O académico e jornalista britânico Joseph Hanlon acusou, nesta quarta-feira (03), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) de terem criado condições para a emergência de “oligarcas” na Frelimo, que são co-responsáveis pelo “saque” e miséria do país.
Hanlon, que estuda e escreve sobre Moçambique há 47 anos, fez essa dissecação, durante a apresentação, em Maputo, do livro “Moçambique Recolonizado Através da Corrupção”. “Espero que os leitores fiquem chocados com a forma como o FMI e o Banco Mundial criaram oligarcas para a recolonização. Espero que fiquem igualmente chocados com a forma como a elite moçambicana abandonou o seu próprio povo”, afirmou, falando num acto que decorreu no Centro de Integridade Pública (CIP).
Apontou, como exemplo, a alegada chantagem que o Banco Mundial exerceu sobre o Governo da Frelimo, para a privatização do “bem gerido e lucrativo” Banco Popular de Desenvolvimento (BPD), que resultou no saque e devolução ao Estado da instituição.
“Foi privatizado como Banco Austral. Foi saqueado e devolvido ao Estado. Mas moçambicanos honestos intervieram. Siba Siba Macuácuá foi nomeado presidente do banco. Ele publicou listas de devedores de alto nível. Três meses depois, foi atirado pelas escadarias do edifício de 15 andares do seu banco”, recordou.
A esse acontecimento, os doadores responderam com ajuda extra, prosseguiu Joseph Hanlon. Hanlon apontou igualmente a exigência do BM para a liberalização da indústria do caju, lembrando que essa acção saldou-se no desemprego de 10 mil trabalhadores.
Aquele académico, docente na Universidade de Londres, referiu que as reformas impostas a Moçambique e a outros países que saíram da órbita do ex-Bloco Comunista foram uma terapia de choque alicerçada em políticas de austeridade, mercado livre extremo e um incentivo à ganância.
Essas intervenções corporizam o que Joseph Hanlon qualifica como segunda colonização e envolveram o “uso de pessoas no topo do partido comunista para o controlo sobre terras, recursos e contratos, para servir empresas estrangeiras”. “Essas pessoas eram oligarcas que se tornaram ricos e poderosos, ao servir interesses estrangeiros. (….) Foi exactamente isso que foi imposto a Moçambique”, declarou Hanlon.
Nesse sentido, frisou, Moçambique é novamente uma colónia, mas nesta época de corporações globais, em que os oligarcas enriquecem ao servir o capital estrangeiro. A primeira colonização foi com o acordo internacional assumido na Conferência de Berlim, em 1984, em que o território hoje chamado Moçambique foi entregue a Portugal, recordou.
Famílias de ex-presidentes controlam ouro de Manica
Para consubstanciar a tese de que Moçambique tem oligarquias que controlam as suas riquezas, em conluio com o grande capital estrangeiro, Joseph Hanlon apontou o caso do ouro da província de Manica, cuja exploração desregrada levou o actual Governo a suspender as licenças de extracção daquele minério. “Como podem os moçambicanos de alto nível, incluindo as famílias dos ex-presidentes, destruir voluntariamente os rios e lagos e a agricultura de Manica?”, questionou Joseph Hanlon.
O ouro é controlado pelos oligarcas moçambicanos, prosseguiu, assinalando que o seu novo livro vai a fundo na análise desse “desastre ecológico”, também investigado pelo CIP.





