Abdul Carimo é tratado pelas pessoas mais próximas], tomei uma decisão. Vou sentar-me à porta do gabinete do primeiro-ministro e fazer uma greve de fome’”, afirmou o jornalista, ameaçando com uma acção que não se veio a concretizar.
Entre todas as batalhas públicas, a defesa da indústria moçambicana de caju foi a maior de todas, enfatiza.
O Banco Mundial exigia a liberalização total do sector do caju, para continuar a desembolsar fundos para o OGE, mas Carlos Cardoso via essa exigência como a sentença de morte de milhares de empregos e qualificava o Banco Mundial de “governadora colonial de Moçambique”.
A afinidade entre Abdul Carimo e Carlos Cardoso aprofundou-se, quando o jornalista iniciou a defesa pública da liberalização da canábis, não apenas por razões medicinais ou industriais, mas sobretudo, para evitar que jovens camponeses fossem presos por possuírem “cinco gramas de soruma no bolso”.
Em 1996, já como deputado da Frelimo e vice-presidente da Assembleia da República, Carimo iniciou secretamente a elaboração da Lei do Tráfico de Drogas.
Quando apresentou o projecto, fê-lo articulado com Cardoso, que insistia para que os nomes dos traficantes fossem tornados públicos.
Abdul Carimo aponta os debates que levaram à apresentação da carta “Sobre o Direito do Povo à Informação”, em 1990, ao então Presidente da República, Joaquim Chissano, como outro grande marco da militância de Carlos Cardoso por grandes causas.
Por volta de 1990, Abdul Carimo e João Carlos Trindade, na altura juízes, foram chamados por um grupo de cidadãos, entre eles Carlos Cardoso, Fernando Lima e Kok Nam para analisar a referida.
O documento daria origem à Lei da Liberdade de Imprensa, marco fundamental na abertura democrática do país, relata Abdul Carimo.
Carimo lembra ainda que, em 1987, enviado da AIM à frente da batalha do Cuíto-Cuanavale, a maior batalha convencional da história africana, Carlos Cardoso enviava diariamente relatos directos, afirmando que forças cubanas combatiam disfarçadas como tropas do MPLA.
Fidel Castro, irritado, perguntou às autoridades moçambicanas: “quem é esse Carlos Cardoso que não para de enviar informações da frente?”.
Abdul Carimo descreve ainda Carlos Cardoso como um homem de “rigor ético extremo”.
Após ser eleito deputado municipal do JPC, questionava frequentemente até que ponto poderia conciliar a actividade política com a função de jornalista, especialmente, quando tinha acesso a informações sensíveis da Assembleia Municipal.
Cardoso via as vantagens da crítica – Óscar Monteiro
Óscar Monteiro, que ocupou várias pastas ministeriais nos governos da Frelimo, também assinala a personalidade de Carlos Cardoso como homem de causas.
“Ele era um homem de causas. Estava na maneira de ser dele. Era apaixonado por tudo o que fazia. Sempre com garra e à procura da verdade”, diz, Monteiro, que conheceu o jornalista por força da “rotina de vizinhos profissionais”.
À hora do almoço, cruzavam-se no pátio entre a AIM e a garagem do Conselho de Ministros.
Recorda a véspera do assassinato de Carlos Cardoso, 22 de Novembro de 2000. Caminhava com a esposa em Sommerchield quando encontrou o jornalista.
“Amanhã vou prestar um grande serviço ao país”, disse-lhe o jornalista.
Óscar Monteiro relata que percebeu que algo extraordinário seria divulgado no dia seguinte. A frase, para ele, é hoje uma ferida aberta.
Óscar Monteiro, já fora do governo à época, reconhece que a crítica sempre incomodou as estruturas políticas:
“Ninguém gosta da crítica. Uns toleram melhor do que outros. Mas ela magoa sempre. Só espíritos muito elevados e amadurecidos, como o do CC, veem as vantagens da crítica”, declara.





