Recentemente, a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior e mais antiga instituição de ensino superior do país, publicou um relatório académico, dando conta de que forma, em média, apenas um terço dos estudantes que admite anualmente.
De acordo com a Universidade, entre 2020 e 2024, foram admitidos cerca de 5.000 novos estudantes por ano, mas apenas 1.500 concluíram os cursos dentro do período previsto, deixando mais de 3.000 retidos no sistema académico, um cenário que preocupa não só a comunidade académica, mas também a sociedade.
Diante deste cenário, “Carta” procurou obter explicações por detrás desta realidade junto dos estudantes daquela universidade pública, tendo conversado com formandos da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e das Faculdades de Direito, Medicina e Engenharia. Todos identificam falhas institucionais e desafios pessoais como causas principais para o atraso na conclusão dos cursos e, sobretudo, na defesa das suas monografias.
Carlos Mugabe, nome fictício de um estudante finalista do curso de Jornalismo, naquela universidade pública, afirma que a procrastinação (acto de adiar ou deixar para depois) foi o maior entrave. “Embora tenha um tutor sempre disponível, o acúmulo de responsabilidades profissionais e pessoais levou-me a constantes adiamentos na dedicação à monografia”, revelou, sublinhando, porém, que os problemas vão além da gestão individual de tempo.
“Na ECA, por exemplo, os processos administrativos são morosos. Há notas que não são lançadas no sistema académico ou leva-se muito tempo para registá-las, criando incertezas sobre a situação curricular dos estudantes. A emissão de certificados e documentos essenciais também é extremamente lenta”, destacou.
Eduardo Manuel (também um nome fictício) é outro estudante da ECA que não conseguiu defender a sua monografia devido à ausência de uma nota no sistema. “Eu fiz a cadeira, paguei todas as taxas, mas a pauta desapareceu. Nem a escola, nem o professor tinham registo. Isso fez-me perder o prazo da defesa e até refiz uma disciplina concluída anos atrás”, relatou.
Para o estudante, a situação reflecte uma “grande desorganização institucional”, agravada pela transferência das instalações da ECA para o campus universitário. “Muitos documentos e notas perderam-se nesse processo. O sistema académico usado pela UEM [SIGA-Sistema Integrado de Gestão Académica] não funciona e, em vez de ajudar, só serve para cobrar taxas e mais taxas. Os estudantes acabam pagando valores adicionais sem conseguir concluir os cursos”, defendeu.
O problema é confirmado também por Laura Aníbal, nome fictício de uma estudante de medicina, que denuncia a falta de clareza e comunicação dentro da universidade. “Há estudantes obrigados a repetir exames de disciplinas que já constam nos certificados de cadeiras feitas. Isso acontece porque as notas não são lançadas no sistema e a escola empurra a responsabilidade para os estudantes. É desgastante”, afirmou.
Laura questiona ainda o facto de ser na própria universidade onde falta comunicação. “A universidade tem muitos problemas, por isso devia fazer um restart para não prejudicar os alunos. Esses problemas só aparecem no fim do curso, quando vamos submeter a monografia. Muitos de nós completámos as cadeiras em tempo recorde, mas descobrimos nessa altura que existem lacunas que a instituição não consegue resolver. Não faz sentido”.
Os estudantes entrevistados pela Carta de Moçambique defendem que a universidade precisa de investir na digitalização eficiente dos processos, na desburocratização administrativa e em mecanismos de supervisão mais próximos para apoiar os finalistas. “Não é apenas preguiça dos estudantes. A estrutura da universidade não está organizada e isso compromete a missão formativa da UEM”, resumiu um finalista do curso de Direito.
Os estudantes vão mais além e denunciam que a UEM chega a solicitar novos exames a alunos que já defenderam as suas monografias, devido à perda de pautas ou notas por parte da instituição. “Como defender nessas circunstâncias? Como graduar e como sair dessa universidade, se em vez de avançarmos somos obrigados a voltar atrás? E o pior é que não abrem espaço para negociação em casos provocados pela própria instituição. Muitos de nós temos pautas e provas que provam que fizemos as cadeiras e passámos”, relatou a fonte.
Prosseguindo, um dos finalistas atira: “os problemas da UEM são desgastantes. Parece que fazem de propósito para que os estudantes não terminem. Estudamos durante quatro anos, mas quando chega a hora da defesa, a universidade dificulta a nossa saída”.
Casos semelhantes, narram os estudantes, incluem situações em que o Registo Académico exige que estes escrevam cartas explicando porque é que não conseguiram defender a tempo. No entanto, essas cartas são simplesmente arquivadas e nunca recebem resposta.
Os estudantes defendem que as consequências da “desorganização” na UEM vão para além da vida académica. Garantem existir estudantes que perderam oportunidades de emprego por não conseguirem concluir a licenciatura dentro do prazo.





