Entre memórias da infância, o impacto do jornalismo e a oralidade que molda a sua escrita, o escritor e jornalista Bento Balói reflecte sobre como a literatura pode preservar a memória colectiva e ajudar a pensar o futuro do país. Autor de obras como “No Verso da Cicatriz” e “Chave de Areia”, Baloi fala sobre como a guerra civil e outras tragédias nacionais se tornaram matéria de ficção e de alerta na sua obra.
Mais do que um exercício estético, a obra de Bento Balói é uma confrontação com as falhas e silêncios da história. Ao transformar tragédias em matéria de ficção, o escritor desafia a tentação de esquecer e recusa o conforto da abstração. A sua escrita, ancorada na oralidade e na experiência do jornalismo, convoca os leitores a encarar cicatrizes ainda abertas e a reflectir sobre os riscos de repeti-las, sobretudo num país onde a sombra da guerra continua a rondar. Premiado com o Prémio Mia Couto, em 2023, na entrevista que se segue, Balói reflecte sobre a condição de todos nós, moçambicanos.
Carta da Semana (CS): Que imagens ou memórias da sua infância continuam a pulsar na sua escrita hoje?
Bento Balói (BB): Tenho muitas imagens e memórias da infância, porque cresci num momento histórico muito particular. Nasci em 1968 e, na altura da independência nacional, tinha sete anos. Vivi, portanto, esse período intenso de transformação sócio-política em Moçambique: a independência, o esforço de construção do novo Estado e do “homem novo”.
As imagens desse tempo – quando tinha oito, nove, dez anos – são muito fortes e acabaram por marcar a minha escrita. Sinto que a nova geração, nascida nos anos 80, 90 e 2000, não conhece em detalhe o que se viveu naquela época. Por isso, volto sempre a essas memórias, porque são elas que atravessam e alimentam os meus textos.
CS: Em que momento percebeu que queria se dedicar ao jornalismo e à literatura?
BB: O meu sonho de adolescente sempre foi a literatura. Eu queria, acima de tudo, ser escritor. No processo de procurar esse caminho, acabei entrando para o jornalismo. Ou seja, não foi o projecto de jornalista que criou o escritor; foi o projecto de escritor que acabou por criar o jornalista.
A inspiração veio das leituras que tive na infância e na adolescência. Esse era o meu maior sonho: escrever. Mas as circunstâncias da vida empurraram-me para o jornalismo. Porquê? Porque naquela altura os jornais tinham páginas dedicadas à literatura, e eu procurava sempre colaborar com elas. Foi assim que me aproximei, me conectei com o mundo do jornalismo, apaixonei-me por ele, e acabei fazendo dele também o meu caminho.
CS: Como a sua experiência em jornalismo influenciou a sua abordagem à ficção?
BB: Na verdade, eu não tenho uma formação formal em jornalismo. Minha formação académica é noutras áreas. Mas aprendi o jornalismo “on the job”. Comecei, por isso, a trabalhar na área e, no dia-a-dia, fui conhecendo e dominando suas técnicas.
O jornalismo ensina muito. Ele expõe-nos à realidade, leva-nos a lugares recônditos do país e permite conhecer pessoas extraordinárias. A partir desse contacto, com as pessoas, com esses lugares, com a realidade sócio-cultural do Moçambique real, a gente ganha uma base sólida para a ficção.
Então, o jornalismo acabou sendo uma fonte constante de inspiração para tudo o que tenho escrito.
“(…) a literatura não se deve limitar a abstracções. É preciso pegar coisas do nosso dia-a-dia, fazer com que as pessoas se reconheçam nos personagens, sentir que as histórias fazem parte da própria vida”.
CS: Teve mentores ou leituras que definiram de forma decisiva o seu estilo literário?
BB: Já li muito, talvez mais do que leio hoje. Na adolescência, era o que tínhamos para nos ocupar; não havia muitas opções de diversão. Muita gente lia romances policiais, westerns, colecções de cowboys…Mas houve um autor que foge completamente dessa linha: um romeno pouco conhecido entre nós, Virgil Gheorghe. Tenho quase toda a obra dele em casa, porque fui coleccionando os livros. O que me ligou a ele foi “A 25.ª Hora”. Esse livro marcou-me profundamente e fez-me seguir sua obra, lendo vários outros livros dele.
Não sei se posso chamá-lo de mentor, porque nunca tivemos contacto directo. Mas é um autor que, de certa forma, define muito a minha escrita. Seu traço se sente claramente nos meus textos, e eu o admiro imenso. É um grande autor.
CS: De que modo eventos como o ciclone Idai (Arca de Não É) ou o acidente de Samora Machel (Chave de Areia) se transformaram em matéria de romance?
BB: Como disse antes, o jornalismo influenciou muito a forma como abordo os temas. Talvez por causa disso, acredito que a literatura não se deve limitar a abstracções. É preciso pegar coisas do nosso dia-a-dia, fazer com que as pessoas se reconheçam nos personagens, sentir que as histórias fazem parte da própria vida.
Foi assim que peguei eventos realistas – duas grandes catástrofes da história de Moçambique, o Idai e o acidente que vitimou o presidente Samora Machel – e os transformei numa forma de ficcionar a nossa própria história. No caso do Idai, as histórias contadas em “Arca de Não É” são todas de ficção. Já a “Chave de Areia” mistura ficção com investigação, buscando alguma verdade material sobre os acontecimentos de 19 de Outubro.
São dois trabalhos feitos com paixão, alegria e emoção. Ambos têm momentos críticos, e minha voz literária se imiscui nesses eventos, tentando trazer essas imagens vivas para a cabeça dos leitores.
“Não sou crítico do pós-colonialismo”
CS: Em obras como “No Verso da Cicatriz”, há uma crítica directa ao pós-colonialismo. Até que ponto se vê como “cronista moral” de Moçambique?
BB: Não sou muito apologista da ideia de crítica directa. Se você ler com atenção “No Verso da Cicatriz”, vai perceber que eu apenas apresento factos. São acontecimentos da nossa história, alguns pouco conhecidos pela juventude. Mas evito ao máximo fazer juízo de valores. Apresento os factos, num contexto romanceado, e deixo ao leitor a tarefa de avaliar e tirar conclusões.
Não me assumo como crítico do pós-colonialismo, de maneira nenhuma. Eu trago à tona factos importantes que merecem análise. Aqueles que concluímos não terem sido benéficos para a história do país são apresentados como lições. Como nação, precisamos garantir que erros do passado não se repitam. Eu procuro colocar questões à mesa de debate, sem fazer juízo de favor.
“A guerra deixou feridas profundas. Provocou destruição quase total e marcou a nossa história com cicatrizes duras. É um mal que não queremos repetir. Hoje, com o conflito em Cabo Delgado, sentimos esse mesmo perigo. Não queremos que a guerra se espalhe pelo país”.
CS: Os protagonistas de “No Verso da Cicatriz” carregam cicatrizes individuais e nacionais. Como constrói personagens que funcionem como “espelhos” de conflitos sócio-políticos, sem cair no maniqueísmo?
BB: As cicatrizes individuais são, na verdade, colectivas. Cada personagem representa um pouco de cada moçambicano. Os conflitos que apresento e as figuras que construo formam um “eu” plural, que espelha a experiência de todos nós.
O que procuro é que cada leitor se reconheça nessas personagens. As cicatrizes que elas carregam são, no fundo, as cicatrizes do nosso povo. E se há cicatrizes, é porque houve feridas. O objectivo é aprender com isso, evitar que novos conflitos sócio-políticos criem novas feridas. Feridas não ajudam. Queremos um país que avance de forma firme, sem repetir os erros que nos colocaram de joelhos no passado.
CS: Como equilibra a necessidade de preservar a memória colectiva com o risco de reviver esses traumas?
BB: Não podemos ter receio de revisitar o passado, sobretudo quando ele traz experiências fortes que exigem atenção. A única forma de evitar que eventos dolorosos se repitam é termos consciência deles. E sinto que muita gente em Moçambique ainda não tem plena consciência do que aconteceu no país. É essencial que todos conheçamos essas histórias para impedir que se repitam.
Vou dar um exemplo simples: a guerra.
A guerra deixou feridas profundas. Provocou destruição quase total e marcou a nossa história com cicatrizes duras. É um mal que não queremos repetir. Hoje, com o conflito em Cabo Delgado, sentimos esse mesmo perigo. Não queremos que a guerra se espalhe pelo país.
Não estou a questionar as motivações políticas ou de outra natureza de quem a desencadeou. O que importa é que, depois da experiência de 16 anos de guerra, os moçambicanos precisam de maturidade para superar diferenças sem recorrer às armas, sem matarmo-nos uns aos outros.
CS: Muitos críticos destacam a sua prosa lírica e oralidade. Como constrói esse ritmo tão característico?
BB: A minha preocupação é que o texto flua. E nós somos um país de oralidade. A única forma de prender o leitor é não fugir dessa nossa matriz. O desafio, então, é transformar a oralidade em texto escrito, criando algo lírico e agradável de ler.
É um exercício criativo: fundir oralidade e escrita, trabalhar o ritmo, usar técnicas que mantenham o leitor atento. O objectivo é simples, mas essencial: evitar que ele desista no meio do livro. Tudo é pensado para que a leitura envolva até à última página.
CS: Que peso dá ao “silêncio” nos seus textos? Aos espaços em branco, às entrelinhas?
BB: As entrelinhas são esse truque: momentos de respiração em que o próprio texto precisa respirar. A gente também precisa puxar ar. São esses elementos que tornam a leitura mais leve.
Quando o texto não respira – quando se fala sem parar, de forma contínua – perde-se o fôlego. E o leitor também. Por isso, na minha estratégia de escrita, uso os espaços em branco para que o texto respire e consiga abraçar quem lê.
Do papel aos palcos
CS: Trabalha há anos com dramaturgos e coreógrafos. Em que difere a escrita para o palco da escrita para o papel?
BB: Nos anos 90, trabalhei muito com dramaturgia. Escrevi muitos textos para teatro, tanto para palco quanto para rádio. A escrita para ser representada tem técnicas próprias; a escrita para ser lida, outras. O segredo é conhecer essas técnicas e aplicá-las no momento certo.
Para o palco, você fecha os olhos e vê o espaço: as luzes, os actores, os bailarinos, tudo. E depois coloca isso no papel. Quando o texto é para a leitura, fecha-se os olhos e imagina-se os personagens no mundo real: correndo, saltando, amando, dançando, vivendo, sofrendo, chorando. Tudo depende da imagem que criamos na cabeça, e depois isso se transforma em peça de teatro ou em romance.
CS: Como equaciona hoje o desafio de escrever para “um mercado global” sem abdicar da identidade moçambicana?
BB: Hoje, a gente escreve sem saber exactamente onde os textos vão parar. Assim como consumimos muitos livros de autores brasileiros, portugueses ou angolanos, que carregam a identidade deles…, os nossos textos também têm o dever de mostrar a cultura moçambicana, a nossa moçambicanidade, como pensamos, como agimos, como vivemos o dia-a-dia.
O livro é cultura, é nossa cultura. Por isso, não podemos inventar histórias fora do contexto moçambicano. Primeiro penso assim, e se o mundo consumir, que consuma. Mas vai consumir um livro de um autor moçambicano que fala da nossa realidade. Essa realidade pode ser vista sob vários prismas: histórico, cotidiano, futurista.
Sempre, porém, com raízes moçambicanas. É assim que penso.
“A guerra não pode voltar a acontecer em Moçambique. Como nação, devemos ter a capacidade de resolver conflitos sem recorrer às armas, sem destruir o país, sem matar uns aos outros”.
CS: O Prémio Mia Couto ampliou o seu público? Sentiu pressão para manter um certo padrão temático ou estilístico?
BB: Não, o prémio Mia Couto foi algo muito bom, que me deixou orgulhoso. É o primeiro e único prémio que recebi até hoje na minha carreira literária, então, naturalmente, deu mais visibilidade ao livro “No Verso da Cicatriz”. Depois do anúncio, mais gente se interessou pela leitura, e isso é sempre positivo.
Quanto à pressão, ela existe sempre. Depois de “Recados da Alma”, recebi um feedback interessante, então, ao lançar “No Verso da Cicatriz”, a ideia era manter ou até melhorar o padrão do livro anterior. Depois veio “Chave da Areia”, também após um prémio. O desafio está sempre presente. Mas a pressão não é negativa; precisamos fazer algo que dialogue com os leitores e que também nos satisfaça como autores.
CS: A guerra civil (1977–1992) continua a ecoar na nossa literatura. Como a vivência ou a transmissão oral desse período alimenta os seus textos?
BB: Bem, a guerra – chamemos-lhe o nome que quisermos – foi, sem dúvida, uma das piores experiências da história do nosso país. O nível de destruição foi incrível. Pelo censo de 1980, éramos cerca de 13 milhões de habitantes. Durante a guerra, aproximadamente 5 milhões tornaram-se refugiados: 2 milhões no Malawi e os restantes 3 milhões distribuídos pela África do Sul, Swazilândia, Zimbabwe, Zâmbia e Tanzânia.
As zonas rurais foram praticamente abandonadas. Dos 8 milhões que permaneceram, a maioria concentrou-se nas grandes cidades. O campo ficou quase deserto, o país paralisado, as infra-estruturas destruídas. Em 1992, quando a guerra terminou, muitas sedes de distrito simplesmente não existiam. Falo disso porque, na época, eu era jornalista e percorri esses lugares. Hoje, ao compará-los com 1992 – 93, a diferença é enorme. Na altura, não havia escolas, postos de saúde, nem população; as vias de acesso estavam destruídas.
A guerra não pode voltar a acontecer em Moçambique. Como nação, devemos ter a capacidade de resolver conflitos sem recorrer às armas, sem destruir o país, sem matar uns aos outros. Foi, provavelmente, a pior experiência pós-independência, e precisamos garantir que não se repita. A guerra vai continuar presente na literatura moçambicana, inclusive nos meus textos, porque foi um marco terrível na nossa história.
CS: Que histórias sobre esse conflito sente que ainda não foram dados voz?
BB: Bem, não sei exactamente quais histórias não tiveram voz, porque a guerra teve um impacto terrível em todos os níveis. Crianças assassinadas, crianças transformadas em soldados, crianças que perderam os pais; mulheres assassinadas ou violadas; homens assassinados. Morreu muita gente.
Há muitas histórias horríveis sobre a guerra que ainda não foram contadas. Nem todas eu conheço, obviamente, mas são muitas. Por isso, acredito que ainda vamos ler muito sobre esse período em Moçambique. Ainda teremos muita literatura sobre a guerra, porque aquela guerra foi, de facto, uma catástrofe que a literatura precisa continuar a narrar.
CS: O “Arca de Não É” procurou preservar a memória do Idai. Que papel atribui hoje à literatura na prevenção e na resiliência das comunidades a desastres?
BB: Sim, a literatura tem, obviamente, um papel muito importante. Tem um papel fundamental na criação de consciência nas pessoas. Tivemos heróis no Idai, e algumas crónicas mostram esses heróis. Elas servem para provar que somos um povo forte, capaz de se reinventar, de se erguer e caminhar com os próprios pés, apesar de todas as adversidades.
O Idai foi uma adversidade que nos abalou a todos. Mas nós nos erguemos. Estamos aqui, firmes, com todos os nossos problemas, mas como nação. É assim que deve ser: temos de continuar a caminhar em frente.
O futuro da literatura moçambicana
CS: Como tem acompanhado e apoiado a nova geração de escritores moçambicanos?
BB: Eu tenho acompanhado com atenção o desenvolvimento da literatura moçambicana. Há muitos jovens abraçando a área literária de forma muito forte. São talentos notáveis e merecem o apoio e o incentivo de todos nós.
Acredito que esses jovens representam o futuro da literatura moçambicana. Alguns já começaram a ganhar prémios internacionais e a conquistar reconhecimento lá fora. Por isso, é fundamental que sejam apoiados e acarinhados.
CS: Que conselho daria a um jovem que escreve o seu primeiro texto, numa comunidade como a nossa?
BB: Bem, que conselho eu daria ao jovem que escreve o seu primeiro texto? Eu daria o mesmo conselho que me deram quando escrevi o meu primeiro texto. Eu sempre sonhei em ser romancista. Tinha uns 16 ou 17 anos quando escrevi o meu primeiro texto. Naquela época, a única editora em Moçambique era a Associação de Escritores Moçambicanos. Levei o meu texto para propor publicação e o conselho que recebi foi: vai devagar, não te precipites a escrever textos grandes; começa por textos curtos, aposta no conto e procura publicá-los.
Hoje temos plataformas digitais, e naquela época disseram para publicar os contos nos jornais. Com o tempo, à medida que vais escrevendo textos curtos, aperfeiçoas a tua escrita. E assim, amanhã, já podes desafiar textos maiores, como um romance. Então, meu conselho é: começa pelo texto curto, publica, recebe feedback dos leitores e aperfeiçoa a tua escrita; o resto virá com a prática.
CS: Imaginemos a cena literária nacional daqui a dez anos: que transformações espera ver?
BB: Bem, daqui a dez ou mais anos, eu espero continuar a ver os jovens autores moçambicanos de hoje a confirmar esse potencial que todos vemos neles, a se tornarem grandes referências da literatura moçambicana. Também espero que, nessa altura, os livros possam chegar a mais moçambicanos. Precisamos de desenvolver estratégias para que a nossa literatura alcance mais pessoas e que possamos partilhar essa riqueza cultural com todos os compatriotas.
CS: Qual seria o seu manuscrito “perdido” que gostaria de redescobrir nessa altura?
BB: Felizmente, não tenho nenhum manuscrito perdido. Os meus “manuscritos perdidos” estão todos na minha cabeça; as ideias estão sendo moldadas e trabalhadas, vendo se surgirá um projecto novo.
CS: Qual a dívida pessoal que sente ainda ter com Moçambique – e que só a literatura pode saldar?
BB: Bem, a dívida que tenho com o meu país é continuar a escrever. E é uma promessa que faço a mim mesmo: continuar a escrever. Por meio da literatura, quero contribuir para o crescimento de Moçambique. Essa é a forma que encontrei para participar do desenvolvimento do meu país. Enquanto tiver energias e forças, vou continuar a trabalhar e a escrever, a bem de Moçambique e da literatura moçambicana.





