O Presidente Interino do partido Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA), Venâncio Mondlane, diz ter criado a base fundamental para o diálogo nacional “inclusivo” em curso no país e que “os outros” estão “a tirar proveito” do seu suor. A posição foi assumida esta segunda-feira, em Maputo, durante o lançamento da auscultação popular independente do partido em torno das reformas políticas, legais e económicas que devem ser realizadas em Moçambique.
A tese veio a propósito da revelação feita, semana finda, pelo académico Severino Ngoenha de que as ideias principais que nortearam o documento-base do Diálogo Interpartidário, na altura conduzido por Filipe Nyusi, eram de Venâncio Mondlane, extraídas dos famosos 20 pontos enviados à Presidência da República, em Novembro de 2024, como condicionante para a participação deste no encontro entre o ex-Chefe de Estado e os então candidatos presidenciais.
“As ideias principais que nortearam o documento eram de Venâncio Mondlane. Quando as ideias foram introduzidas, o documento circulou entre todos os partidos e, pouco-a-pouco, fomos perdendo o controlo dele, quando foi para Comissão Política, para o Comité Central e começaram a fazer mudanças”, revelou o filósofo moçambicano, durante a Conferência Anual do Observatório do Meio Rural (OMR).
Em reação a esta explanação de Severino Ngoenha, Venâncio Mondlane afirmou que a sua vida e, provavelmente, do seu partido e de todos que lutam pela justiça, é de criar bases e não se beneficiar dos resultados. Afirma que tal é histórico e que aconteceu também com os fundadores das nações africanas.
“Normalmente, tudo aquilo para o qual lutamos, por ser verdadeiro e justo, nós nunca tiramos proveitos. (…) Todos aqueles que foram fundadores da nação, normalmente, não tiram proveito, nem da independência e nem da prosperidade do país. A função deles é criar as bases para que gerações vindouras tirem proveito dessa luta, por isso, os 20 pontos que hoje são a base fundamental do Diálogo Político Exclusivo vieram directamente da ANAMOLA”, defendeu.
Mondlane, responsável pela convocação dos protestos pós-eleitorais que paralisaram o país entre Outubro de 2024 e Março de 2025, afirma não ser novidade ver resultados da sua luta serem saboreados por outros. Garante ter vivido a mesma experiência na Renamo e no MDM (Movimento Democrático de Moçambique), por onde passou antes de fundar o seu partido.
“As decisões mais importantes dessas organizações foram feitas por mim e na última [que foi a Renamo] havia um Congresso que não queria ser realizado e tive que fazer uma coisa única e revolucionária no país: levar o caso ao Tribunal. Nunca ninguém tinha visto um partido ser julgado no Tribunal. Ganhamos a causa e o congresso foi convocado, mas fui excluído”, recordou.
Refira-se que na Conferência do OMR, realizada na terça-feira (08 de Outubro), Ngoenha defendeu não fazer “absolutamente nenhum sentido” realizar-se um diálogo político sem a presença do Líder do ANAMOLA por entender ser a cara “mais representativa das exigências do povo”.
“No nosso último encontro com o Presidente [da República], dissemos: Senhor Presidente, a razão da existência de um diálogo, em Moçambique, foram as manifestações e a cara mais representativa das exigências do povo é o Venâncio [Mondlane]. Não faz absolutamente nenhum sentido que vocês façam esse diálogo sem a presença dele”, contou Ngoenha, revelando que o pensamento foi expresso antes de Venâncio Mondlane enviar uma carta ao Chefe de Estado, a solicitar a integração do seu partido na Comissão Técnica do Diálogo Nacional Inclusivo. A carta foi enviada a 21 de Agosto e até hoje não teve resposta.
“O Presidente respondeu-me: isto é de Lei [a composição da Comissão Técnica], foi o Parlamento que tomou a decisão e só o Parlamento pode decidir que já não vão para o diálogo os partidos com representação parlamentar e municipal, mas que possam entrar também outros partidos. Então, eu disse: Senhor presidente, vou agarrar a sua palavra, a próxima reunião do Parlamento é em Outubro. Quer dizer que o Senhor vai submeter, em Outubro, este pedido ao Parlamento para que retifique…e aí entramos naquelas coisas que se diz, não se diz, faz-se, não se faz…”, detalhou o também Reitor da Universidade Técnica de Moçambique (UDM).
Ausente do Diálogo Político “Inclusivo” formal, o ANAMOLA decidiu lançar uma auscultação pública paralela, com a finalidade de colher opiniões em torno das reformas que devem ser feitas no país. Os resultados da auscultação serão enviados à Comissão Técnica do Diálogo, liderada por Edson Macuácua. (Carta)





